sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXVIII)


O encalhe dos navios "Silva Gouveia" (2) e "Coruche"

No porto de Alcoutim, na margem do Guadiana, encalharam
dois navios devido ao assoreamento daquele rio
Alcoutim, 26 – As areias transportadas pela ribeira de Cadavais para o Guadiana, nestes tempos açoitados por chuvas rigorosas, acabaram por tornar quase impraticável a navegação nas águas deste rio. Assim, não foi de estranhar que de manhã dois navios aqui viessem encalhar, o “Silva Gouveia” e o “Coruche”, ambos da Sociedade Geral de Transportes.

Foto do navio "Silva Gouveia" (2) à chegada a Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos

Identificação do navio “Silva Gouveia” (2)
Armador: Sociedade Geral C.I. Transportes, Lisboa, 19.04.1928
Nº Oficial: F-560 - Iic.: C.S.B.N. - Registo: Capitania de Lisboa
Cttor.: Schiffswerft W. Janssen & Schmilinsky, Hamburgo, 1921
ex “Taunus”, Ubersee Reederei A,G, Geestemunde, 1921-1924
ex “Max Weidtman”, Henry Stahl & Co., Hamburgo, 1924-1927
ex “Max Weidtman”, Weidtman Line, Hamburgo, 1927-1928
Arqueação: Tab 892,54 tons - Tal 510,99 tons - Tpm 1.353 tons
Dimensões: Ff 67,46 mt - Pp 63,88 mt - Bc 9,73 mt - Ptl 3,94 mt
Propulsão: Dresden M-fabrik, 1:Te - 3:Ci - 580 Ihp - 10 m/h
Vendido para desmantelar no Douro (Porto) em finais de 1954.

O primeiro, carregado de minério, saíra de Pomarão para Lisboa e, como a maré estava a vazar, ali ficou enterrado na areia. A tripulação, que mais tarde abandonou o navio ainda tentou lançar espias ao cais de Alcoutim, o que não conseguiu, porque o navio estava muito em seco.

Foto do navio "Coruche" à chegada a Leixões
Imagem da Fotomar, Matosinhos

Identificação do navio “Coruche”
Armador: Sociedade Geral C. Indúst. Transportes, Lisboa, 1949
Nº Oficial: H-381 - Iic.: C.S.L.T. - Registo: Capitania de Lisboa
Construtor: St. Lawrence Metal & Marine Works, Canadá, 1948
Arqueação: Tab 1.153,88 tons - Tal 604,36 tons - Tpm 1.376 tons
Dimensões: Ff 73,95 mt - Pp 68,85 mt - Bc 10,68 mt - Ptl 4,91 mt
Propulsão: Fairbanks Morse Co., 1:Di - 6:Ci - 1000 Ihp - 12 m/h
Severamente danificado por motivo de incêndio em Bissau, em 1963, veio para Lisboa, onde foi vendido para demolição, durante o mês de Agosto desse mesmo ano.

Hora e meia depois, às 11 horas e trinta minutos, o “Coruche”, que saíra de Lisboa com um carregamento de carvão a caminho de Pomarão, uma pequena aldeia debruçada sobre a margem do Guadiana, acabou por ter destino igual, a 15 metros de distância do “Silva Gouveia”. Pela tarde, com a maré cheia os dois deverão prosseguir a viagem, o que, aliás, é bastante de desejar, uma vez que o trânsito no rio ficou agora interrompido, com os dois navios quase a par, cada um em seu sentido. Bom seria que as entidades competentes procedessem imediatamente ao desassoreamento do Guadiana.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 27 de Fevereiro 1950)

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Fevereiro de 1950)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXVII)


O naufrágio do arrastão “Serra d'Agrela”

Arrastão construído em Inglaterra, eventualmente encomendado por uma empresa de pesca local, tendo estado registado no porto de Swansea, foi comprado novo, ainda em 1910, por Manuel da Silva Cruz, do Porto, e matriculado na capitania do porto do Douro, nesse mesmo ano. Em 1911, após venda, foi adquirido pela Empresa de Pescarias “Serra”, mantendo o registo no Porto, com as mesmas características.

