terça-feira, 14 de janeiro de 2014

História trágico-marítima (CXV)


O encalhe do vapor português “Lagoa”, ontem
(18.12.1928), na barra de Esposende, perdendo-se.

Viana, 19 – O vapor “Lagoa” passou ontem em frente ao porto de Viana do Castelo, às 10 horas e meia da manhã. Navegava bastante acostado e saudou, com três silvos, a corporação dos pilotos, arvorando também a bandeira nacional, no que foi correspondido.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 20 de Dezembro de 1928)

Notícia da chegada do vapor a Leixões
(In jornal "Comercio do Porto", quarta, 07.01.1926)

Correndo para a morte – Um choque violento seguido dum estrondo formidável - Como se teria dado o desastre – Após o desastre – O que traz o vapor - Salvar-se-há a carga? – Como é o “Lagoa”? – Quem é o comandante? – A tripulação
Ontem, a meio da tarde, chegou a notícia de que o considerável vapor “Lagoa”, um dos melhores barcos da frota que foi dos alemães, com 1.963 toneladas, tinha naufragado ao largo da barra de Esposende.
No local do sinistro lá estava, ao largo da praia dos Cavalos de Fão, apertado entre as rochas bravas do «Forcadinho», o “Lagoa”, que, ao tempo, era já um brinquedo para as ondas rumorejantes que o varriam de lés a lés, enquanto a água, aos poucos, lhe invadia o dorso, fazendo-o submergir quase até ao convés.
Na praia, olhando o monstro que, numa quietude enervante, avultava lá ao longe, a umas duas milhas, aproximadamente, andava, desde o começo da tarde um formigueiro de gente.
Todos queriam saber o que fôra, inteirar-se da sorte dos tripulantes, da carga, do vapor, - e das causas do desastre. E, faziam roda, em torno dos pescadores que contavam e recontavam tudo quanto tinham visto.

Correndo para a morte
O “Lagoa” deu nos calhaus aí pelas 11 horas e meia da manhã. E o pescador Feliz Fernandes Gaifém, que fala desembaraçadamente, explica:
- «Eu andava ali (e ao dizê-lo apontava, lá longe, no mar, como ponto de referência, uns escolhos que se vêem à flor d’água quase junto ao local onde o “Lagoa” se encontra), com as redes, quando dei com o vapor lá para cima, no «mar de Viana». «Vinha terreirinho que eu sei lá!». E não fugia da terra, cada vez metia mais à costa, de modo que entramos de ver o desastre…
- Depois…
- Quando o vimos assim, começamos todos a acenar com lenços e, alguns, éramos de tão perto que até admira como não viam…
Um grupo de pescadores, numa só voz:
- Estava o tempo tão bom! Tão lisinho e o mar tão brando!
Eis como os pescadores de Fão, que andavam no mar aquela hora, relatam a aparição do “Lagoa” – que vinha «no mar de Viana, terreirinho, que eu sei lá!», no dizer original de um deles. De modo que, vindo o “Lagoa” junto à costa, como vinha, e trazendo razoável velocidade, como trazia nada admira que sofresse

Um choque violento seguido dum estampido formidável
O vapor sempre correndo junto à costa salpicada de rochedos, com velocidade – corria para a morte. E, assim, ao passar no ponto conhecido pelo «Forcadinho» meteu-se nuns rochedos que os pescadores dali chamam «pedra brava» - colidindo violentissimamente com as pedras. E de tal força fôra o choque que o estampido que se lhe seguiu, cortando as águas, veio até à praia, estendendo-se por ali fora!
Imediatamente dirigiram-se para o local barcos de pescadores e o salva-vidas de Esposende, no intuito de prestarem os primeiros socorros. Felizmente, sem embargo do aniquilamento do vapor, a tripulação não corria perigo, visto que o “Lagoa” assapara sobre as rochas, motivo porque o respectivo capitão se limitara a agradecer, tratando, acto continuo, de ordenar a emissão de rádios para Leixões.

Vejamos como se teria dado o desastre
Cada desastre ocasiona sempre, antes da verdade surgir, um número considerável de hipóteses. E este não foge à regra. Segundo uns, que pretendem ter arrancado a confissão ao comandante do vapor, o desastre foi consequência da destruição do gualdrope do leme. Segundo outros, a grande maioria, diga-se, o desastre não se explica, com um dia tão claro e numa costa perigosa mas muito conhecida.
De modo que, até agora, o que se sabe, de positivo, é que o vapor vinha, já de longe, navegando junto à costa, dando a impressão de demandar a barra. E, assim, entrou nas rochas, abrindo, como se supõe, largas brechas na quilha.

