terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXIII)


O naufrágio do vapor "Corinthian"

Sinistro marítimo
O vapor inglês “Corinthian”, que ontem saiu a barra do rio Douro, às 11 horas da manhã, com um carregamento de gado e fruta para Liverpool, encalhou nas pedras a 5 milhas ao Sul de Viana.
A casa dos srs. Chamiços recebeu ontem às 11 horas da noite, de Viana, uma participação telegráfica com a notícia deste sinistro. Os consignatários do “Corinthian” são os srs. Chamiço e Coverley. Por parte dos srs. Chamiço partiu para Viana o sr. Henrique Spratley, e por parte do sr. Coverley o sr. Cutler.
Os passageiros e a tripulação salvaram-se e há esperanças de que o vapor possa safar-se. Os consignatários resolveram mandar ao lugar do sinistro para auxiliar o “Corinthian”, o vapor “Braganza”, que para este fim já hoje saiu a barra, às 11 horas da manhã.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 4 de Julho de 1864)


Identificação do vapor "Corinthian"
Armador: Bibby & Co., Liverpool, Inglaterra
Cttor.: John Reid & Co., Port Glasgow, Escócia, Maio,1855
Arqueação: Tab 1.073,00 tons - Tal 703,00 tons
Dimensões: Pp 73,82 mts - Boca 9,14 mts - Pontal 6,10 mts
Propulsão: 1 motor compósito

Vapor “Corinthian”
Um telegrama chegado ontem de Viana informa estarem destruídas todas as esperanças, dadas pela notícia anterior relativamente ao vapor inglês “Corinthian”, que tendo saído ante-ontem a barra do rio Douro, encalhou às 6 horas da tarde do mesmo dia num banco de areia a 5 milhas ao Sul de Viana, abrindo logo água.
Às 3 horas da madrugada de ontem, a tripulação vendo que o navio ia submergir-se abandonou-o e desembarcou a salvo em Viana.
Com os socorros prestados pelas repartições competentes daquela cidade pôde ser salvo do vapor naufragado parte do gado que ia no convés.
O “Corinthian” está totalmente perdido. Bateu e submergiu-se em sítio tão fundo, que ontem às 3 horas da tarde, segundo uma carta de Viana, apenas se viam os mastros fora da água. Os tripulantes tinham-no abandonado pouco antes da submersão.
O vapor levava perto de 300 bois, dos quais ainda foram salvos 60 e tantos, que iam no convés. Mergulhadores empregados para a salvação da carga, ainda não tinham conseguido salvar nada até às 3 horas da tarde de ontem.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Julho de 1864)

Vapor “Braganza”
Este vapor, que ante-ontem tinha saído a barra para ir prestar auxílio ao vapor “Corinthian”, naufragado a algumas milhas ao Sul do porto de Viana, entrou ontem de tarde no Douro, trazendo o gado que tinham conseguido salvar, que como foi dito, foram 60 e tantos bois. Trouxe também parte da tripulação.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 6 de Julho de 1864)


O vapor “Corinthian”
O jornal de Viana, «Aurora do Lima» de ontem, informa que o vapor “Corinthian” continua submerso, sem que haja as menores esperanças de poderem safá-lo.
Por parte das estações competentes continuam a empregar todos os esforços para salvar o que fôr possível da carga e casco do vapor naufragado, tendo para isso empregado o serviço de mergulhadores.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 7 de Julho de 1864)

O vapor “Corinthian”
O «Vianense» de 9 do corrente diz o seguinte:
«Pelos mergulhadores tem sido tirada grande parte do cordame do vapor naufragado, e algumas das muitas sacas com lã que faziam parte da carga.
Ontem foi aplicado um cofre de pólvora ao casco do vapor, mas foi insignificante o resultado desta primeira experiência. Consta que hoje será empregue um cofre contendo muito mais pólvora a ver se a explosão dá os resultados que esperam desta tentativa».
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 11 de Julho de 1864)


O vapor “Corinthian”
Diz o «Vianense» de ontem que fôra aplicado à popa deste vapor naufragado, um segundo cofre, contendo muito maior porção de pólvora que o primeiro, e que a explosão dera resultados satisfatórios. Saiu um dos mastros, que quebrou com a explosão, e grande número de sacas de lã e outros pertences do navio tem sido extraídos do seu casco.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 12 de Julho de 1864)