Imagem do arrastão "Serra d'Agrela", como "Celestino Soares",
em 1917, após requisição da Marinha, para operar na Madeira.
Desenho de Luís Filipe Silva

Identificação do arrastão (1946-1950)
Armador: Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa
Nº Oficial: LX-8-A - Iic.: C.S.I.D. - Registo: Lisboa
Cttor.: Smith’s Dock & Co., Ltd., Middleborough, 09.1910
Arqueação: Tab 253,65 tons - Tal 108,39 tons
Dimensões: Pp 38,00 mts - Boca 6,67 mts - Pontal 3,73 mts
Prop.: Shields Engineering - 1:Te - 3:Ci - 430 Ihp - 10 m/h

ex “Serra da Agrela” (1934-1946)
Armador: Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa
Nº Oficial: 497-D - Iic.: C.S.I.D. - Registo: Lisboa
Arqueação: Tab 253,65 tons - Tal 108,39 tons
Dimensões: Pp 38,00 mts - Boca 6,67 mts - Pontal 3,73 mts

ex “Serra d'Agrela” (1920-1933)
Armador: Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa
Nº Oficial: 497-D - Iic.: H.C.Q.G. - Registo: Lisboa
Arqueação: Tab 249,61 tons - Tal 95,15 tons
Dimensões: Pp 40,23 mts - Boca 6,71 mts - Pontal 3,63 mts

ex “Serra d'Agrela” (1915-1920)
Armador: Empresa de Pescarias «Serra», Lda., Lisboa
Nº Oficial: A-157 - Iic.: H.C.Q.G. - Registo: Lisboa
Arqueação: Tab 249,65 tons - Tal 95,10 tons
Dimensões: Pp 40,23 mts - Boca 6,71 mts - Pontal 3,63 mts

ex “Serra da Agrela” (1911-1915)
Armador: Empresa de Pescarias «Serra», Lda., Porto
Nº Oficial: A-157 - Iic.: H.C.Q.G. - Registo: Porto
Arqueação: Tab 249,65 tons - Tal 95,10 tons
Dimensões: Pp 40,23 mts - Boca 6,71 mts - Pontal 3,63 mts
Capitães embarcados: João da Cruz (1912); Sebastião Fontes Mascarenhas (1913); e José Marques (1914)

O navio de pesca português “Serra d'Agrela”
encalhou, no Gando, e está em posição difícil
Las Palmas, 23 – O navio de pesca português “Serra d'Agrela”, que encalhou na Baía do Gando, quando se dirigia para o porto de La Cruz, Ilhas Canárias, para meter combustível, continua em posição difícil. O rebocador “Fortunate”, que foi socorrer o navio, não conseguiu levar a cabo o desencalhe, apesar dos esforços empregados.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 24 de Fevereiro de 1950)

O encalhe do “Serra d'Agrela”
O navio de pesca português “Serra d'Agrela”, que encalhou ante-ontem na Baía do Gando, próximo de Las Palmas, segundo informações recebidas em Lisboa, encontra-se na mesma posição. A Companhia Portuguesa de Pesca, proprietária do navio, aguarda resposta do capitão sobre as possibilidades das condições de salvamento.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 25 de Fevereiro de 1950)

O encalhe do “Serra d'Agrela”
Continuam os trabalhos de salvamento do navio “Serra d'Agrela”, que está encalhado na Baía do Gando, próximo a Las Palmas, Ilha Canária. Uma parte da tripulação deve regressar a Lisboa, ficando a outra a bordo para coadjuvar nos trabalhos de salvamento do navio.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 1 de Março de 1950)

O encalhe do “Serra d'Agrela”
Os marinheiros e pescadores do vapor de pesca “Serra d'Agrela”, que há dias encalhou próximo a Las Palmas, devem regressar a Lisboa no pesqueiro “Albatroz”, que pertence à mesma firma armadora. O “Albatroz” encontra-se ainda em reparação naquele porto. A bordo do “Serra d'Agrela” ficarão, apenas, o comandante, o 1º maquinista e um moço de convés, para auxiliar os trabalhos de salvamento, que ainda prosseguem, embora sem qualquer resultado.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Março de 1950)

O naufrágio do “Serra d'Agrela”
Os tripulantes do “Serra d'Agrela”, que encalhou próximo das Canárias, vêm a caminho de Lisboa, a bordo do navio “Alverca”. Todos se encontram de saúde e devem chegar amanhã, pelas 6 horas.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 15 de Março de 1950)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Memórias dum passado recente!... (VII)


O novo navio-motor “Lúrio”

O "Lúrio" chega hoje a Lisboa
O novo navio "Lúrio", construído na Escócia para o serviço costeiro de Moçambique chega hoje, de manhã, ao Tejo. Trata-se de mais uma nova unidade pertencente à Companhia Nacional de Navegação.
(In jornal "Comércio do Porto", quarta, 1 de Março de 1950)

Vindo da Escócia, chegou ontem ao Tejo o navio-motor “Lúrio”, nova unidade da Companhia Nacional de Navegação, integrada no plano de renovação da frota da Marinha Mercante Nacional.
O “Lúrio” que se destina ao serviço de cabotagem nos portos da África Oriental, para onde partirá em meados deste mês, atinge a velocidade de 14 nós e dispõe de acomodações para 12 passageiros de primeira classe, 22 de segunda e 16 de terceira. Tem, além disso, uma «suite» de luxo e pode transportar 700 indígenas.