Após o desastre
Pedido socorro para Leixões, como foi dito, logo para ali se dirigiram os rebocadores “Júpiter” e “Vouga Iº” que comunicaram com o “Lagoa”, tendo sido verificado, em breve, a impossibilidade de agir, no sentido de o safar. O “Lagoa” estava já, segundo as melhores hipóteses, perdido, restando, apenas, a esperança de salvar a carga que, é riquíssima, importando em milhares e milhares de contos. Por isso mesmo, trataram de garantir a assistência ao vapor, procedendo ao desembarque de parte da tripulação e salvamento de toda a sua bagagem. Estes trabalhos, que foram desenvolvidos ao fim da tarde, demoraram até ao anoitecer. Depois, 19 dos tripulantes, entre os quais alguns oficiais, tomaram lugar no rebocador “Vouga Iº”, e vieram para Leixões onde chegaram por volta das oito horas da noite. Os 12 restantes ficaram no mar, a bordo do rebocador “Júpiter” que se conserva junto do “Lagoa”, para ser prestada toda a assistência necessária. No “Lagoa” continuam ainda, ocupando os seus postos, o respectivo comandante, o maquinista e o telegrafista.

O que traz o vapor
A carga do “Lagoa” é preciosíssima e variada. Vinha cheio. Traz centenas e centenas de sacos com açúcar; muitos com cacau; caixas de bombons; quinquilharias de bazar, próprias para o Natal; resmas e resmas de papel de impressão; harmónicas; muitos pianos; discos para gramofones; cânhamo e uma infinidade de artigos diversos que fazem elevar o valor de toda a carga a muitos milhares de contos.
Logo em cima, no convés, trás o “Lagoa” 30 automóveis «Citroen», carregados no Havre. A carga procede dos portos de Hamburgo, Londres e Havre, de onde o navio vinha com destino a Leixões, e consignado à firma David José de Pinho, da praça do Porto.
Salvar-se-há a carga?
Ontem não se sabia, O mar, ali, é cheio de surpresas. E o vapor está numa posição deveras melindrosa. Uma agitação mais forte, uma pequena alteração do mar – e tudo pode ficar perdido. Todavia, se o mar, hoje, mantiver a calma, relativa, de ontem, é natural que consigam arrancar ao abismo já aberto uma riqueza tão apreciável.
Para isso, para fazerem tal tentativa, lá ficou, ao lado do “Lagoa” o rebocador “Júpiter” e metade da tripulação daquele. De qualquer forma, porém, já não será´ possível salvar toda a carga, pois a água liquidou, ontem mesmo, parte dela e ficou, durante a noite, a estragar tudo quanto é sensível ao seu contacto. De modo que, os prejuízos, sem falar no vapor, serão avultadíssimos.

Como é o “Lagoa”?
O “Lagoa” é um vapor de 1ª classe, de 1.993 toneladas brutas, passando por ser um dos melhores vasos apreendidos aos alemães. Está, segundo consta, seguro na companhia «Veritas» e pertence à Companhia dos Carregadores Açoreanos, da praça de Ponta Delgada. Face aos elementos apurados, facilmente se pode deduzir, da importância e grandeza deste transporte, que se acaba de liquidar em circunstâncias deveras lamentáveis.

Quem é o comandante? – A tripulação
O comandante do “Lagoa” deve ser o decano dos oficiais da marinha mercante portuguesa. É o sr. Carlos Pereira Vidinha, que conta 67 anos de idade e 42 de mareante! Tem uma prática extraordinária e nunca lhe aconteceu qualquer acidente desta espécie, sendo este o primeiro.
Os maquinistas, 1º., 2º. e 3º., respectivamente, são os srs. António Cândido da Silva, 49 anos, de Ponta Delgada; Alberto Deslandes, 33 anos, da Guarda, e José Dias de Oliveira, de 26 anos, de Lisboa. O telegrafista é o sr. Arnaldo Rodrigues, 33 anos, de Lisboa.
O imediato é o antigo oficial da marinha mercante alemã, sr. Francisco José de Brito, 34 anos, de S. Vicente de Cabo Verde. Os 2º. e 3º pilotos, são, respectivamente, os srs. Cunha Silveira, 24 anos, e Armando Soares, 24 anos, ambos dos Açores. Depois, há ainda mais 24 homens – e eis a tripulação do “Lagoa”.

Varias notas
- O acidente não causou a bordo, a despeito da sua violência, pânico. Sofreram-no a sangue frio, como verdadeiros mareantes.
- Como se depreende, não houve qualquer acidente pessoal, achando-se todos os tripulantes de boa saúde. - Os tripulantes que vieram para Leixões, como antes referido, hospedaram-se no Hotel do Castelo, tendo alguns telegrafado à família, sossegando-a. Ali estão, a aguardar ordens da Companhia.
- O naufrágio causou, como é natural, em Esposende e Fão, certo constrangimento fazendo afluir à praia muita gente, durante o dia.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 19 de Dezembro de 1928)

Imagem do vapor "Lagoa" - colecção Francisco Cabral

Identificação do vapor “Lagoa”
Armador: Comp. Naveg. Carregadores Açoreanos, Ponta Delgada
Nº Oficial: 940 - Iic.: H.L.G.O. - Registo: Ponta Delgada
Cttor.: Neptun Aktien Geselschaft, Rostock, Alemanha, 07-1911
ex “Mailand”, R.M. Sloman Jr., Hamburgo, 1911-1916
ex “Viana”, Transportes Marítimos do Estado, Lisboa, 1916-1924
Arqueação: Tab 1.922,39 tons - Tal 1.363,47 tons
Dimensões: Ff 91,50 mt - Pp 87,17 mt - Bc 12,52 mt - Ptl 5,12 mt
Propulsão: Neptun A.G., Rostock, 1911 - 1:Te - 1.870 Ihp - 10 m/h

