O novo paquete “Pátria”, da Companhia Colonial de Navegação, saído no Domingo de Glasgow, chegou ante-ontem ao Tejo, acompanhado do navio de carga “Lunda”, também da frota da mesma Companhia.
Às 8 horas, os dois navios embandeirados em arco e, uma hora depois, suspendiam ferro e começavam a navegar rio acima. Rebocadores apinhados de gente e embandeirados vinham rio abaixo ao encontro do “Pátria” e do “Lunda” em vistoso cortejo. Em frente de Belém acostou ao “Pátria” o rebocador “Oceania”, da C.C.N., a bordo do qual vinham membros do Governo e outras personalidades oficiais. Os navios abrandaram marcha. O “Oceania” acostou ao “Pátria” por cuja escada de portaló subiram então para bordo do paquete os Ministros da Marinha, das Finanças e da Justiça e os sub-secretários de Estado das Colónias e do Comércio e Indústria.
Ao portaló, esperava-os o sr. Bernardino Correia, acompanhado pelos srs. Dr. Bustorff Silva, Engº. Barbosa Braga e Dr. Soares da Fonseca, respectivamente presidentes da Assembleia Geral, do Conselho Fiscal e delegado do Governo junto da Companhia Colonial.
No momento em que o sr. Comandante Américo Tomaz entrou no primeiro «deck» e apertou efusivamente a mão ao presidente da Colonial, ouviram-se a bordo os acordes da «Maria da Fonte», enquanto se sucediam os cumprimentos aos outros membros do Governo. Subiram também a bordo o sr. Comandante Henrique Tenreiro, o Comandante da Polícia Marítima, o oficial-adjunto da Capitania do porto, o Director Geral das Alfândegas, o Vice-presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante, etc.
O “Pátria”, à frente de um longo cortejo de embarcações, retomou então a marcha rio acima, enquanto os membros do Governo subiam para a ponte de comando. Pelas 10 horas, a mancha clara e imponente do maior e mais moderno paquete português destacava-se diante da Praça do Comércio, onde centenas de pessoas admiravam o belo espectáculo nesta manhã festiva de Ano Novo.
Nesse momento subiam nos mastros do aviso “Pedro Nunes”, navio-chefe da esquadra, bandeiras de sinais que significavam «Seja benvindo!», saudação que o “Pátria” imediatamente agradeceu, enquanto muitas sereias de rebocadores silvavam com intermitências. O «cláxon» grave do paquete respondia com séries de três roncos prolongados, que repercutiam seus ecos pelas colinas da cidade.
Entretanto, os membros do Governo davam começo a uma rápida visita ao “Pátria” e percorriam os salões de música e de jantar e o bar da 1ª. classe, as instalações das classes turística e terceira, a casa da máquina e outras dependências, em especial a ampla e bem apetrechada enfermaria. Estiveram depois num camarote de luxo e num camarote de casal, cuja disposição e mobiliário lhes mereceram, como todas as outras instalações, as mais calorosas referências.
O “Pátria” lançou ferro, pelas 11 horas, em frente da Praça do Comércio. No salão de música foi servida uma taça de champanhe. Estavam presentes todos os convidados para a primeira viagem do navio e as entidades que tinham entrado a bordo pouco antes, entre as quais os administradores da C.C.N., srs. Dr. Domingos de Meneses, Raul Vieira, Major Raposo Pessoa e o Dr. João do Amaral; os membros do Conselho Fiscal, srs. Engº. Duarte do Amaral e D. Nuno da Câmara, etc.
O sr. Bernardino Correia, usando da palavra, disse que a aquisição do “Pátria” era um facto de importância sem precedentes na História da Marinha Mercante Nacional, e que ele era devido graças ao plano do Ministro da Marinha e à intervenção do Ministro das Finanças, ambos ali presentes. Afirmou que a Companhia Colonial de Navegação se empenharia por bem cumprir a sua missão e porque assim será e porque a chegada do “Pátria” precede por largos meses a de outros iguais desejaria que lhe fosse reconhecido o esforço desenvolvido e o desejo de bem cumprir. E terminou agradecendo àqueles membros do Governo a grande realização que estão a levar a efeito e, a todos, a visita que acabavam de fazer.
