quarta-feira, 27 de novembro de 2013

História trágico-marítima (XCIV)


O naufrágio do iate " Novo Feliz "

Por informação do cônsul de Portugal em Gibraltar, datada de 21 de Março corrente, consta haver ido a pique, no dia anterior (20.03.1883), próximo daquela praça, o iate português “Novo Feliz”, de Setúbal, propriedade de António Maria Sales e outros, tendo-se salvo a tripulação.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 31 de Março de 1883)

Identificação do navio
Armador: António Maria Sales e outros, Setúbal
Nº Oficial: N/tem - Iic.: H.D.M.P. - Registo: S. Martinho do Porto
Arqueação: 91,537 m3
Propulsão: À vela

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

História trágico-marítima (XCIII)


O naufrágio do caíque " Harmonia "

Naufragou na quinta-feira (08.03.1883), ao sul da barra do porto da Figueira da Foz, na praia fronteira aos palheiros da Cova, o caíque “Harmonia”, que se destinava a um dos portos do norte, com carga de pedra. Carga e navio perderam-se completamente, salvando-se a custo, na lancha do caíque, a tripulação.

Identificação do caíque
Armador: Manuel Moisés, Cova, Figueira da Foz
Não consta na lista de navios portugueses de 1882

O caíque era propriedade do sr. Manuel Moisés, da Cova, empregado das obras da barra do porto da Figueira. Embarcação e carga não estavam no seguro.
Informam que o naufrágio não fora presenciado por pessoa alguma e que não havia na praia do sul um único guarda aduaneiro, por estarem todos em serviço nos postos (!) estabelecidos para a fiscalização do sal.
Ora, assim como a carga transportada era de pouca importância, se se desse o caso de ser valiosa, quem daria comunicação à alfândega, quem deveria fiscalizar, e em caso de necessidade, prestar os necessários socorros aos náufragos?
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 13 de Março de 1883)

domingo, 24 de novembro de 2013

História trágico-marítima (XCII)


O abandono do palhabote “Florinda”

O cônsul de Portugal em Málaga comunicou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que entrou no dia 22 do corrente, à noite, naquele porto, rebocado pelo vapor de pesca espanhol “Galícia”, o palhabote português, denominado “Florinda”, que o referido vapor encontrou abandonado na costa de Marrocos, em frente da cidade de Casablanca.
Diz essa comunicação, que esse palhabote lhe consta pertencer a um armador do Porto. A tripulação desse barco, já regressou há dias às terras das suas residências, nos concelhos do distrito de Viana do Castelo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 30 de Dezembro de 1925)

Identificação do iate português “Florinda”
Armador: Soc. Pesca Florinda, Figueira da Foz (1906-1925)
Nº Oficial: A-279 - Iic.: H.K.M.G. - Registo: Figueira da Foz
Construtor: Desconhecido, Vila do Conde, 1893
ex “Florinda”, José Correia dos Santos, Porto (1893-1906)
Arqueação: Tab 112,84 tons - Tal 88,21 tons
Dimensões: Pp 28,64 mts - Boca 7,13 mts - Pontal 2,80 mts
Propulsão: À vela

Nota: Este iate foi abandonado pela tripulação, ao largo de Gibraltar, em Dezembro de 1925, por ser considerado inavegável, quando se encontrava sob o comando do mestre António Cadilha (1924-1925). Inicialmente, no período em que esteve matriculado na praça do Porto, foi posto ao serviço do comércio, no tráfego de pequena cabotagem. Após ter sido adquirido pela Soc. de Pesca Florinda, efectuou dez campanhas à pesca do bacalhau, sob o comando dos capitães José Tomás Rosa (1907-1915) e João de Oliveira (1916). Posteriormente, regressou ao serviço de pequena cabotagem, em 1917, sob o comando dos capitães Luís Francisco Capote (1917 e 1918), Paulo Fernandes Bagão (1919) e Luís Simões Chuva (1923).

sábado, 23 de novembro de 2013

História trágico-marítima (XCI)


O naufrágio do vapor "Duque do Porto"


Vapor “Duque do Porto”
Não é conhecido até esta hora (meio dia) qualquer pormenor sobre o naufrágio do vapor “Duque do Porto”, nas alturas de Peniche. Esperava-se que através da correspondência vinda da capital haveria algumas informações sobre tão lamentável acontecimento, mas como estão em falta nada há a acrescentar.
Procura-se indagar detalhes do sinistro pela cidade, porém, algumas pessoas que receberam cartas de Lisboa, dizem que elas ainda nada adiantam. É pois provável que na capital à saída do correio também ainda não houvesse pormenores sobre o naufrágio, que teve lugar na manhã desta terça-feira.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 28 de Julho de 1859)