O naufrágio do vapor "Lagoa", na barra de Esposende
- O vapor perdeu-se e com ele toda a carga
- A tripulação abandonou de vez o “Lagoa”
O “Lagoa” perdeu-se. Se é certo que lá longe ao pé dos «Cavalos de Fão», se lhe avista a proa, pode afirmar-se irremediavelmente perdido, como já ontem se antecipava. Está inundado, quase totalmente submerso. E, se de todo não desapareceu ainda, foi porque galgou os cachopos que dão começo aos «Cavalos de Fão» e o convés assentou neles. De resto, é um vapor abatido à nossa frota mercante – um dos nossos melhores vapores de carga provindo das reparações alemãs.

O “Lagoa” e o “Júpiter”
O “Lagoa”, conquanto, ao que parece, deixasse de interessar a alguns entendidos nestes acidentes marítimos – porque puseram de parte a esperança de o fazer de novo flutuar – continuou a ser até ontem à tarde vigiado pelo “Júpiter”, à distância, um pouco ao norte, abeirando-se por vezes dele para de novo se afastar, chegando a perder-se de vista durante mais de uma hora.

A carga do “Lagoa” não se salvou
Ao contrário do que se esperava, o “Vouga Iº” não apareceu ontem na barra de Esposende. Como a sua falta se sentisse notada, foram indagados os motivos, sendo recebida a informação que esse reboque aguardava, para isso, instruções de uma Companhia francesa de seguros.
Como era de prever, a beira-mar de Esposende coalhou-se ontem de gente, sobretudo depois que ali chegou a caminheta da firma Duarte & Filhos, que diariamente faz carreiras entre Esposende e o Porto. Foi por meio dos jornais que a notícia do sinistro do “Lagoa” chegou ao conhecimento não só das gentes de Vila do Conde, Póvoa, Barcelos e Viana, como até de bastantes pessoas de Esposende, que até aí, nada sabia!
O mar, de neblina, com um dia de sol quase primaveril, parecia convidar até a um passeio, próximo da praia, onde os ventos poucas vezes se apresentam agrestes. Chamam-lhe os esposendenses, desde longa data, praia de suave mar, e com razão.
Em face disso e sabendo-se que no “Lagoa” existia, em mercadorias diversas, uma grande riqueza, notou-se, por parte de muitos marítimos daquela vila, Fão e Viana, decidida vontade de se fazerem ao mar para trazer a carga para terra.
- «É fácil – deve ser muito fácil salvar tudo ou quase tudo», comentavam.
- Mas o vapor está quase submerso – observamos.
- Embora; não faz vento, as ondas lá ao largo não são de meter medo, e aquilo ala para terra – atalhavam.
Os empregados aduaneiros, porém, não permitem que para o mar vá quem quer que seja. Só mais tarde o salva-vidas de Esposende foi até junto do “Lagoa”, levando a bordo o comandante, chefe da respectiva companhia, o 3º piloto e mais 3 homens, que logo voltaram para terra. É que a essa hora o mar alterou-se um pouco e os «Cavalos de Fão» obrigam a cuidado, muito cuidado.
E foi previdente a tripulação do salva-vidas, pois que, tendo voltado a terra, formaram-se próximo da barra dois vagalhões, que poderiam tê-lo posto em risco. O mar tem destas coisas…

Os automóveis do “Lagoa”
As horas decorrem e o mar invade por fim o “Lagoa” de lado a lado com mais violência. Parece um mar extraordinário em Esposende, um mar diferente daquele q que ali se está habituado. Foi então que os automóveis que constituem a principal carga do convés do vapor se deslocam, e por forma tal, que o “Lagoa” começou a ceder à vaga, que sucedeu, de tarde, ao mar chão da manhã.
E toda a carga se perdeu
Vendo estes efeitos do mar, o capitão do “Lagoa”, a bordo do “Júpiter”, transmitiu para terra um sinal, que os pescadores dali traduziram e em voz alta disseram: perdeu-se tudo; a carga já é só do mar.
A tripulação abandona o vapor
Efectivamente tudo se perdeu: o “Lagoa” e a mercadoria. A tripulação do vapor naufragado, deu nesta altura por finda a sua obrigação e abandonou definitivamente o “Lagoa”, ao mesmo tempo que o povo que afluiu à barra começou também a debandar.
A tripulação veio para Leixões
Ao cair da noite, o “Júpiter” largou de regresso a Leixões, trazendo a bordo toda a tripulação do vapor que se perdeu.
E, à semelhança do “Moneyspinser” que em 1926, numa tarde tempestuosa, encalhou na restinga do Cabedelo e ali foi desfeito pelas vagas – o “Lagoa”, com toda a sua riqueza a bordo, lá ficou pertença exclusiva do mar, mesmo num dia de sol. Ainda bem que não houve perda de vidas a lamentar. O mar começou já ontem, de tarde, a arrojar à praia fragmentos das embalagens, bem como algumas mercadorias avariadas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 20 de Dezembro de 1928)

sábado, 11 de janeiro de 2014

História trágico-marítima (CX)