Imagem do navio-motor "Lúrio"
Postal ilustrado da Comp. Nacional de Navegação

Identificação do navio-motor “Lúrio”
Armador: Companhia Nacional de Navegação, Lisboa
Nº Oficial: H-388 - Iic.: C.S.I.G. - Registo: Lisboa
Construtor: Androssan Dockyard Ltd., Inglaterra, 02.1950
Arqueação: Tab 2.639,06 tons - Tal 1.473,53 tons
Dim.: Ff 88,64 mt - Pp 84,04 mt - Bc 13,18 mt - Ptl 7,25 mt
Prop.: British Polar - 2:Di - 2x8:Ci - 2.560 Bhp - 12 m/h
dp “Faial”, Emp. Insulana Navegação, Lisboa, 1968-1973
Vendido para demolição à firma Desguaces y Salvamentos, de Avilés, Espanha, em 24 de Abril de 1973.

O navio entrou no Tejo embandeirado em arco e, comboiado por rebocadores da empresa proprietária, atracou ao cais da Fundição, onde foi visitado pelos srs. Jaime Thompson e comandante Celestino Ramos, administradores da companhia, e engº Mendes do Amaral, delegado do Governo, membro do conselho fiscal e assembleia geral, além dos filhos do sr. ministro da Marinha e outras entidades, que apresentaram cumprimentos ao sr. comandante Noronha Andrade, administrador da companhia que foi a Inglaterra receber o navio e nele fez a primeira viagem. O navio foi depois visitado por todas as entidades oficiais.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 2 de Março de 1950)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXVI)


O naufrágio do lugre-motor "Faial"

Este lugre passeou beleza e elegância nas águas do rio do Porto, onde com grande regularidade fazia armamento, entre as diversas viagens que efectuou na ligação entre o continente e as ilhas adjacentes. Navio que é visto em vários postais ilustrados do rio Douro, testemunha certamente as múltiplas ocasiões da descarga de peixe, que ia carregar na Terra Nova, para alguns dos principais importadores de bacalhau da cidade.

O lugre "Faial" - Imagem de autor desconhecido
Foto publicada na revista "The Motor Ship", Janeiro de 1932

Identificação do lugre-motor de 4 mastros “Faial”
Armador: Comp. Açoriana de Navegação Navio-Motor, Lda.
Nº Oficial: 956 - Iic.: H.F.A.I. - Porto de registo: Horta
Construtor: J. Smit & Zoon, Foxhol, Holanda, 09.1928
ex “Gier”, J. Salomons, Delfzijl, Holanda, 1928-1929
ex “Maria Palmira”, José Furtado Cardoso, 1929-1931
ex “Fayal”, José Furtado Cardoso, Horta, Faial, 1931-1933
Arqueação: Tab 573,25 tons - Tal 392,62 tons
Dimensões: Pp 49,48 mts - Boca 8,70 mts - Pontal 4,11 mts
Propulsão: Man, 1930 - 1:Di - 6:Ci - 500 Bhp - 10 m/h
Naufragou após encalhe em rochedos à entrada do porto na Ilha do Fogo, Terra Nova, em 4 de Setembro de 1935.

