Do sr. Abel Coutinho, o corajoso salvador da tripulação do iate “Grande Baptista”, há dias naufragado próximo de Carreiros, recebemos uma carta que a seguir publicamos, na qual se denuncia um facto que merece realmente ser considerado pela benemérita corporação que se acha à testa dos serviços de salvamento na barra do rio Douro.
Segundo refere essa carta, há por vezes bastante demora em preparar o salva-vidas, tornando-se assim moroso o socorro que ele deve prestar. Com a tripulação do iate “Bussaco”, nem os seus serviços puderam aproveitar-se, pois os náufragos foram trazidos para terra por uma lancha de bordo.
Fazendo a publicação da carta, fica a certeza que a sua leitura despertará a atenção de quem compete para o assunto de que se trata:
«Sr. redactor – Como esclarecimento à notícia dada nas páginas de 2 do corrente, com relação ao naufrágio do iate “Bussaco”, e para evitar de futuro a repetição do facto que sucedeu com o salvamento da tripulação desse barco, peço-lhe que chame a atenção de quem compete para a morosidade com que em ocasiões de sinistro na barra é feito o serviço do salva-vidas.
Com a tripulação do iate “Bussaco” deu-se essa morosidade, pois que, além do longo tempo que demorou a preparar o barco salva-vidas, a referida tripulação teve de vir para terra na lancha do iate, quando aquele barco podia ainda de dia ter-se aproximado da embarcação.
Além disso, como tivessem ficado a bordo dois homens, que não puderam vir na lancha, teve esta de voltar para ir lá buscá-los, quando esse serviço devia competir ao salva-vidas, que se achava próximo da referida lancha.
São estes os factos que se deram e que seria para estimar não se repetissem. Devo acrescentar, em obediência à verdade, que as primeiras pessoas que saltaram para o salva-vidas foram o srs. Joaquim Bilte, piloto da barra, e António, banheiro, por alcunha o “Bexiga”, os quais da melhor vontade se prestaram a ir em socorro dos náufragos, não podendo infelizmente ser aproveitados os seus serviços.
Vossa senhoria, sr. redactor, prestaria um bom serviço, publicando estes meus esclarecimentos e pedindo em vista deles as providências necessárias.
(a) Abel Coutinho Felgueiras Osório
(In jornal “O Comércio do Porto”, Domingo, 4 de Fevereiro 1883)
Iate “Bussaco”
Foi arrematado ontem no Cabedelo o visto e o não visto da carga e casco do iate “Bussaco”, ultimamente naufragado na barra do rio Douro, produzindo o visto e o não visto do casco a quantia de 25$250 réis e o visto e não visto da carga 10$500 réis. O arrematante foi o sr. António Lopes.
(In jornal “O Comércio do Porto”, terça, 6 de Fevereiro de 1883)