O naufrágio do patacho “Harriet”, na barra do Douro

Imagem de um patacho, sem correspondência ao texto

Naufrágio
Teve lugar hoje (05.03.1873) pela manhã mais um sinistro na barra do Porto. Pelas 7 horas, apareceu à barra o patacho inglês “Harriet”, porém como o mar estivesse um tanto agitado, do castelo fizeram-lhe sinal para que não entrasse. Não obstante esta prevenção, o patacho meteu-se à barra e em consequência disso foi de encontro à pedra denominada «Folga Manada», onde bateu, indo depois encalhar no Cabedelo. O rombo que o navio sofreu foi tal, que desde logo começou a meter grande porção de água, vendo-se a tripulação em perigo.
De terra lançaram então um foguete de salvação para o patacho e por meio dele colocaram um cabo de vai-vem, pelo qual a tripulação salvou as bagagens, vindo depois para terra. O navio na baixa-mar ficou em seco, procedendo-se ao salvamento da carga, que se crê poder-se tirar-se toda. O patacho vinha da Terra Nova, com bacalhau, consignado aos srs. Noble & Murat.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 5 de Março de 1873)

Acerca do patacho “Harriet”
Relativamente ao naufrágio que se deu ontem de manhã à entrada da barra do rio Douro, há mais as seguintes informações:
Quando do castelo foi dado sinal à embarcação para não entrar, o capitão quis virar para fora, mas escasseando-lhe de repente o vento, que era fresco, não o pode fazer, indo então o navio encalhar no Cabedelo. O velame, massame e parte da carga foram salvos sem avaria, porque foi tirada na ocasião em que a maré estava na baixa-mar.
Logo que a maré tornou a encher pararam os trabalhos de descarga e fecharam-se as escotilhas, receando-se que com a enchente da maré o patacho se desfizesse de encontro às pedras que lhe estão próximas. Isto felizmente não se deu, havendo portanto esperança de salvar não só o resto da carga, como talvez o casco. Desconfia-se que tanto o navio como a carga estejam seguros em alguma companhia inglesa.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 6 de Março de 1873)

Identificação provável do patacho “Harriet”
Armador: Bowring & Co., Liverpool, Terra Nova
Construtor: Cox, Bridgeport, Terra Nova, Maio de 1860
Arqueação: Tab 186,00 tons
Dimensões: Pp 31,39 mts - Boca 6,58 mts - Pontal 3,96 mts
Propulsão: À vela
Acerca do patacho “Harriet”
Tem continuado a descarga do bacalhau a bordo do patacho “Harriet”, naufragado próximo do Cabedelo. O bacalhau que tem saído ultimamente vem molhado, por ter entrado o mar na embarcação, por efeito do rombo que sofreu. Esta noite, como a maré o permitiu, continuaram a tirar a carga. O bacalhau salvo tem sido depositado nos armazéns do sr. Murat, e o velame, massame, correntes, etc., estão na alfândega. Por contrato feito entre os signatários do navio e o sr. Schneider foi este sr. encarregado dos salvados. A arrematação do casco e mais pertences deve provavelmente efectuar-se amanhã. O patacho pertencia à praça de Liverpool.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 7 de Março de 1873)

Patacho “Harriet”
Acerca do patacho inglês “Harriet”, naufragado na terça-feira quando vinha a entrar a barra, há agora mais os seguintes pormenores:
O navio e a carga estavam seguros mas não o frete. Graças à energia empregue pelos consignatários e pelos salvadores, acto contínuo ao sinistro, tem-se salvo todos os aprestos e utensílios do navio e cerca de uma quarta parte da carga. A parte desta que está a bordo receia-se que esteja em mau estado, em consequência da água entrada a bordo; no entanto fazem-se esforços para salvar mais alguma na ocasião da maré vasa.
Foi feita vistoria ao casco na sexta-feira para julgar da navegabilidade do navio e foi decidido que fosse posto em hasta pública quanto antes, para benefício dos interessados. Tem lugar a arrematação do visto e não visto do navio e de alguns aprestos que se acham no Cabedelo, amanhã pelas 10 horas da manhã. Não entra na arrematação a carga que ainda se acha a bordo. Amanhã de tarde principia também a arrematação do bacalhau salvo, começando a venda pelo que está armazenado na casa da alfândega velha. Brevemente será marcado dia para a arrematação dos demais aprestos do navio, que se encontram armazenados no barracão da estiva velha e sobre o cais contíguo.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 9 de Março de 1873)

