Em seguida, o ministro da Marinha dirigindo-se ao chefe do Governo agradeceu, em nome da Armada Portuguesa, descerrando um retrato do presidente do Ministério, que ficará na Câmara do comandante. O sr. Comandante Mesquita Guimarães, ministro da Marinha disse depois para os oficiais da Armada:
- Tem sido sempre uma aspiração suprema dispor daquele mínimo material naval a que a sua competência técnica e o seu patriotismo dêem a eficiência necessária que o transformem num núcleo de defesa do Estado capaz de garantir na parte que lhe cabe os direitos à independência, integridade de nação na hora incerta, em que as circunstancias nos obriguem a recorrer ao mais extremo meio de assegurar aquela defesa, as deficiências de orientação, a falta de continuidade do critério e até a falta de verdadeiro conhecimento da importância da Marinha no prestígio, como na defesa do Estado. Por um lado as dificuldades financeiras e o espírito de contínua improvisação, pelo outro tudo fez com que se chegasse à grande guerra sem possuirmos aquele mínimo aquém do qual as despesas da Nação com a sua defesa, à força de não poderem realizar o seu objectivo, quase que podem considerar como improdutivas. Foi necessário improvisar-se tudo e aqueles que já hoje são velhos e outros que ainda são novos, recordou quantas torturas sofreram seu espírito, o seu amor próprio e a sua vontade de bem servir a Pátria e quantas horas amargas viveram nos anos que para nós durou a guerra, querendo servir e não dispondo para tal dos meios indispensáveis.
Veio a paz e com ela mais uma vez era de recear que predominasse a nossa tendência para descurar ainda mais se possível a nossa defesa. Mas os ensinamentos de ordem material, não menos que os de ordem moral eram demasiado convincentes para que a corporação da Armada não pugnasse pela modificação de um tal estado de coisas. Contudo o país passada a hora do perigo, pouco se interessava pelos problemas da defesa nacional. Era necessário criar nele a consciência da necessidade dessa defesa e no nosso caso na reconstrução da marinha como na corporação que criara e cimentara durante a guerra, a consciência profissional lhe permitisse definir claramente o que essa marinha devia ser.
O sr. Ministro da Marinha historiou em seguida as diversas fases por que passou o plano de ressurgimento da Armada, pondo em destaque o papel que a imprensa desempenhou para a propaganda dessa luta de ressurgimento.
E prosseguindo:
- A situação era porém daquelas que impunham as maiores restrições nas despesas. Em 1928 a situação financeira com o orçamento do Estado fortemente desequilibrado exigia dos diferentes ministérios cortes draconianos de despesa a que os ministérios militares não podiam escapar, impunha-os a situação, impunha-os na exacta compreensão dela, do sr. dr. Oliveira Salazar chamado a pôr ordem na administração financeira, o que exigia o saneamento em toda a administração do Estado.
Era necessário reduzir e o dilema que a todos foi posto, ou os ministros reduziam as despesas dos seus departamentos pela forma que menos prejudicasse o funcionamento e a eficiência do serviço ou ele teria de cortar impetuosamente a cota parte da redução e que à marinha coube, andou à volta de 40.000 contos, o que num orçamento de 180.000 contos se afigurava de difícil realização. Esse esforço da corporação da armada na hora de sacrifícios financeiros, prosseguiu o ministro, foi devidamente apreciado pelo sr. dr. Oliveira Salazar, que ao afirmar que a marinha tinha compreendido melhor do que ninguém a sua intenção e concorrido para que ela tivesse uma imediata realização, solenemente me declarava também que ela seria dotada com os meios necessários ao exercício da Pátria, que lhe cabe na elevada missão da guarda e defesa dos direitos e da integridade da Nação, uma vez que, realizado o seu plano, o tempo trouxesse o desafogo financeiro que permitisse começar as fases da reconstituição nacional e essa promessa foi integralmente cumprida, sabem-no os que me escutam.
O sr. dr. Oliveira Salazar está a restituir à marinha capital e juros, as economias realizadas nos seus orçamentos.
E prosseguiu:
- O “Gonçalo Velho”, a primeira unidade a incorporar-se no efectivo da marinha é aos olhos dos portugueses também a primeira prova palpável do que seu plano de defesa naval começou a ter realização prática. A curtos intervalos outras unidades se seguirão sem esquecer aquelas que, dentro dos nossos recursos de construção estão a ser construídas no Arsenal e nos estaleiros particulares nacionais. Por isso, este momento é de intenso júbilo, não só para a marinha como para a Nação consciente da necessidade de assegurar a sua defesa e confiante que ela está posta em mãos firmes, entregue a inteligências lúcidas, servindo um elevado patriotismo e uma sólida vontade de bem servir.
Terminou manifestando o reconhecimento da Armada a todos aqueles que contribuíram para o seu ressurgimento.