Entraram, ontem, na barra do Douro dois vapores
que trouxeram alguns náufragos do lugre-motor “Faial”,
encalhado na Ilha do Fogo, na Terra Nova
Vindos da Terra Nova, onde tinham ido buscar dois carregamentos de bacalhau, entraram, ontem, na barra do Douro, os vapores “Catalina” e “Ourem”, pertencentes à firma C.A. Moreira & Cª., da praça do Porto.
A bordo traziam alguns náufragos do lugre-motor “Faial”, que pertencendo à Companhia Açoreana de Navegação-Motor, Lda., saíra de Lisboa para o mar, em direcção a diversos portos da terra Nova, no dia 20 de Julho passado.
Movido por um motor de 500 H.P. e deslocando 573 toneladas brutas, o “Faial” levava um grande carregamento de sal, tendo a viagem decorrido normalmente até Burin, primeiro porto de escala, onde fundeou passados treze dias de viagem, ou seja no dia 2 de Agosto.
Percorreu depois, o “Faial”, alguns portos em serviço de cabotagem, saindo, no dia 3 de Setembro de S. John’s, às 21 horas, com apreciável carregamento de 120 toneladas de bacalhau seco. Dirigia-se à pequena Ilha do Fogo, também na Terra Nova, tendo a viagem decorrido como desde a sua partida de Lisboa.
Navegando normalmente, sem necessidade de forçar as caldeiras, o pequeno mas potente lugre-motor alcançou o porto de destino no dia imediato, ao fim da tarde.
Governava-o, para dar entrada na barra, o experimentado e velho piloto inglês William Kennedy. O grosso da tripulação, despreocupada e sem prever qualquer acidente, tanto mais que o mar estava calmo e o dia se apresentara claro – ocupava-se nos trabalhos internos.
Num dado momento o navio adornou, e, embatendo violentamente contra as pedras, encalhou, vencido, sem se saber como justificar a tragédia, que seria maior se o mar estivesse nesse momento impetuoso, como ali sucede muitas vezes.
Os tripulantes, em número de 16, acorreram, então, ao tombadilho, verificando, com mágoa, a situação do seu «querido» navio, como foi dito ontem, em conversa ligeira, e quase com lágrimas nos olhos, o 1º maquinista Mário Sanches.
Os tripulantes empregaram todos os esforços para o desencalhar, nada conseguindo. O “Faial” estava irremediavelmente perdido com um grande número de rombos e os porões inundados.
Lentamente foi-se submergindo, tendo sido abandonado pela tripulação perto das 8 horas da noite. Em seu auxílio acorreram cerca de 30 botes a motor, tendo alguns deles conduzido a terra os náufragos que com o seu navio perderam os seus haveres.
A Ilha do Fogo é uma pequena povoação de humildes pescadores. Os seus habitantes, em número de 700, vivem modestamente em casebres de madeira, sem higiene e sem conforto, tendo os náufragos de se recolher, como lhes foi possível nas diversas repartições públicas.
Só assim se justifica que dois oficiais maquinistas se sujeitassem ao conforto duma fraca enxovia, onde ficaram hospedados, com todo o rigor de prisioneiros, na cadeia da povoação.
Alguns dias depois o vapor inglês “Prospero” conduziu-os para S. John’s, onde ficaram hospedados, até que o “Catalina” e o “Ourém” trouxeram alguns deles para o Porto.
No vapor “Catalina” vieram sete tripulantes, sendo três maquinistas, um radio-telegrafista, dois marinheiros e o contra-mestre. No “Ourem” vieram quatro tripulantes sendo: um moço, dois marinheiros e um maquinista.
Os restantes em número de cinco, compreendendo o capitão, João de Paia, o imediato, Armindo Machado, o piloto, o cozinheiro e um criado, ficaram em S. John’s devendo regressar a Lisboa num paquete que faz escala por Liverpool.
Conta o 1º maquinista Mário Sanches, que alguns pescadores ingleses fizeram desaparecer as roupas que os tripulantes do “Faial” tinham salvado a custo – causando-lhes assim, uma situação deveras embaraçosa. O tripulante Mário Sanches tem, com este, o seu quarto naufrágio. O primeiro a bordo do vapor “Leça”, em 1916, e o segundo a bordo do vapor “Boavista”, em 1917, ambos em navios torpedeados no norte da França: o terceiro, quando seguia no rebocador “Tejo”, nos «Cavalos de Fão», em 1918: e quarto, o que foi agora assinalado, a bordo do “Faial”.
Os oficiais do “Faial” seguiram ontem mesmo para Lisboa no rápido da tarde.
Na Terra Nova, continuam a pescar muitos veleiros portugueses, tendo o capitão do “Catalina” comunicado com o “Neptuno”, da Parceria Geral de Pescarias, em 18 do mês passado. O “Neptuno” estava nesse momento, na latitude 48º40’N e longitude 52º45’O, tendo o seu capitão informado que a bordo estavam todos bem.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 10 de Outubro de 1935)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXV)


O naufrágio do arrastão “Praia da Vitória”