Arrematação
Teve ontem lugar na praia do Cabedelo a arrematação do visto e não visto do patacho inglês “Harriet”, ultimamente naufragado ao entrar a barra. Foi tudo arrematado pelo sr. João José Rebelo de Magalhães por 344$500 réis, à excepção do leme, que foi arrematado por 2$000 réis pelo sr. Manoel Gonçalves Logarinho. Assistiram à arrematação como presidente o sr. Francisco Rodrigues de Faria, 1º oficial da alfandega, como escrivão o sr. António de Faria Carneiro e como pregoeiro o sr. Joaquim da Silva, tendo assistido também os srs. C.H. Noble & Murat, na qualidade de representantes do capitão e da companhia de seguros.
Algum do bacalhau de que constava o carregamento tem sido vendido em leilão, aos preços de 5$000 a 8$300 réis, conforme o seu estado. O resto da carga tem sido abandonado, em consequência do seu péssimo estado. Pelos rombos que o navio tem no fundo tem saído muito bacalhau, sendo o que o mar arroja ao Cabedelo logo tomado pela gente da costa, que não deixa em sossego os guardas da fiscalização. Estas atitudes têm dado lugar a conflitos, não obstante o estado do bacalhau ser tal, que não pode aproveitar aos que o tomam.
A arrematação dos salvados do patacho deve ter lugar amanhã no cais da Estiva. Os salvados constam de velame, massame, poleame, cabos, botes, correntes de ferro, ancoras, metal de cobre e outros objectos.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 11 de Março de 1873)

Arrematação de salvados
Verificou-se ontem na cais da antiga casa da Estiva a arrematação de parte dos salvados do patacho inglês “Harriet”, que constavam de massame, poleame, dois botes, guincho e outros aprestos do navio. Estes objectos produziram a quantia de 678$450 réis. Além destes, foram também arrematados a peso e por diferentes preços algumas correntes, ancoras, chumbo e cobre.
Hoje, à mesma hora continua a arrematação do resto dos salvados, que constam do velame, cabos e vergas. Preside à arrematação o sr. Francisco Rodrigues de Faria, é escrivão o sr dr. António de Faria Carneiro e pregoeiro o sr. Joaquim da Silva. Representam o capitão do patacho e a companhia de seguros os srs. C.H. Noble & Murat.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 13 de Março 1873)

Arrematação de salvados
Concluiu-se ontem a arrematação do resto dos salvados do patacho inglês “Harriet”. Consistiam estes em vergas, cabos, velas, viradores e outros objectos, o que tudo foi arrematado por diferentes preços e em diversos lotes por vários licitantes, pela quantia de 871$510 réis, sendo das vergas 190$900, das velas 594$150 e de diversas miudezas 86$460 réis.
O produto dos cabos e viradores ainda não é conhecido, porque foram arrematados por cada 60 kilos, não se podendo saber senão depois de verificado o seu peso. Em idêntico caso estão as correntes, ferros, chumbo e cobre, que também foram arrematados a peso.
À arrematação estiveram presentes os empregados da alfândega referidos anteriormente, bem como os consignatários do navio, em representação do capitão e da companhia de seguros.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 14 de Março de 1873)

Patacho “Harriet”
Concluiu-se ontem a arrematação dos salvados do patacho inglês “Harriet”. O produto da arrematação foi o seguinte:
Objectos arrematados no dia 12, 678$450 réis; ferros, ancoras, chumbo e cobre, 727$245 réis; miudezas, 86$460 réis; vergas, 190$900 réis; velas, 594$150 réis e cabos e viradores, 288$430 réis. Total 2:565$635 réis.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 15 de Março de 1873)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A corveta “Sagres”


Lembrando a Escola de Alunos Marinheiros do Porto
1884 – 1898

A "Sagres" no Porto - Imagem da Revista da Armada

O primeiro navio da Marinha Portuguesa com o nome “Sagres” era uma corveta, construída em madeira nos estaleiros Young, Son & Magnay, em Limehouse, Inglaterra. Os planos foram elaborados pelo engenheiro Charles Cousins e foi construída sob a supervisão do Almirante Sir George Sartorius. Em termos de armação tratava-se de uma galera de 3 mastros. Foi equipada com quatro caldeiras de baixa pressão, construídas pela empresa Humphreys, Tennent & Dyle, de Deptford, que forneciam uma potência de 300 cavalos. Tratava-se pois de um navio misto. Esta característica, numa época em que ainda escasseavam os navios a motor, conferiu-lhe o título de melhor navio da sua categoria. Até porque, exclusivamente a motor podia atingir uma velocidade de 12 nós.
O navio tinha castelo e tombadilho e ainda uma superestrutura, à ré do traquete. O seu interior encontrava-se dividido em três pavimentos.
A mastreação era toda em madeira e para além dos mastros reais possuía mais dois mastaréus. O gurupés prolongava-se com o pau da bujarrona. Em cada um dos mastros cruzavam quatro vergas. Nos mastros traquete e grande encontrava-se fixa uma carangueja e uma retranca e na gata uma carangueja e uma retranca, onde envergava pano latino. Quando o navio foi lançado à água, em Junho de 1858, encontrava-se presente o conde do Lavradio, ministro português.