Vapor “Duque do Porto”
Lisboa, 27 – Perdeu-se o vapor “Duque do Porto”. Até esta hora, 3 da tarde, não consta na agência mais do que o seguinte:
Uma parte telegráfica dirigida da estação das Caldas da Rainha ao director da alfândega grande, recebida ontem à tarde, noticia a perda do referido navio, acontecida no mesmo dia de ontem, pelas 6 horas da manhã, próximo a Peniche.
Um ofício ao inspector do Arsenal de Marinha, confirma aquela notícia, acrescentando que apenas perecera um moço. Os demais tripulantes e todos os passageiros salvaram-se, havendo esperança de que também se salve a carga e uma grande parte dos objectos do navio, em consequência do sinistro ter acontecido perto da praia e o mar estar bom.
Esperam-se hoje mais informações minuciosas, sendo para admirar que até esta hora não tenham chegado, quando o sinistro se deu a tão pequena distancia!
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 29 de Julho de 1859)

Vapor “Duque do Porto”
Ontem à noite foi recebida na cidade uma participação telegráfica do capitão do porto de Peniche, sobre o naufrágio do vapor “Duque do Porto”, na qual diz que aquele navio encalhara ali em cima de umas pedras, mas como em seguida a essas pedras havia uma praia, esperavam poder salvar a carga e todos os utensílios do vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 29 de Julho de 1859)

Vapor “Duque do Porto”
Consta que o vapor “Duque do Porto” não encalhara por acaso, mas que a isso fôra obrigado por necessidade, porque começando nas alturas de Peniche a fazer água na proa, em tal quantidade que foi reconhecida a impossibilidade de esgotá-la com as bombas, pelo que resolveram encalhá-lo próximo daquele porto, salvando-se todos os passageiros e a tripulação, e só morrera um moço por se ter lançado intempestivamente ao mar. No acto da varação, partiu-se o casco e por isso este não poderá ser salvo. Há já notícia de terem salvado parte da carga, mas bastante avariada.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 30 de Julho de 1859)

Post-scriptum
Até esta hora (5 da tarde) não chegou à agência do “Duque do Porto” nenhuma notícia além do que foi anteriormente transmitido. Parece incrível, mas é verdade, o capitão do vapor ainda não fez participação alguma aos srs. Chambica & Gonçalves.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 30 de Julho de 1859)

Vapor “Duque do Porto”
Já há hoje alguns pormenores acerca do naufrágio do vapor “Duque do Porto”, que passamos a informar, segundo uma carta que foi lida:
O vapor navegava com a proa a S.S.O. (leia-se sul-sudoeste) estando um nevoeiro fortíssimo, e quando calculavam que já estivessem fora das Berlengas, foi visto pela proa a ponta mais saída de Peniche. O capitão julgando que era o Farilhão, que é semelhante, mandou orçar, mas vendo o mar a rebentar pela proa, mandou logo recuar. Nesta ocasião o vapor foi de encontro a uma pedra que estava no meio da enseada, e quebrou-se-lhe o cadastre, a quilha e a popa; perdeu o leme e a máquina parou ficando entalado o hélice.
Os marinheiros saltaram no salva-vidas e puseram-se em terra, sem tratarem da salvação dos passageiros, o que sendo verdade, é muito censurável. Com este procedimento contrasta o do capitão, piloto e dois engenheiros que se portaram duma maneira condigna conservando-se a bordo até que os passageiros fossem salvos, e ao meio-dia todos estavam em terra, à excepção de um que pereceu neste naufrágio. O sr. major João José Barreto França ficou maltratado.
O vapor ficou entalado entre grandes pedras enchendo-se de água na preia-mar. Diz a referida carta que dificilmente poderão salvar o casco, não obstante todos os esforços que tem sido feitos para isso. Consta que parte da carga já chegara a Lisboa.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 1 de Agosto de 1859)

Vapor “Duque do Porto”
Chegou a notícia de ter sido recebida ontem a participação telegráfica, de que o mar desfizera o vapor “Duque do Porto”, ficando assim destruídas algumas esperanças que ainda havia de se salvar o casco.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 2 de Agosto de 1859)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Faróis


Novidades do passado

Por portaria de 7 de Julho último foi determinado que se escolha o local proposto pela comissão de faróis e balizas para a construção de um farol em Aveiro, cuja torre deverá ter 55 metros de altura desde a respectiva base até à plataforma da lanterna, e que a direcção geral dos correios, telégrafos e faróis elabore o projecto e orçamento do referido farol, por modo que permita o estabelecimento de um posto meteorológico e de um semáforo.