Arrastão de pesca lateral construído em aço, em Inglaterra. O navio foi comprado aos armadores ingleses Woodbury Steam Fishing Co., Ltd., de Grimsby, pela Sociedade de Pesca Golfinho, de Lisboa, em 1925, passando a utilizar o nome “Golfinho”. Em 1929 esta sociedade vendeu o arrastão à Sociedade Marítima Trevo, Lda., também de Lisboa, pela quantia de 713.000$00 escudos, alterando-lhe o nome para “Maria Raquel Primeiro”. O navio dispunha de uma máquina de tríplice expansão, com três cilindros, com a potência de 560 Ihp, com uma caldeira de três fornalhas de chama invertida e uma pressão de 14 kgs./cm2 e um consumo de carvão de 8 tons/dia. Tinha um hélice de 4 pás e fazia 10 milhas/ hora de velocidade.
Era um navio com 2 mastros, proa direita, popa redonda com 1 pavimento e utilizava normalmente uma equipagem composta por 19 tripulantes. Em 1933 foi vendido a Artur Cília, que lhe renovou a matrícula na Capitania de Lisboa.

O arrastão "Praia da Vitória" ainda como "Lord Heneage"
Foto de autor desconhecido

No rio Tejo - Devido ao nevoeiro, dois barcos abalroaram um
com o outro, afundando-se um deles, mas salvando-se a tripulação.
Esta manhã (29.11.1935), no rio, devido ao nevoeiro, um barco de pesca foi embater com a proa de um navio de maior tonelagem, afundando-se pouco depois, salvando-se, embora a custo, a sua tripulação.
Pelas 8 horas e quinze minutos saiu da doca de Alcântara, com destino ao Cabo Branco, onde ia começar a sua faina na pesca, o vapor “Praia da Vitória”, sob o comando do sr. capitão Hugo de Almeida. Caía grande nevoeiro e o comandante a custo fazia as manobras e um quarto de hora depois, o barco de pesca guinava para Sul, sem que o capitão se apercebesse do perigo iminente em que se metera.
Um enorme estrondo provocou a bordo um grande alvoroço, ao mesmo tempo que a água, em grande quantidade, inundava os porões daquele vapor. Passados segundos de grande pânico, a tripulação apercebeu-se do sinistro. O “Praia da Vitória” fôra cair sobre a proa do vapor de carga “Maria Cristina”, da Companhia União Fabril, fundeado a meio do rio, e com a violência do embate sofreu um enorme rombo a meio navio.

Identificação do arrastão "Praia da Vitória"
Armador: Artur Cília, Lisboa, 1933-1935
Nº Oficial: 481-F - Iic.: C.S.H.X. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Cook, Welton & Gemmell, Beverley, 15.05.1909
Arqueação: Tab 336,26 tons - Tal 173,06 tons
Dimensões: Pp 42,43 mts - Boca 7,16 mts - Pontal 3,69 mts
Prop.: Amos & Smith, Hull - 1:Te - 3:Ci - 560 Ihp - 10 m/h

ex “Maria Raquel Primeiro”
Armador: Sociedade Marítima “Trevo”, Lda., Lisboa, 1929-1933
Nº Oficial: 407-F - Iic.: H.M.I.P. - Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 336,26 tons - Tal 173,06 tons
Dimensões: Pp 42,43 mts - Boca 7,16 mts - Pontal 3,69 mts

ex “Golfinho”
Armador: Sociedade de Pesca Golfinho, Lda., Lisboa, 1925-1929
Nº Oficial: 452-E - Iic.: H.G.L.F. - Porto de registo: Lisboa
Arqueação: Tab 336,26 tons - Tal 173,06 tons
Dimensões: Pp 42,43 mts - Boca 7,16 mts - Pontal 3,69 mts

ex “Lord Heneage”, Woodbury St. Fishing, Grimsby, 1909-1925
ex “Lord Heneage”, William Would, Grimsby
ex “Lord Heneage” Yorkshire Steam Fishing Co., Ltd., Hull
Nº Oficial: H-27 - Iic.: H.P.B.J. - Porto de registo: Grimsby
Arqueação: Tab 324,00 tons - Tal 125,00 tons
Dimensões: Pp 42,15 mts - Boca 7,16 - Pontal 3,69 mts

Pedidos socorros urgentes, acudiu prontamente o rebocador “Europa Primeiro”, da Parceria de Vapores Lisbonenses, que sob as ordens do respectivo mestre, Alfredo dos Santos Castro, se dirigiu para o cais da Shell. O “Europa Primeiro” passou um cabo ao “Praia da Vitória”, a fim de procurar rebocá-lo para o encalhar, visto o sinistro se ter dado a pouca distância de terra. Todo este trabalho foi feito quase por tacto, porque o nevoeiro era cerradíssimo, mas foram baldados todos os esforços. O barco de pesca sofrera importantes avarias e começava a afundar-se, tendo a tripulação passado para bordo do “Europa Primeiro”. Pouco depois, cerca de 30 minutos após o desastre, o “Praia da Vitória” afundava-se.