Vapor “Corinthian”
Viana, 18 - Tem continuado com muita actividade e óptimo resultado os trabalhos empreendidos para recolher os salvados do vapor “Corinthian”. Ontem ficaram já em terra quase todas as sacas de lã que o navio conduzia, sendo essa a parte mais importante do seu carregamento, além do gado.
Dos aprestes do vapor também tem sido recolhidos alguns e continuam as diligencias para salvar tudo quanto seja possível. Óptimo serviço hão feito os mergulhadores, dirigidos pelo sr. João Pereira Xavier, que é competentíssimo para estes trabalhos.
O consignatário, sr. Mateus José Barbosa e Silva, tem sido incansável nos meios empregados para minorar os prejuízos daquele desastrado naufrágio.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 19 de Julho de 1864)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Memórias dum passado recente!... (5)


O «bota-abaixo» do arrastão bacalhoeiro
"Brites" no estaleiro de São Jacinto

Aveiro, 24 - Realizou-se, nos estaleiros de S. Jacinto, a cerimónia de lançamento à água do novo arrastão bacalhoeiro, do moderno sistema de pesca pela popa, “Brites” – nome tirado de uma unidade da mesma firma armadora há tempos naufragado – e que ali foi construído para a empresa Brites, Vaz & Irmão, Lda., com sede na Gafanha da Nazaré.
O novo navio, dotado dos mais aperfeiçoados requisitos, é propulsionado por dois motores de 1500 CV., cada um, e pode atingir a velocidade de 15 nós. Com 80.5 metros de comprimento, 17,5 metros de boca, e 6,20 metros de pontal, possui capacidade para 20.000 quintais de peixe fresco e 3.500 quintais de peixe congelado, desloca 3.000 toneladas, e importou em cerca de 55.000 contos.
A anteceder o «bota-abaixo» foi oferecido às entidades oficiais e outras individualidades convidadas para assistir ao acto um almoço na Pousada da ria, no Muranzel.

Imagem do bota-abaixo do arrastão bacalhoeiro "Brites"
Foto de Tatiana Gonçalves - Bacalhoeiros de Portugal

Identificação do arrastão “Brites”
Armador: Brites, Vaz & Irmãos, Lda., Gafanha da Nazaré
Nº Oficial: A-2130-N - Iic.: C.U.F.P. - Registo: Aveiro, 25.08.1971
Construtor: Estaleiros Navais de S. Jacinto, Sarl., Aveiro, 07-1971
Arqueação: Tab 1.951,51 tons - Tal 983,72 tons
Dimensões: Pp 74,20 mtrs - Boca 12,51 mtrs - Pontal 8,08 mtrs
Propulsão: Mak, 1971 - 2:Di - 2x6:Ci – 3.000 Bhp - 15 m/h

Navio de arrasto pela popa foi encomendado pelo armador ao construtor em 10 de Julho de 1969, pela quantia de Esc. 32.000.000$00. A quilha foi assente a 13 de Abril de 1970. Arrastão com 2 mastros tinha popa de painel com rampa e 2 pavimentos. Em 1981 foi transformado, ficando com um porão com a capacidade de 1.510 m3 de peixe congelado e podendo congelar 35 toneladas de peixe diariamente. Em 1997 foi adquirido pela Empresa de Pesca João Vilarinho, Sucrs.

Imagem do arrastão bacalhoeiro "Brites"
Foto de Carla Bagão - Bacalhoeiros de Portugal

Além de outras autoridades ligadas às actividades piscatórias, assistiram os srs. dr. Francisco do Vale Guimarães, governador civil do distrito; comandante Garrido Borges, capitão do porto; Eduardo Cerqueira e engº João de Oliveira Barrosa, respectivamente, presidente e director da Junta Autónoma do porto de Aveiro; dr. Fernando Bagão, Henrique Mautela, Jorge Pestana e João dos Santos, administradores dos estaleiros; engº Joaquim Gaspar de Barros, pela firma armadora; engº Coelho Jordão, vice-presidente da Junta Autónoma do porto da Figueira da Foz; e o dr. Nuno Campos Tavares, do I.N.T.P.
Aos brindes, felicitando as empresas construtora e armadora, usaram da palavra o chefe do distrito, o representante dos armadores e o presidente da Junta Autónoma do porto.
Seguiu-se, propriamente, a cerimónia do «bota-abaixo». Procedeu à bênção do elegante navio o rev. Abel Gonçalves, capelão da Base Aérea e pároco da freguesia, tendo servido de madrinha a menina Mariana Gaspar de Barros.
O “Brites” deslizou logo a seguir, por entre aplausos, na carreira, entrando, airoso, nas águas da ria. O novo arrastão, após os acabamentos a que vai ser submetido, seguirá para Lisboa, onde, antes de seguir para a sua faina, será visitado pelo sr. ministro da marinha.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 25 de Abril de 1971)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