Fala o sr. Presidente do Ministério
Seguiu-se no uso da palavra o sr. Presidente do Ministério. O sr. dr. Oliveira Salazar proferiu o seguinte discurso:
- Dois pensamentos contrários me dominam neste momento: é preciso que tenhamos descido muito baixo para que seja um acontecimento nacional a chegada de um pequeno navio para a Marinha Portuguesa; é preciso que vá já muito alto no seu caminho ascensional a reorganização do país, para que este haja saído da sua indiferença, do seu triste conformismo, como todos os aviltamentos e venha saudar tão entusiasticamente a reorganização da sua gloriosa Marinha de Guerra.
Eu não tenho hoje, porém, senão um dever – alegrar-me com todos os que se alegram apesar de não ser susceptível do entusiasmo exuberante por temperamento e pela convicção de que as coisas não acontecem por acaso, mas porque se prepararam e porque se merecem.
E é esse o caso. Começam chegando ao Tejo ou vão sendo construídos nele os navios da nova esquadra. É a realização do que muitos julgavam um sonho e tantos uma impossibilidade. Eu sou testemunha da longa luta no Ministério da Marinha com esse estado de espírito de descrença, de desconfiança, de hipocretinismo doentio que ainda vem dos velhos tempos que tudo azeda, que tudo destrói e que ainda nada pode construir.
O povo não: esse reanimou a chama da sua fé patriótica e esperou. Esperou através de sacrifícios, nas restrições injustas, nas contrariedades da crise, do feroz egoísmo internacional e o plano da sua reconstrução fosse sendo executado. E quando tudo estava preparado ele o foi nesta parte.
Este pequeno navio entrou nas águas portuguesas, pago, antecipadamente pago, integralmente pago, todo com dinheiro de portugueses; a Armada portuguesa a renovar-se nos mesmos anos em que o país colheu todo o pão para comer. Os políticos do acaso encontrarão nisto uma simples coincidência; mas eu afirmo que está aí a base fundamental e a razão desse custoso empreendimento.
Nós não teríamos ouro para pagamento imediato da nova esquadra se pelas campinas não houvessem florido as searas abundantemente. Para que pudessem sulcar nos mares os navios portugueses foi preciso que a charrua sulcasse mais extensamente e melhor as terras da Pátria, poupando à Nação largas somas do seu ouro. Para que estará fadado agora este pequena navio? Para a guerra? Para a paz? Nós queremos firmemente que não seja para a guerra; nós queremos firmemente que seja para a paz. Mas seja qual for o seu destino, o que queremos é que albergue sempre portugueses, testemunhe sempre o valor dos nossos marinheiros, afirme sempre o heroísmo da raça portuguesa e a glória incólume da nossa Pátria. Embaixador de Portugal por todos os mares, nós queremos que ela seja sempre a afirmação clara da nossa herança passada e do nosso presente, a expressão mais alta dos nossos princípios que tornaram possível e fizeram ressurgir a paz interna, a ordem pública, a compreensão do interesse nacional, a unidade da Pátria, a seriedade da administração e os sacrifícios de todos, em prol do bem comum.
Sob a bandeira de Portugal vai este pequeno navio cruzar os mares distantes, visitar os longínquos países, os portugueses espalhados por todas as partes do mundo.
Não há, senhores oficiais e valentes marinheiros que esconder a face, mas que erguer altivamente o rosto. É uma pátria renascida cercada do prestígio que lhe granjearam o seu esforço próprio e os seus processos de governo. E já me não custa agora, a mim, falar da alta estirpe dos marinheiros portugueses porque sinto fortes os vossos ombros para levar a sua pesada herança.
Senhor ministro, cumprimento na pessoa de V. Excelência a Marinha de Guerra e permita-me saudar, no comandante deste navio, essa futura esquadra portuguesa – uma esquadra nova, que seja uma nova esquadra.
Em seguida todo o governo desembarcou, tendo as peças anti-aéreas salvado com 21 tiros. O aviso “Gonçalo Velho” atracou mais tarde à ponte da Alfandega, onde estará durante quatro dias exposto ao público.
- Os cumprimentos dos oficiais e do comandante do navio realizam-se na próxima segunda-feira.
- O navio logo que tenha a lotação completa, além de visitar o Porto e Setúbal irá à Madeira e Açores. Consta que vai substituir o cruzador “Adamastor” em Macau.
- O sr. ministro do interior recebeu hoje o seguinte telegrama:
Évora, 1 – Os representantes da guarnição militar, União Nacional, funcionalismo público e o povo desta cidade, reunidos no mesmo gabinete, manifestaram o sentir e profundo regozijo pela entrada em águas portuguesas da primeira unidade da reorganização do poderio naval português. (a) Governador civil, Gomes Pereira.
- No ministério do Interior foram também recebidos inúmeros telegramas de vários pontos do País, felicitando o Governo pela chegada do “Gonçalo Velho”.
- Em reunião da direcção da Associação Industrial Portuguesa foi aprovado um voto de congratulação pelo ressurgimento da Marinha de Guerra Portuguesa.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 2 de Abril de 1933)