O vapor "Maria Cristina" da Soc. Geral, ancorado no rio Tejo
Fotografia de autor desconhecido

Identificação do vapor "Maria Cristina"
Armador: Sociedade Geral, Lisboa, 1922-1952
Nº Oficial: 392-E - Iic.: C.S.B.F. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Smith Brothers & Co., Middlesborough, 1920
Arqueação: Tab 3.010,49 tons - Tal 2.024,39 tons
Dimensões: Pp 101,88 mts - Boca 14,67 mts - Pontal 6,91 mts
Prop.: Smith Brothers & Co., 1:Te - 3:Ci - 1.378 Ihp - 10 m/h

O “Praia da Vitória” era um dos melhores barcos de pesca, deslocava 365 toneladas e tinha sido construído em 1909, nos estaleiros ingleses. Já tinha tido o nome de “Golfinho” e mais tarde o de “Maria Raquel”. Foi adquirido há 4 anos pelo actual proprietário, sr. Artur Cília, por esc. 500.000$00, mas as importantes melhorias que o proprietário lhe introduzira elevaram o valor a mais de 1.000 contos, estando seguro apenas por 700. O “Praia da Vitória” foi então modificado e apetrechado com material de pesca do mais moderno e os seus porões eram revestidos de cimento à «brocha», para melhor suportar o gelo e conservar o peixe por maior espaço de tempo.
Ao facto das bancas se encontrarem cheias de carvão, se deve o ter-se salvo a tripulação, que era composta pelo capitão Hugo de Almeida, maquinista António Gomes Ferreira, mestre de pesca Juvenal Neto Espada e 17 outros tripulantes, cujo carvão aguentou ainda por muito tempo a entrada da água, de contrário o “Praia da Vitória” ter-se-ia afundado imediatamente. Alguns tripulantes não tiveram tempo de salvar as suas roupas e outros artigos.
O “Maria Cristina”, em consequência do choque, recebeu um rombo na proa, pelo qual mete água, tendo sido vistoriado esta tarde, a fim de ser reparado. Os comandantes do “Maria Cristina” e do “Praia da Vitória” e respectivas tripulações estiveram esta tarde na capitania do porto de Lisboa, a apresentar os seus protestos de mar.
A perda do “Praia da Vitória” foi muito lamentada, não só pela sua tripulação, como ainda na classe dos armadores de pesca, por se tratar dum dos melhores barcos de pesca de arrasto. É sempre de lamentar, que os seus tripulantes tenham agora ficado sem trabalho.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 30 de Novembro 1935)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Memórias dum passado recente!... (6)


O lançamento à água do contra-torpedeiro “Douro”

Lisboa, 23 de Janeiro – Revestida da maior solenidade, realizou-se ontem a cerimónia do lançamento à água do destroyer “Douro”, fabricado por artífices portugueses no Arsenal de Marinha.
O recinto destinado aos convidados achava-se completamente apinhado de gente. No chamado pátio da administração encontrava-se uma força de 60 marinheiros, sob o comando do oficial Victor Gomes, bando do corpo e um terno de corneteiros. Esta força era destinada a fazer a guarde de honra. O pavilhão dos serviços administrativos era destinado para o governo, corpo diplomático, oficialidade, etc.
O navio que ia ser lançado à água tinha arvorada num mastro a bandeira nacional. Numa improvisada tribuna, à proa, ultimavam-se os preparativos da cerimónia.

Imagem da cerimónia na revista "Ilustração Portuguesa"
Nº 363, Lisboa, 3 de Fevereiro de 1913, pág. 143