História trágico-marítma (CXXII)


O naufrágio do vapor "Oldenburg" (II)

O vapor de carga alemão “Oldenburg” encalhou, ontem, de
madrugada, em frente de Esposende, perto dos famigerados
Cavalos de Fão.
Na nossa costa marítima, registou-se, ontem (11.05.1936), mais um lamentável desastre – o encalhe do vapor alemão “Oldenburg” – e só devido ao bom estado do mar, que se manteve sensivelmente brando, não há a registar perda de vidas.

Como se deu o desastre
O vapor “Oldenburg”, que iniciou a viagem em Larache, Marrocos, saiu de Lisboa às 21 horas de sábado passado, navegava, normalmente, em direcção a Vigo, transportando um grande carregamento de mercadorias diversas. Porém, devido, talvez, ao nevoeiro, encostou-se demasiadamente a terra e, na madrugada de ontem – 2 horas da manhã, pouco mais ou menos – embateu, violentamente, contra as pedras do baixo do Crasto, próximo dos Cavalos de Fão, em frente a Esposende.
A noite estava escura, sendo grande o pânico que se estabeleceu a bordo, tanto mais que, além dos tripulantes, seguiam para a Alemanha 5 passageiros – três senhoras e dois homens. O vapor naufragado, apesar de ser um cargueiro de razoáveis dimensões, não possuía posto de T.S.F. Por isso, o alarme foi dado com insistentes toques de sirene, sendo lançados, também, alguns foguetões, para chamar a atenção de qualquer embarcação que navegasse perto.

Foto de autor desconhecido
Imagem da O.P.D.R. - Colecção Schmelzkopf

Identificação do navio
Armador: Oldenburg-Portugiesische Dampfschiff.-Rederei
Nº Oficial: N/t - Iic.: D.N.A.K. - Porto de registo: Oldenburg
Construtor: Schiffswerf. H. Koch, Lubeca, Alemanha, 1900
dp “Oldenburg”, Governo Francês, Bordéus, 1919-1922
dp “Oldenburg”, O.P.D.R., Oldenburg, Alemanha, 1922-1936
Arqueação: Tab 1.316,00 tons - Tal 828,00 tons
Dimensões: Pp 69,01 mts - Boca 9,81 mts - Pontal 5,70 mts
Propulsão: J.F. Ahrens, Altona - 1:Te - 3:Ci - 113 Nhp - 9 m/h
Equipagem: 19 tripulantes
Os socorros
Após o embate com as rochas, registado às duas horas, o “Oldenburg” começou a meter água. Os porões inundaram-se, em poucos minutos, correndo as caldeiras o risco de explodirem.
Os tripulantes e passageiros, acordados em sobressalto, acorreram ao convés, sem se lembrarem, sequer, das roupas e bagagens que a água ia inutilizando. Alguns minutos depois, a luz faltou, servindo-se, os náufragos de pequenas lanternas de bolso.
Entretanto aproximou-se a traineira “Senhora do Carmo II”, da praça do Porto, que andava nas cercanias, na faina da pesca. Munidos com coletes de salvação, os passageiros desembarcaram a custo, devido à agitação do mar, e tomaram lugar num bote do navio, que os conduziu para a traineira, cujo mestre, José Ferreira Neto, prestou aos náufragos a sua mais dedicada atenção. A traineira pairou ao largo, cerca de duas horas, à espera de alguns tripulantes do vapor, seguindo depois para Leixões, onde chegou por volta das 9 horas.
A situação do vapor
O baixo do Crasto fica a duas milhas e meia da praia de Fão. O “Oldenburg” está assente nas rochas, voltado a sueste e bastante inclinado sobre estibordo. A parte mais submersa é a popa, que, do lado de estibordo, é varrida pelas águas, quando o mar entra com investidas de maior violência.
A bordo, na esperança de poderem proceder a trabalhos para salvamento do vapor, ficaram o comandante e cinco tripulantes, que desembarcaram ao fim da tarde, por o vapor estar irremediavelmente perdido.
Os salva-vidas da Apúlia e de Esposende apressaram-se a comparecer no local do sinistro, não sendo, no entanto, utilizados os seus serviços, por se tornarem desnecessários.