O bota-abaixo do navio em Limehouse, 1857
Imagem Photoship.Uk

Depois de efectuar as provas de mar o navio largou de Portsmouth, no dia 14 de Setembro de 1858. Após uma viagem tranquila, que durou apenas quatro dias, o navio chegou a Lisboa, onde fundeou, no dia 18 do mesmo mês.
Em Janeiro de 1863, encontrando-se o Comandante Álvaro Soares Andreia na posse da «carta de prego», o navio largou de Lisboa. A comissão deveria ser efectuada sob o comando da Estação Naval de Angola, com a importante missão de reprimir o tráfico de escravos e o contrabando, e proteger o comércio lícito.
Em 1866 a “Sagres” foi sujeita a grandes fabricos que incluíram a substituição das peças de artilharia, das caldeiras e da mastreação.
No final de 1868 voltou à Estação Naval de Angola, com os mesmos objectivos da comissão anterior. Em 1873, após uma reparação prolongada, o navio regressou a Luanda, transportando o Almirante José Baptista de Andrade, recentemente nomeado Governador-Geral e Comandante da Estação Naval de Angola. Durante cerca de dezoito anos efectuou inúmeras e variadas missões, ao serviço da Marinha Real.
O navio estava armado com 10 peças de artilharia e esteve integrado, por diversas vezes, em missões de carácter diplomático, chefiadas pelo infante D. Luís, que era oficial de Marinha. Efectuou também algumas viagens de instrução.
Nas suas missões a corveta “Sagres” visitou, entre outros, os seguintes portos estrangeiros: Southampton, Greenhithe, Antuérpia, Bordéus, Tanger, Gibraltar, Vigo, Génova, Rio de Janeiro, Salvador e Pernambuco.
No dia 13 de Novembro de 1876 passou ao estado de desarmamento. Abrigou a partir de então a recém criada Escola de Alunos Marinheiros do Porto. Para o efeito o navio foi sujeito a um período de fabricos durante o qual lhe foi retirado o motor propulsor, bem como feita a adaptação dos espaços livres a fim de servirem como salas de aula, cobertas e camarotes. O armamento, já obsoleto, foi substituído por outro mais recente, para fins de instrução.
Depois de devidamente adaptada, a corveta “Sagres” foi então rebocada até ao rio Douro, no Porto, onde permaneceu fundeada. Recebeu os seus primeiros alunos em Maio de 1884.
Em 1898, devido ao estado de degradação da corveta “Sagres”, a Escola de Alunos Marinheiros do Porto foi transferida para a corveta “Estefânia”. No dia 7 de Setembro desse mesmo ano a corveta “Sagres” foi abatida ao efectivo dos navios da Armada. Viria a ser desmantelada pouco tempo depois.
CFgt Gonçalves, António Manuel, in Revista da Armada Nº 377, Ano XXXIV, Lisboa, Julho de 2004

A "Sagres" no Porto - Imagem da Revista da Armada

Identificação da corveta “Sagres”
Construtor: Young, Son & Magnay, em Limehouse, 1857
Arqueação: Deslocamento máximo 1.382 toneladas
Dimensões: Ff 79,00 mts - Boca 9,90 mts - Pontal 6,15 mts

Notícias dos jornais
A corveta “Sagres”
Às 6 horas e cinquenta minutos da manhã de ontem, apareceu à vista da barra do Porto, rebocada pelo transporte de guerra “Índia”, a corveta “Sagres” que, como se sabe, vem estacionar no Douro, em frente a Massarelos, a fim de servir de Escola de Alunos Marinheiros.
Às 7 horas e cinquenta minutos saiu a barra, a fim de rebocar aquele navio de guerra para dentro do porto, o rebocador “Veloz”, levando a bordo o Capitão do Porto, 1º Tenente da Armada sr. Mendes Leite, que já se acha nomeado comandante daquele navio durante a sua permanência na cidade.
Às 10 horas e meia da manhã entrava a barra a corveta “Sagres” rebocada pelo referido vapor, vindo então a bordo daquela os dois oficiais de Marinha que já mencionamos, e os competentes pilotos da barra. A corveta entrou sem novidade fundeando em Massarelos.
Era grande o concurso de povo na Foz e nas margens do rio a presenciar aquele espectáculo. O transporte “Índia”, que conduziu a “Sagres”, navegou para sul às 4 horas e trinta e cinco minutos da tarde.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 7 de Outubro de 1882)
Corveta “Sagres”
Devem começar amanhã as obras de calafetagem do casco da corveta “Sagres”, que se prepara para servir de Escola de Alunos Marinheiros, no porto do Porto. Desses trabalhos foi incumbido o conhecido mestre calafate o sr. Joaquim Vitorino Alves.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 19 de Agosto de 1883)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

História trágico-marítima (CVI)


O naufrágio do vapor de pesca “Libertador”

Vapor de pesca afundado
Esta tarde (18.03.1917) foi conhecida a notícia de que tinha sido afundado próximo da costa o vapor de pesca português “Libertador”, propriedade da firma Oliveira & Tavares. Era vulgarmente conhecido pelo vapor das peixeiras, porque nele tinham interesse várias vendedeiras de peixe. O “Libertador” estava seguro em 36 contos. Toda a tripulação foi salva.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 19 de Março de 1917)