Estavam ali o director interino das oficinas do Arsenal, Álvaro Lorens, o 1º tenente maquinista Santos Silva, o guarda-marinha Ferreira, autor de um aparelho medidor da velocidade e resistência do navio a deslizar na calha, e dois desenhadores do Arsenal, Salvador de Almeida e Francisco de Jesus Dias e os agentes técnicos Lamego e Viana. Dentro do navio o sota-patrão-mor Ventura, o patrão-mor e mestre das construções navais Fernando e os marinheiros do troço do mar ultimavam a bordo os últimos preparativos.
Pouco a pouco chegavam convidados e os srs. ministros da guerra, marinha, estrangeiros, fomento, interior e justiça, governador civil, oficialidade de mar e terra e o comandante da guarda republicana.
A entrada do sr. dr. Afonso Costa foi saudada com vivas e palmas. Momentos depois chegava o sr. presidente da república, aguardado à entrada pelos convidados. Fazia-se acompanhar pelos seus secretários e pelo capitão-de-mar-e-guerra sr. Vieira Bastos e major-general da armada sr. Teixeira Guimarães. A banda dos marinheiros executou o hino nacional e o presidente da república foi saudado pela multidão.
Às duas horas, um toque de apito anunciou os primeiros trabalhos do lançamento. Iam ser tiradas as oito escoras que amparavam o navio, quatro de cada lado. Nessa ocasião a multidão precipitou-se para junto do navio. Da tribuna eram feitos sinais com uma bandeirinha vermelha, depois içada no alto de uma placa com um algarismo correspondente à escora a deitar abaixo.
A convite do mestre da construção o sr. presidente da república aplicou ao navio as três palmadas do estilo e pronunciou estas palavras! - Vai “Douro”, em nome da pátria e da república. E que o teu lançamento à água seja o início do engrandecimento da marinha de guerra portuguesa.

Imagem da cerimónia na revista "Ilustração Portuguesa"
Nº 363, Lisboa, 3 de Fevereiro de 1913, págs. 144 e 145

Sobre a extensa calha o navio deslizou velozmente, tremulando no alto do seu mastro a bandeira nacional. A multidão soltou então entusiásticos vivas à república, à pátria, à marinha de guerra e ao exército, prolongando-se por largo tempo uma estrondosa salva de palmas, enquanto a banda dos marinheiros executava a «portuguesa». O sr. dr. Manuel de Arriaga abraçou o agente técnico sr. Lamego.
Os navios de guerra salvaram, os vapores apitavam com as suas sirenes e as guarnições subiam à mastreação e saudavam a república. O “Douro” descreveu uma bela curva, estacionando em frente ao Arsenal de Marinha.
Terminada a cerimónia, o sr. presidente da república foi cumprimentado pela numerosa assistência, sendo alvo de nova manifestação de simpatia à sua saída do Arsenal, bem como os membros do governo.
(In jornal “Comércio do Porto”, 23 de Janeiro de 1913)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXIV)


O desastre do brigue “Conde”

No Domingo chegaram a Lisboa, vindos de Liverpool, os dois únicos tripulantes, que escaparam ao desastre acontecido ao brigue português “Conde”, que foi encontrado abandonado pelo vapor inglês “City of Nankin” (Smith & Sons, Glasgow – 1859/986), a 240 milhas ao mar da ilha da Madeira.
Os dois tripulantes salvos contam o desastre da forma seguinte, segundo consta no jornal «Opinião»:
«Na noite de 3 de Outubro, debaixo de um forte temporal achava-se o navio na altura de 36º latitude e 19º longitude, quando, governando o leme o capitão, e estando toda a companha à popa, por causa de uma manobra que ia ser feita, começou o mar em forte rebentação, que galgava pela tolda. Tendo alguma água entrado para a câmara, onde havia sacas de açúcar, o capitão mandou o seu irmão e outro marinheiro abaixo fechar as escotilhas, para que aquela parte da carga não se danificasse.»
Quando os dois tripulantes estavam já na câmara, ouviram um bradar – estamos perdidos! – e correndo acima, viram a tolda deserta, o leme partido, e parte da amura feita em pedaços. Uma vaga furiosa, galgando o navio, arrebatara todos os tripulantes, excepto os dois. Quiseram estes ainda deitar escaleres ao mar, mas dois homens sós, não o puderam fazer, e demais a mais em noite escura e tenebrosa, sem saberem para que ponto tinham sido arremessados os infelizes. Que remédio senão abandoná-los à sua triste sorte! Foram todos devorados pelas vagas!
No dia seguinte os dois que escaparam do desastre, achando-se em circunstâncias de não poderem dar governo ao navio, e avistando ao longe a escuna inglesa “Hwitfeld” (?), que navegava de Demerara para Liverpool, pediram socorro, passaram as bagagens dos marinheiros afogados para bordo da escuna e abandonaram o brigue.
«A escuna inglesa ainda tentou dar um reboque ao brigue, mas não o pôde fazer em consequência da sua pequena tonelagem. Passar a guarnição para o “Conde” seria demasiado arriscado, pois o brigue estava sem leme, e a escuna tinha quatro tripulantes doentes».
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 18 de Novembro 1861)