Os passageiros
Dos passageiros, quatro andavam em viagem de passeio, tendo passado já por todos os portos do Mediterrâneo. Eram esses: Erich Haese, de Berlim; Gerhard Jastrower e sua esposa Erika Jastrower, de Zopyuz, e Anita Schenk, de Platjenverbe. A outra passageira, Gertrud Schultz, é uma professora alemã residente em Lisboa, e seguia para Hamburgo, em viagem de férias.
Os passageiros ficaram hospedados no Grande Hotel da Batalha, até que a agência do vapor lhes dê destino. Os tripulantes, em número de 19, estão hospedados em diversas pensões na cidade do Porto.
Características do “Oldenburg”
O vapor, que era comandado pelo capitão da marinha mercante W. Brinken Ges, foi construído em 1900. Pertencia, actualmente, à Oldenburg-Portugiesische Dampfschiffahrts-Rederei, GmbH., a apresentava as seguintes características:
Tonelagem bruta, 1.316 e líquida, 828 toneladas. Comprimento, 226 pés e 6 polegadas; largura 32 pés e 2 polegadas; calado, 18 pés e 7 polegadas.

Notas
- Às praias de Fão e da Apúlia foi arrojada grande quantidade de cortiça, que estava na proa do vapor.
- A meio da tarde, apareceu em Esposende o rebocador “Mars IIº”, tendo regressado imediatamente para Leixões, por serem desnecessários os seus serviços.
- O vapor tinha como representante na cidade do Porto, a considerada agência de navegação Burmester & Cª., Lda.
- Recolheu ao Hospital da Misericórdia o marinheiro Ernst Neuhaus, de 21 anos, tripulante do “Oldenburg”, de Altona, Alemanha, que deu uma queda a bordo, no momento do encalhe, tendo sofrido contusões no joelho esquerdo.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 12 de Maio de 1936)

Embarcaram, ontem, em Leixões,
os passageiros do vapor alemão “Oldenburg”
Conforme previsto, embarcaram, ontem (13.05.1936), às 18 horas, no vapor Schiffbek, em Leixões, os cinco passageiros do vapor alemão “Oldenburg”, encalhado na última segunda-feira, próximo dos conhecidos Cavalos de Fão, em Esposende.
Acompanharam os passageiros a Leixões, um empregado superior da casa Burmester & Cª., Lda., e o capitão do vapor naufragado Brinken Ges.
Com os passageiros, que seguem para Bremen, via Havre, embarcaram, também, três tripulantes do “Oldenburg”, escolhidos, à sorte, entre os seus camaradas. São eles: A. Johnsen, primeiro maquinista; K. Lange, criado de bordo, e P. Exnez, ajudante de fogueiro. Os restantes tripulantes, devem sair do Porto amanhã, seguindo por caminho-de-ferro até à Corunha, onde embarcarão no paquete “Oronac”.

O capitão do “Oldenburg”, Brinken Ges, informou não ter ido ontem junto do vapor, devido ao tempo que perdeu com os preparativos para o embarque dos passageiros e dos tripulantes que seguiram no “Schiffbeck”. Tem conhecimento, no entanto, que o mar tem desmantelado os camarotes e levado a carga que estava no convés.
Hoje, de manhã, irá a Fão acompanhado por um representante da casa Burmester, a fim de verem o estado actual do vapor e estudarem o possível salvamento de alguma carga e apetrechos de bordo. O vapor, como foi dito, está irremediavelmente perdido, sendo, portanto, desnecessário tentar o seu completo salvamento.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 14 de Maio de 1936)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXXI)


O naufrágio na Terra Nova do bacalhoeiro “Santa Isabel” (II)

Aveiro, 25 - Esta região foi durante o dia de ontem (24.04.1971) alertada com a triste notícia de que o arrastão “Santa Isabel”, da praça de Aveiro, se tinha afundado na véspera, no Golfo de S. Lourenço, Terra Nova.
Ao saber-se do sucedido, houve cenas de pânico em todas as Gafanhas e na maruja cidade de Ílhavo, de onde é natural quase toda a tripulação. No entanto, pouco a pouco os ânimos começaram a serenar, pois a Empresa de Pesca de Aveiro fez anunciar o telegrama que daquelas paragens piscatórias chegara e que anunciava a infausta notícia. Mas logo dizia que toda a tripulação tinha sido salva pelo arrastão da mesma empresa e gémeo do “Santa Isabel”, o “Santa Cristina”, e pelo arrastão de Viana do Castelo “Vasco d'Orey”, que pescavam muito próximo do arrastão afundado.