Identificação provável do vapor “Libertador”
Armador: Oliveira & Tavares, Lisboa
Não estão disponíveis quaisquer informações deste vapor

Este é um caso de ataque a uma pequena embarcação de pesca, que ainda não está completamente esclarecido. Contudo face à presença algures próximo do Cabo da Roca, na data do afundamento, do submarino alemão UC-67, que se encontrava sob o comando do capitão Karl Neumann, é de admitir ter sido o responsável por esta ocorrência.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Boas Festas


Caros amigos,


Votos de um Natal muito feliz e um próspero 2014

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

História trágico-marítima (CIV)


O encalhe do vapor inglês "Earl of Dumfries"

Naufragou esta manhã (06.08.1883), próximo de Cascais, por causa do nevoeiro, o vapor “Earl of Dumfries”, que ficou completamente perdido.
Salvaram-se os tripulantes, passageiros e bagagens.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 6 de Agosto de 1883)

Imagem do vapor encalhado próximo a Cascais
Foto de autor desconhecido - Colecção Francisco Cabral

Identificação do vapor
Armador: W.H. Martin & Hilary B. Marquand, Cardiff, Inglaterra
Construtor: Samuel Peter Austin & Son, Sunderland, 07.1882
Arqueação: Tab 1.445,00 tons - Tal 840,00 tons
Dimensões: Pp 74,55 mts - Boca 11,00 mts - Pontal 5,27 mts
Propulsão: 1 motor compósito, 2:Ci - 158 Nhp - 88 Ihp
Equipagem: 21 tripulantes
Vendido em 1910 mudou o nome para “Andora”. Demolido em Savona (Itália), em 1931.

Vapor “Earl of Dumfries”
Lisboa 5 – Hoje às 4 horas e cinquenta e cinco minutos da manhã veio aviso da estação de Oitavos, que na Lage do Ramela, próximo do farol da Guia, se achava encalhado um vapor. A cerração estava fechada completamente. Soube-se depois ser o vapor inglês “Earl of Dumfries”, que vinha de Taganrog (Rússia), por Malta, e se destinava a Altona (Alemanha), com carga de cereais. Tripulado por 21 homens conduzia 10 passageiros. Estes, bagagens e tripulantes desembarcaram com facilidade, porque o mar estava chão. Não houve perda de vidas. Às 6 horas a cerração ainda era densa, segundo participaram de Cascais.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 7 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Lisboa 6 – O sr. Governador civil de Lisboa foi ontem ao local do naufrágio do vapor inglês “Earl of Dumfries”, e ordenou que os tripulantes e passageiros embarcassem no mesmo vapor, e que ali se conservassem enquanto não fosse conhecido o motivo pelo qual o navio não quisera entrar em Malta, para se não sujeitar a quarentena.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 7 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Como estivesse com os náufragos do vapor “Earl of Dumfries” o sr. Eduardo Ferreira Pinto Basto, e aqueles recebessem ordem de ir para o lazareto, foi também com eles o referido cavalheiro. O vapor tem carta limpa, mas o facto de ter entrado em Malta, onde existe quarentena para as procedências do Egipto, deu lugar às providências que foram adotadas a este respeito.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 8 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Quando o chefe do distrito chegou no Domingo à praia da Guia, onde encalhara o vapor “Earl of Dumfries”, já ali estava o chefe do corpo de fiscalização externa da alfândega, sr. D. Joaquim de Melo, acompanhado de 11 guardas e 10 remadores. A pedido daquele empregado fiscal, o sr. governador civil mandou retirar para Lisboa sete polícias que o haviam acompanhado, e por ordem do magistrado superior do distrito estabeleceram logo um cordão sanitário para evitar que os náufragos comunicassem com a terra, sendo em seguida o capitão do navio intimado a recolher com os tripulantes e passageiros ao vapor encalhado ou às fragatas que estavam próximas. A princípio o capitão negou-se a cumprir tal ordem, declarando ter resolvido armar com os salvados no vapor, uma barraca na praia, e conservar-se ali com a sua gente até ao momento do vapor se despedaçar ou desaparecer, mas aconselhado por algumas pessoas obedeceu à intimação. Ante-ontem foi determinado ao capitão do porto que informasse se o “Earl of Dumfries” estava ou não completamente perdido, para no caso afirmativo, se mandar recolher os náufragos ao Lazareto. A vistoria feita por ordem do arsenal da marinha declarou que o casco do vapor talvez possa ser salvo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 9 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Entraram no Lazareto os passageiros do vapor “Earl of Dumfries”. Parte do carregamento já está salvo. Do vapor encalhado “Earl of Dumfries” há já muitas fragatas carregadas com centeio, cumprindo quarentena em Belém.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 10 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Estavam ontem a cumprir quarentena em frente da praia do Bom Sucesso, trinta e tantas fragatas carregadas de centeio do encalhado vapor “Earl of Dumfries”.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 12 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Ainda não estão perdidas as esperanças de salvar o vapor “Earl of Dumfries”, que há dias naufragou próximo a Cascais. Ontem foi para junto dele o rebocador “Scotia”, vindo expressamente de Inglaterra com duas grandes bombas de esgoto.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Com o auxílio de um rebocador foi conseguido safar o vapor “Earl of Dumfries”, que já se encontra fundeado no Tejo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 30 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
O vapor “Earl of Dumfries” que estava havia cerca de 15 dias encalhado junto do farol da Guia, conseguiu ontem de manhã, com o auxílio dos rebocadores “Scotia” e “Portimão”, safar-se do local onde se encontrava, e seguindo para a barra, entrou no Tejo pouco depois das 3 horas da tarde, indo fundear na Cova da Piedade. Os dois rebocadores acompanharam-no até ao local do ancoradouro.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 31 de Agosto de 1883)