Imagem do farol de Aveiro (Ílhavo) - Postal ilustrado

Farol de Aveiro (Long 40º38’29” Lat 8º44’48”)
Situado perto da barra do rio Vouga, na margem esquerda. Torre circular, de alvenaria, às faixas horizontais brancas e vermelhas. Elevando-se do centro de um edifício de dois pavimentos, tem um alcance luminoso de pelo menos 28 milhas. Terminada a construção e inaugurado em 1893.

O «Diário do Governo» publica também um mapa da distribuição da verba consignada no orçamento, com destino à construção de faróis e balizas. Essa verba é de 220:000$000, destinando-se 122:090$000 réis para o alumiamento da costa marítima do continente; 55:193$200 réis para alumiamento de portos e barras do continente; 39:300$000 réis para alumiamento das costas e portos do arquipélago dos Açores; 800$000 réis para marcas marítimas e 2:616$800 réis para estudos e despesas imprevistas.

Imagem do farol de Felgueiras - Foto de António Tedim

Farol de Felgueiras, Porto (Long 41º08’41” Lat 8º40’37”)
Situado na testa do molhe de Felgueiras, à entrada da barra do rio Douro. Torre hexagonal de cantaria, com uma elevação de 11,50 metros, visível de 265º a 134º pelo norte. Foi construído e inaugurado em 1886.

No mapa de que se trata compreende-se a construção de um farol no molhe norte de Felgueiras e outro na marca da barra do Porto. Para cada uma dessas construções é destinada a quantia de 690$000 réis.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 5 de Agosto de 1883)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Farewell!


Um eventual adeus ao paquete “ Saga Ruby “


Nunca tive tanto prazer, como tristeza, em fotografar um navio, tal como aconteceu esta tarde em clima de provável despedida. Como não há palavras que possam descrever o sentir em relação a harmonioso amontoado de aço, só me posso valer das imagens, que retratam o mais elegante navio de cruzeiros, que desde há alguns anos visita o porto de Leixões, com uma apreciável regularidade.


A companhia Saga Cruises, proprietária do navio, vai colocá-lo à venda. Como sempre acontece nestas circunstâncias, fica sempre a esperança de que possa aparecer alguém interessado nele e, nesse sentido, seja ainda possível revê-lo, ao vivo, ou através de imagens, se o futuro destino o mantiver afastado das águas europeias. De outra forma, a já longa existência poderá pô-lo num qualquer estaleiro, dos vários que proliferam no leste asiático, entregue aos insensíveis maçaricos cortadores de metal.
Está cada vez mais próximo o fim dos paquetes, daqueles navios construídos com paixão e afetos, pensados com a finalidade de transportar passageiros, famílias que se deslocaram à procura de novas formas de vida em locais distantes do seu meio ambiente, do seu país natal, e inclusivamente dos seus familiares, saudosos dos entes outrora emigrados.


Este e outros navios que fizeram história na marinha de comércio tendem a desaparecer muito rapidamente e por essa razão ficam esquecidos, exigência da construção naval moderna, cuja indústria teima em progredir, inovar, melhorar e aumentar sempre, cada vez mais, o tamanho de novos navios, luxuosamente decorados e com a oferta de viagens de sonho, naqueles locais onde o sol e o calor prometem ser o eterno elixir da juventude.
Mas, simultaneamente perde-se o mais importante, que era a extraordinária capacidade de se conseguir socializar e criar novas amizades, afinal a continuação de uma nova família, descoberta e continuada por muitos anos, fora de portas.


Fiquemos pois a aguardar para saber que futuro vai ter o navio. Resta desejar-lhe sorte e boas viagens por mares bonançosos, e um até sempre, independentemente do que ainda possa vir a acontecer.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

História trágico-marítima (XC)