O arrastão bacalhoeiro "Santa Isabel" (II), em Leixões
Imagem Fotomar - Matosinhos

Identificação do arrastão “Santa Isabel”
Armador: Empresa de Pesca de Aveiro, Lda., Aveiro
Nº Oficial: A-1764-N - Iic.: C.U.F.D. - Registo: Aveiro, 1965
Construtor: Est. Navais de S. Jacinto, Sarl., Aveiro, 18.03.1965
Arq.: Tab 2.055,95 tons - Tal 1.147,84 tons - Porte 19.926 qts.
Dimensões: Pp 74,15 mtrs - Boca 12,52 mtrs - Pontal 8,08 mtrs
Prop.: Werkspoor, 1965 - 2:Di - 2x6:Ci - 2.520 Bhp - 15 m/h
Equipagem: 70 tripulantes

Navio de arrasto pela popa foi encomendado pelo armador ao construtor em 10 de Outubro de 1963, pela quantia de Esc. 19.650.000$00. A quilha foi assente a 1 de Agosto de 1964 e foi lançado em 18 de Março de 1965. Arrastão com 2 mastros tinha popa de painel com rampa e 2 pavimentos.

O arrastão estava previsto regressar a Aveiro
dentro de quinze dias
O “Santa Cristina” iniciava já a viagem para Portugal com um carregamento de vinte mil quintais de peixe e deve chegar a Aveiro com toda a tripulação salva, do “Santa Isabel”, dentro de oito dias. O navio que se afundou estava praticamente carregado, pois tinha a bordo cerca de vinte mil quintais de bacalhau frescal e ainda uma boa carga de peixe congelado e óleo de fígado de bacalhau.
A pesca tinha decorrido bem e o “Santa Isabel”, segundo afirmou o sr. comendador Egas Salgueiro, proprietário da empresa do arrastão, fez sempre boas safras. Do mal o menos – disse aquele importante industrial –, pois que se salvou toda a tripulação que é o principal, apesar de se lamentar o prejuízo que advém da perda de tão moderna unidade da frota bacalhoeira.

As características do arrastão afundado
O “Santa Isabel” zarpara a caminho da Terra Nova em 26 de Novembro do pretérito ano (de Aveiro) e saíra de Lisboa em 28 de Dezembro, com chegada aos bancos de pesca a 3 de Janeiro do corrente ano. O navio havia sido construído nos Estaleiros de S. Jacinto e entregue à empresa em Janeiro de 1965. É de arrasto pela popa. Dotado dos mais modernos requisitos. O arrastão tinha de comprimento 80,30 mt; boca 12,50 mt; calado 5,50 mt; potencia 2.520 hp; velocidade 15,22 milhas; deslocação 2.715 toneladas. A unidade importara em cerca de cinquenta mil contos.

Um prejuízo total de cerca de 64 mil contos
Para além do prejuízo de cinquenta mil contos, decorrente do custo do arrastão, há ainda a acrescentar a este, o pescado que trazia a bordo. Assim temos: 20 mil quintais de bacalhau frescal – 12 mil contos; 80 toneladas de óleo de fígado de bacalhau – 40 contos; peixe congelado, 150 toneladas – 1.200 contos, com o valor do navio aproximadamente resulta em 64 mil contos. Acrescente-se que a companhia seguradora nunca vem a saldar na sua totalidade os prejuízos à empresa armadora, até porque estará privada de uma unidade durante mais de três anos, tantos quanto demora a construir um navio desta envergadura. E serão setenta famílias que irão passar por algumas dificuldades até que a empresa consiga (se é que o poderá vir a conseguir) o seu emprego noutros navios.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 25 de Abril de 1971)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Memórias dum passado recente!... (3)


O navio hospital “Saint François d’Assise”

Imagem do navio hospital “Saint François d’Assise”
Bilhete-postal do porto do Havre