Vapor “Earl of Dumfries”
Saiu ante-ontem do dique do arsenal de marinha o vapor inglês “Earl of Dumfries”, que ali esteve a receber uma reparação provisória, a fim de poder seguir para Inglaterra, onde irá fazer o verdadeiro concerto de que carece. Fizeram-lhe ante-ontem a competente vistoria e acharam estar nas melhores condições para empreender a viagem.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 23 de Outubro de 1883)

sábado, 14 de dezembro de 2013

História trágico-marítima (CIII)


O naufrágio do vapor "Luso"

Paquete naufragado
Reinava certa ansiedade em Lisboa pela demora que havia na chegada do paquete “Luso”, que era esperado vindo dos Açores, ansiedade que acaba por ser tristemente justificada.
Segundo se apura pelos telegramas recebidos, aquele paquete naufragou em Ponta Delgada, no passado dia 26 de Julho. Salvaram-se, felizmente, todas as pessoas que se encontravam a bordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 15 de Agosto de 1883)

Gravura alusiva ao naufrágio do vapor "Luso",
segundo uma fotografia de J. Pacheco Toste
(Reis, A. Estácio dos Reis, Os Navios d'Ocidente, Gradiva, 2001)

Identificação do vapor
Armador: Empresa Insulana de Navegação, Lisboa
Nº Oficial: N/ tem - Iic.: H.D.F.J. - Registo: Ponta Delgada
Construtor: Bowdler, Chaffrer & Co. Liverpool, 02.10.1875
Arqueação: Tab 999,00 tons – 1.071,000 m3
Dimensões: Pp 72,10 mts - Boca 8,90 mts - Pontal 6,71 mts
Propulsão: 1 motor compósito

Desenho do vapor "Luso" - Original de Luís Filipe Silva

Vapor "Luso"
Causou sensação a notícia do naufrágio do vapor “Luso”, assim que a informação foi divulgada ante-ontem de manhã, de acordo com a comunicação feita pelo couraçado “Vasco da Gama” ao chegar à baía de Cascais. O ministério da marinha, quando recebeu a participação, mandou-a comunicar ao agente da empresa, o sr. Germano Serrão Arnaud, que foi em seguida a Cascais saber pormenores do comandante do couraçado. Pouco, todavia, adiantou.
A bordo do “Luso” tinham seguido viagem para os Açores 72 passageiros, navegando em 1ª classe os seguintes senhores: Duarte Borges, António de Andrade Albuquerque, José Pereira da Cunha Silveira e Sousa, Cândido Forjaz, Guilherme Augusto de Aguiar, barão de Ramalho, António da Fonseca, Sebastião Correia da Silva Leal e sua mãe, José Martins Cardoso Pereira, esposa e filho; e da segunda classe os seguintes: D. Maria Cândida da Rocha, José Cordeiro de Castro, João de Almeida e sua mulher, João Borges Leoni, Miguel Inácio do Amaral, Ramiro Martins Cardoso e Manuel Rodrigues.
O “Luso” fôra expressamente mandado construir pela Empresa Insulana de Navegação, em 1875, em Liverpool, à casa construtora Bowler Cheffter & Co. Tinha a lotação de 1.071 metros cúbicos e media 280 pés de comprido, 29 de boca, 22 de pontal; tinha acomodações para 60 passageiros de 1ª classe, 24 de 2ª e 50 de 3ª. O vapor “Luso” estava seguro em 15.000 libras.
O naufrágio deu-se às 11 horas da noite do dia 26, e não 28 como se dizia, e foi efectivamente por causa da cerração. A carga julga-se quase toda perdida.
O “Açor” chegara a S. Miguel no dia 8, às 7 horas da tarde, e é esperado em Lisboa no dia 21. Logo que chegue receberá ordem para seguir de novo para os Açores. Estas notícias vieram ante-ontem na mala que trazia o iate “Novo Rasoulo”, chegado de S. Miguel.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 17 de Agosto de 1883)

Arrematação de salvados
O casco do vapor “Luso” foi ali vendido por um conto de réis; os utensílios e restos salvados por três contos; e vinte pipas da carga por 300$000 réis. O resto foi comprado pelos srs. Bensaúde, Avelares, etc.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 24 de Agosto de 1883)