O naufrágio do iate “ Bussaco “
Continuam a assinalar-se por lamentáveis as ocorrências marítimas por efeito do temporal que tem pairado sobre o litoral norte do país.
Ontem (01.02.1883), ao fim da tarde, vindo com a bandeira colhida, deu à costa na restinga do Cabedelo o iate “Bussaco”, que encalhou exactamente no ponto onde há dias esteve encalhado o vapor “Rio Douro”. A causa deste sinistro foi o iate não poder arrostar com o temporal, estando o mar cavadíssimo, com vento de sudoeste a soprar com grande violência.
Segundo informação do sr. Visconde de Moser, em virtude da participação telegráfica que teve da Foz, a tripulação, composta de 7 homens, salvou-se inteiramente, ainda que a custo. Os náufragos foram recolhidos pelo barco salva-vidas e depois de desembarcarem na Cantareira, foram recolhidos no Hospital Humanitário. O casco considera-se perdido.
O “Bussaco” era propriedade dos srs. Manuel dos Santos Vitorino e Joaquim Gomes da Silva Rodrigues. Vinha de Aveiro, por Vigo, com carregamento de sal e vários objectos salvados do naufragado vapor inglês “Kate Forster”.
O casco e a carga estão seguros na Companhia Lealdade e outras.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 2 de Fevereiro de 1883)

Identificação do navio
Armador: Manuel dos Santos Vitorino e Joaquim Gomes da Silva Rodrigues, Porto
Nº Oficial: N/t - Iic.: H.C.L.R. – Porto de registo: Porto
Construtor: Desconhecido, Vila do Conde, 1875
Arqueação: 84,872 m3
Propulsão: À vela

O naufrágio do iate “ Bussaco “
De ante-ontem para ontem o iate “Bussaco”, que encalhou no Cabedelo, conservou-se direito, não se sabendo se tinha água aberta. Ontem, porém, cerca das 8 horas da manhã, impelido pelo ímpeto da corrente, safou do lugar onde havia encalhado e foi barra fora à garra, com os ferros no fundo, ficando bem depressa com a borda de bombordo destruída. Pouco depois despedaçava-se inteiramente.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 3 de Fevereiro de 1883)

O serviço do salva-vidas
Do sr. Abel Coutinho, o corajoso salvador da tripulação do iate “Grande Baptista”, há dias naufragado próximo de Carreiros, recebemos uma carta que a seguir publicamos, na qual se denuncia um facto que merece realmente ser considerado pela benemérita corporação que se acha à testa dos serviços de salvamento na barra do rio Douro.
Segundo refere essa carta, há por vezes bastante demora em preparar o salva-vidas, tornando-se assim moroso o socorro que ele deve prestar. Com a tripulação do iate “Bussaco”, nem os seus serviços puderam aproveitar-se, pois os náufragos foram trazidos para terra por uma lancha de bordo. Fazendo a publicação da carta, fica a certeza que a sua leitura despertará a atenção de quem compete para o assunto de que se trata:
«Sr. redactor – Como esclarecimento à notícia dada nas páginas de 2 do corrente, com relação ao naufrágio do iate “Bussaco”, e para evitar de futuro a repetição do facto que sucedeu com o salvamento da tripulação desse barco, peço-lhe que chame a atenção de quem compete para a morosidade com que em ocasiões de sinistro na barra é feito o serviço do salva-vidas.
Com a tripulação do iate “Bussaco” deu-se essa morosidade, pois que, além do longo tempo que demorou a preparar o barco salva-vidas, a referida tripulação teve de vir para terra na lancha do iate, quando aquele barco podia ainda de dia ter-se aproximado da embarcação.
Além disso, como tivessem ficado a bordo dois homens, que não puderam vir na lancha, teve esta de voltar para ir lá buscá-los, quando esse serviço devia competir ao salva-vidas, que se achava próximo da referida lancha.
São estes os factos que se deram e que seria para estimar não se repetissem. Devo acrescentar, em obediência à verdade, que as primeiras pessoas que saltaram para o salva-vidas foram o srs. Joaquim Bilte, piloto da barra, e António, banheiro, por alcunha o “Bexiga”, os quais da melhor vontade se prestaram a ir em socorro dos náufragos, não podendo infelizmente ser aproveitados os seus serviços.
Vossa senhoria, sr. redactor, prestaria um bom serviço, publicando estes meus esclarecimentos e pedindo em vista deles as providências necessárias.
(a) Abel Coutinho Felgueiras Osório
(In jornal “O Comércio do Porto”, Domingo, 4 de Fevereiro 1883)

Iate “Bussaco”
Foi arrematado ontem no Cabedelo o visto e o não visto da carga e casco do iate “Bussaco”, ultimamente naufragado na barra do rio Douro, produzindo o visto e o não visto do casco a quantia de 25$250 réis e o visto e não visto da carga 10$500 réis. O arrematante foi o sr. António Lopes.
(In jornal “O Comércio do Porto”, terça, 6 de Fevereiro de 1883)