Identificação do navio hospital
Armador: Société des Oeuvres de Mer, Nantes, França
Construtor: De la Brosse & Fouché, Nantes, 1901
dp “El Hadj“, Marinha de Guerra Francesa, 1919-1925
dp “Nyholm”, Rederi A/S Aage Lind, Copenhaga, 1925-1926
Arqueação: Tab 407,00 tons - Tal 209,00 tons
Dimensões: Pp 45,63 mts - Boca 8,44 mts - Pontal 4,45 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Cp - 2:Ci - 30 Nhp

Pelo menos a partir de 1898, a Société de Oeuvres de Mer armou os navios “Saint Pierre” e o “Saint Paul”, no sentido de prestarem assistência aos pescadores de bacalhau ao largo da ilha de Saint Pierre et Miquelon. Esses navios utilizados no serviço hospitalar faziam visitas regulares aos pescadores nos bancos da Terra Nova, tendo igualmente prestado assistência a pescadores nas costas da Islândia. (1)
Esses primeiros navios foram substituídos após 3 de Agosto de 1915 pelo lugre-patacho motorizado “Saint François d’Assise” (S. Francisco de Assis), entretanto mantido em operação pela firma Caudal & Leray, de Nantes. O navio foi inicialmente utilizado militarmente, classificado como navio auxiliar de patrulha e aviso auxiliar, seguindo-se as adaptações ao transporte de passageiros e posteriormente a navio hospital.
Não restam dúvidas da extrema importância destes navios no apoio à frota francesa da pesca do bacalhau, tal como se revelou fundamental na assistência aos pescadores portugueses, muitos dos quais matriculados com ferimentos e de saúde exageradamente precária, até 8 de Março de 1919, data em que foi retirado deste serviço. Por esse motivo, como se imagina, as facturas dos tratamentos e internamentos que eram realizados a bordo desses navios, apresentavam valores altíssimos, a princípio cobrados ao governo português, que por sua vez, muito provavelmente, endereçava aos respectivos armadores.
Daí se explica a marinha portuguesa ter enviado, a partir de Agosto de 1923, o navio de guerra “Carvalho Araújo” aos bancos da Terra Nova, para prestar assistência aos nossos pescadores do bacalhau. O comandante, capitão-de-fragata Octávio Augusto de Matos Moreira, escreveu no relatório daquela viagem, que o navio não reunia os requisitos necessários para poder desempenhar cabalmente tal missão e em consequência dessa informação, o cargueiro “Gil Eanes” (ex “Lahneck) foi, algum tempo mais tarde, enviado para a Holanda para ser submetido a grande reparação, no sentido de ser adaptado a navio hospital, tendo-lhe sido instalados postos médicos, enfermarias e salas de operação. (2)
(1) DUFEIL, Yves, Le BELL, Franck, TERRAILLON, Marc
http://navires-14 18.com/fichiers/S/SAINT_FRANCOIS_ASSISE_SOM_V4.pdf
(2) SANTOS, José Ferreira dos, Capitão da Marinha Mercante, Revista da Marinha

O navio foi em fim de vida útil vendido para desmantelar, à empresa Holms Skeppsvarf, em Raahe, Finlândia, durante o mês de Setembro de 1926.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Memórias dum passado recente!... (2)


A inauguração do arrastão “Horizonte”

Vinte e oito toneladas diárias é a capacidade de congelamento
da nova unidade pesqueira visitada pelo Almirante Tenreiro
O sr. Almirante Tenreiro, presidente da Junta Nacional de Fomento das Pescas, acompanhado pelos srs. Almirante Alves Lopes, vice-presidente daquele organismo; Drs. Carlos Mourisca, Silveira Pinto e Rocha Borges, da direcção do Grémio dos armadores da Pesca de Arrasto; Horácio Rebordão, Engº. Seabra da Cruz, Espada Cruz e por outras individualidades ligadas ao sector das pescas, visitou uma nova unidade da pesca de arrasto – o navio “Horizonte”, da Sociedade de Pesca Miradouro, Lda., de Aveiro.
Aguardados pelos administradores da empresa, os visitantes percorreram, interessados, as instalações do navio, fornecendo-lhes pormenorizadas informações, o sócio-gerente sr. França Morte.
Trata-se de um navio de arrasto (pela popa), de 52 metros de comprimento, com uma autonomia que lhe permitirá fazer 60 dias de navegação e com 628 toneladas brutas de registo, deslocando-se à velocidade de 15 nós. Está equipado com um motor de 12 cilindros (em V), sobre-alimentado a 1.350 CVE. Tem uma capacidade de armazenamento para 280 toneladas de peixe, em blocos congelados. Através do seu sistema de congelação, poderá congelar 25 toneladas diárias, possuindo, ainda, instalações de filetagem.