Imagem representando um brigue ancorado, de
autor não identificado, sem correspondência ao texto

Identificação do brigue “Conde”
Armador: Manuel José do Conde, Salvador, Brasil
Construtor: Desconhecido, Lisboa, 1857
Arqueação: Tab 201,00 tons.
Dimensões: Desconhecidas
Propulsão: À vela

Manuel José do Conde, Guadalupe (Ilha Graciosa), 5 de Abril de 1817 - Londres, 6 de Junho de 1897, primeiro e único visconde do Rosário, foi um emigrante açoriano, oriundo da ilha Graciosa, que enriqueceu no Brasil. Tendo começado a vida como padeiro em Salvador (Bahia), conseguiu criar um grande empório comercial que se traduziu numa grande fortuna. Elevado a visconde do Rosário em 1875, acabou por se fixar em Lisboa, onde se ligou às melhores famílias da aristocracia portuguesa. Nunca esqueceu as suas origens, sendo um dos grandes beneméritos da ilha Graciosa, contribuindo generosamente para a Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz e construindo e equipando, à sua custa, uma escola no seu lugar natal da Vitória, Guadalupe, a cujo professor pagava. (Wikipedia)
O naufrágio do brigue “Conde”
Pelo ministério dos negócios estrangeiros foi publicada para conhecimento de quem convier a seguinte parte do ofício em que o encarregado do consulado de Portugal em Liverpool dá circunstanciada conta do abandono do brigue “Conde”, que vinha da Bahia para o Porto:
«No dia 21 do corrente mês apresentou-se neste consulado o capitão J.O. Johansen, do brigue norueguês “R. Wold & Huitfeldt” (?), vindo de Lagos (costa ocidental de África), e o consignatário do mesmo navio, Mr. Foyn, negociante norueguês na praça de Liverpool, dando o capitão parte de ter encontrado no dia 4 de Outubro, na latitude 36º e longitude 19º, o brigue português “Conde”, sem leme, etc., tendo a bordo só dois homens, os quais ele tomara, assim como os papeis do navio, três baús com roupa, etc., pertencentes ao capitão e piloto, um cronómetro e mais alguns objectos. Também salvou trezentos couros, pouco mais ou menos, e duas velas, não podendo tripular o navio por achar-se quase toda a sua gente com febre. Mandei logo tomar conta dos dois marinheiros, e informando-me deles do acontecido, soube que do brigue português “Conde” é proprietário Manoel José do Conde, residente na Bahia (Brasil), de onde saíra no dia 17 de Agosto passado com destino ao Porto e escala por Lisboa, trazendo a seguinte carga segundo o manifesto:
201 caixas com açúcar; 432 caixas e 6 barricas também com açúcar, 2.979 couros secos e salgados; e 11 pessoas de tripulação.
Achando-se os dois marinheiros na câmara do navio, para objecto de serviço, ouviram gritar e correram logo ao convés, porém, infelizmente, já não encontraram pessoa alguma. Um grande golpe de mar tinha varrido tudo do mesmo; e assim faleceram nove pessoas, inclusive o capitão.
Os seus nomes são os seguintes, tirados da matrícula do navio: Capitão, José Riquezo, S. Martinho do Porto, 32 anos, casado, filho de António Riquezo; Piloto, Manoel Pereira Setieiro, S. Martinho do Porto, 47 anos, casado, filho de José Pereira Setieiro; marinheiro, Joaquim Pereira, Venda dos Frades, 33 anos, casado, filho de António Pereira: marinheiro, José Rocha, Alfeizerão, 23 anos, casado, filho de António Rocha; moço, João da Silva, Alfeizerão, 20 anos, solteiro, filho de Joaquim da Silva; moço, José Daniel, Ericeira, 20 anos, solteiro, filho de Francisco Vicente; moço, Victorino Pereira, Alfeizerão, 21 anos, solteiro, filho de Paulino Pereira; moço Joaquim Riquezo, Famalicão, 20 anos, solteiro, filho de Joaquim Riquezo; e moço, Constantino Nunes, Salir do Porto, 20 anos, solteiro, filho de António Nunes.
Sendo os que se salvaram: Cozinheiro, Anacleto Francisco de Sales, Cascais, 26 anos, solteiro; e o despenseiro Manoel Riquezo, S. Martinho do Porto, 30 anos, casado. Este último irmão do capitão».
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 26 de Novembro de 1861)