Em seu nome e no do Ministro das Finanças, o Comandante Américo Tomaz agradeceu, por seu turno, as palavras de Bernardino Correia e felicitou-o pela magnífica aquisição do novo navio, reservando-se para se referir mais tarde ao significado do acontecimento. Nesse momento apenas apresentava à Companhia os seus cumprimentos. E com uma taça de champanhe trocaram-se brindes pelo êxito do novo paquete.
Os ministros e outros visitantes regressaram a terra seguidamente. O navio ficou fundeado durante algumas horas em frente ao Terreiro do Paço, onde foi admirado, durante o dia, por centenas de pessoas.
A festa da passagem de ano a bordo do “Pátria”
A bordo do “Pátria”, realizou-se, na noite de São Silvestre, uma festa para solenizar o termo da primeira viagem daquele novo paquete e a passagem do ano. Às 22 horas e meia, começou a ser servida, na luxuosa sala de jantar da primeira classe, a ceia de gala, a que assistiram todos os passageiros, convidados da Companhia Colonial de Navegação, o Comandante e a oficialidade do “Pátria”. À meia-noite, ao som do Hino Nacional, com a sereia de bordo a silvar, todos ergueram as suas taças, comovidamente, pela Pátria, pela Marinha Mercante Nacional, pelo paquete que inaugurava a sua actividade e pela C.C.N.
O sr. Bernardino Correia, Presidente do Conselho de Administração, a quem todos os convivas, afectuosamente, saudaram, discursou em primeiro lugar, para saudar os seus convidados e companheiros de viagem e acentuar o significado desta para a C.C.N. e para a nossa marinha mercante. Foi muito aplaudido, seguindo-se-lhe, no estrado, o rev. Moreira das Neves, chefe de redacção das “Novidades”, que proferiu uma alocução em nome da Imprensa de Lisboa, o sr. Engº. Quintela Saldanha, que falou pelos convidados em geral, e o sr. Carlos Ribeiro, Chefe dos serviços externos da Emissora Nacional, que brindou pela C.C.N., em nome desta. O nosso colega na Imprensa sr. Maurício de Oliveira, Chefe dos serviços de propaganda da C.C.N., leu telegramas de saudação recebidos de Lisboa.
Seguiu-se um animado baile, durante o qual, bem como durante a ceia, se jogaram serpentinas, o que, com os vestidos de noite das senhoras e os trajes de cerimónia dos homens, deu à festa um aspecto extremamente agradável à vista.
A última parte da festa foi constituída por um recital de poesias várias de sentido humorístico, sob o título geral de «Perfis à la minute», compostas e lidas pelo nosso colega Hugo Rocha, que antes, em breves palavras, apresentou, também, as cordiais saudações da Imprensa do Porto. As poesias, cerca de trinta, visavam, em forma de caricatura em verso, as figuras de quase todos os passageiros-convidados, incluindo todos os jornalistas, começando pela figura adorável do Chiquinho, afilhado de Bernardino Correia, e acabando pela figura prestigiosa do próprio Presidente do Conselho de Administração da C.C.N.
Carlos Ribeiro, após a leitura de cada poema, que provocava as gargalhadas de todos, procedia ao leilão do respectivo original, autografado pelo autor. Esse leilão com muita «verve», por aquele locutor, rendeu cerca de seis mil e quinhentos escudos, quantia que o sr. Bernardino Correia aumentou para dez contos e que, por iniciativa do nosso colega Hugo Rocha entusiasticamente aplaudida, se destinou ao pessoal do “Pátria”, que, durante a viagem, serviu, diligentemente os passageiros-convidados. Esta parte da festa durou cerca de duas horas e teve, também, os calorosos aplausos dos assistentes.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 3 de Janeiro de 1948)