Imagem do arrastão "Horizonte" a navegar
Foto de Lizuarte Machado - (Bacalhoeiros de Portugal)

Identificação do arrastão “Horizonte”
Armador: Sociedade de Pesca Miradouro, Lda., Aveiro
Nº Oficial: LX-64-N - Iic.: C.U.F.O. - Porto de registo: Lisboa
Cttor.: Scheepsbouwwerf Geb. Pot, Bolnes, Holanda, 1965
ex “Mandarin”, Coderec, Lorient, França, 1965-1966
ex “Hodh Pe 64”, Soc. Mauritienne, Port Etienne, 1965-1971
Arqueação: Tab 628,47 tons - Tal 286,46 tons
Dimensões: Pp 46,25 mts - Boca 9,02 mts - Pontal 6,01 mts
Propulsão: Ago-Mulhouse, França - 1:Di - 1350 Hp - 14 m/h
Equipagem: 30 tripulantes

Além de estar apetrechado com moderna aparelhagem para navegação e detecção de cardumes, o “Horizonte”, que tem uma tripulação de 30 homens, sob o comando do capitão Maurício Sá, está climatizado e a casa das máquinas dispõe de um sistema de aquecimento que lhe permitirá navegar em qualquer latitude.
A saída para o mar está prevista para terça-feira, com o fim de iniciar a faina de pesca no Sudoeste Africano. O “Horizonte” é uma excelente unidade que vem enriquecer a respectiva frota, a qual continua a actualizar-se, atendendo às crescentes necessidades de abastecimento ao país. Anuncia-se já, para o próximo mês, visita idêntica a outro navio (do mesmo tipo) que, igualmente, se vai dedicar à captura de pescada.
Terminada a visita, o sr. almirante Henrique Tenreiro, perante toda a tripulação, teve palavras de muito apreço para a empresa armadora, nomeadamente para o sr. França Morte, incitando-o a prosseguir no seu plano de actividade para o qual prometeu incondicional apoio.
Aos tripulantes e pescadores do “Horizonte”, o presidente da Junta Nacional de Fomento das Pescas desejou boa viagem e boa pesca, cumprimentando-os individualmente, após o que se retirou, visivelmente satisfeito com as impressões colhidas a bordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 25 de Abril de 1971)

O arrastão “Horizonte” foi abatido à frota de pesca nacional, depois de vendido aos sucateiros da Moita, srs. Baptista & Irmão, em 10 de Maio de 1994.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

História trágico-marítima (CXX)


O naufrágio do vapor "Oldenburg" (I)

Naufrágio de um vapor
Os srs. Hermann Burmester & Cª. agentes no Porto da Companhia Oldenburg-Portugiesische Dampfschiffs-Rederei, GmbH., receberam um telegrama participando-lhes que o vapor “Oldenburg” se afundara ante-ontem (11.11.1898), no rio Guadiana, quando, vindo de Pomarão, com carga de pirites, descia aquele rio para sair ao mar em direcção ao rio Douro. O sinistro foi motivado a ter aquele barco caído na proa do vapor ingles “Cairnross”.

Foto do vapor “Oldenburg”, de autor desconhecido
Colecção O.P.D.R. - R. Schmelzkopf

Identificação do vapor “Oldenburg” (I)
Armador: C.F.A. Schultze, Brake, Alemanha, 1881-1898
Operador: O.P.D.R., Oldenburg, Alemanha, 1882-1898
Construtor: F. Schichau, Elbing, Alemanha, 24.04.1881
Arqueação: Tab 618,00 tons - Tal 463,00 tons
Dimensões: Pp 54,85 mts - Boca 7,50 mts - Pontal 4,47 mts
Propulsão: Do construtor - 1 motor compósito - 8,5 m/h

O “Oldenburg”, propriedade daquela Companhia, fôra construído em Elbing, no ano de 1881, sendo, portanto, dos mais antigos que demandam o rio Douro, tendo feito 173 viagens entre a Alemanha e Portugal.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 13 Novembro 1898)