sábado, 2 de novembro de 2013

História trágico-marítima (LXXXVI)


Dois sinistros na área marítima de Viana do Castelo

Sinistro marítimo
A escuna inglesa “Margaret”, quando ante-ontem (15.12.1882) entrava a barra do porto de Viana do Castelo, encalhou numas pedras próximo do cais do Fortim, indo em seguida de encontro à escuna inglesa “Dahlia”, que entrara pouco antes. Deste incidente resultou ficar a “Margaret” com o leme e o pau da bujarrona partidos. A “Margaret” procedia da Terra Nova, com um carregamento de bacalhau.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 17 de Novembro 1882)

Identificação (provável) dos navios
Escuna inglesa “Margaret”
Armador: William Grive & Sons, Ltd., Greenock
Construtor: Desconhecido, Bridgeport, 03.1862
Arqueação: Tab 135,00 tons
Dimensões: Pp 28,74 mts - Boca 6,40 mts - Pontal 3,54 mts
Propulsão: À vela
e
Escuna inglesa “Dahlia”
Armador: P.G. Tessier, St. John’s, Terra Nova
Construtor: Laing, Bideford, Inglaterra, 08.1873
Arqueação: Tab 128,00 tons
Dimensões: Pp 29,57 mts - Boca 6,40 mts - Pontal 3,26 mts
Propulsão: À vela

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Naufrágio
Ontem de madrugada (19.12.1882) naufragou a uma milha ao sul da barra de Viana o iate “Africano”, que havia saído há seis dias de Setúbal para aquele porto com um carregamento de sal. A tripulação, de que era mestre o sr. João dos Santos Silva salvou-se com muito custo na catraia dos pilotos.
O casco e o carregamento estão completamente perdidos. O naufrágio foi ocasionado devido ao navio estar alquebrado. O iate “Africano” pertencia à praça de Aveiro e era propriedade do sr. António Henriques e de outro individuo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 20 de Dezembro de 1882)

Identificação do navio
Iate português “Africano”
Armador: António Henriques & Cª., Aveiro
Construtor: Desconhecido
Propulsão: À vela
Não há referência a este iate na lista de navios de 1882.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

História trágico-marítima (LXXXV)


O vapor “ City of Glasgow “
1866 - 19??

Ocorrência marítima
Ontem, pelas 10 horas da manhã, quando entrava a barra o vapor “City of Glasgow”, rebocado pelo vapor “Veloz”, tocou nas pedras próximo da «Forcada», desgovernando. Largou a amarreta que o prendia ao rebocador e seguiu até acima da Meia-laranja onde largou ferro.
Pouco depois o “Veloz” passou-lhe novamente a amarreta e puxou-o para o centro do canal, seguindo rio acima, sem outra novidade. Ignora-se se o vapor sofreu alguma avaria no casco, o que só se poderá verificar com segurança quando lhe for feita a costumada vistoria.
(In jornal “O Comércio do Porto”, terça, 5 de Dezembro 1882)

Foto do vapor "City of Glasgow" (I)
Imagem da colecção Photoship.Uk

Identificação do navio
Nº Oficial: N/t - Iic.: W.Q.H.D. - Porto de registo: Glasgow
Armador: C. Connell & Co., Glasgow, 1867-??
Construtor: G. Smith & Sons, Glasgow, 02.1867
Arqueação: Tab 1.168,00 tons - Tal 1.106,00 tons
Dimensões: Pp 69,49 mts - Boca 10,36 mts - Pontal 6,77 mts
Capitão embarcado: Burrell (1882)

Anúncio do movimento de navios no porto do Douro
consignados pela firma Carlos Coverley & Cª.

O vapor “City of Glasgow” chegou ao rio Douro procedente dos portos de Glasgow e Greenock, em 4 dias de viagem, sob o comando do capitão Burrell. Transportava fazendas diversas, vindo consignado a Carlos Coverley & Cª., do Porto.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

História trágico-marítima (LXXXIV)


Vapor “Isle of Bute“

Acerca deste vapor, que ainda há pouco sofreu um rombo ao entrar a barra do rio Douro, consta na lista do Lloyd’s o seguinte telegrama expedido de Shields, com data de 13 do corrente:
«O vapor “Isle of Bute”, capitão Sutherland, de viagem para o Porto, arribou neste porto. Refere que, quando ontem se achava à altura de Souter Point, foi encontrada água a entrar no castelo da proa por uma fenda, que se manifestara num dos costados e por uma chapa que havia junto à água. Entrando no rio, abalroou com uma boia, ficando a hélice avariada.
Por essa ocasião garrou, caindo sobre alguns rebocadores, o “Lady Trejedar”, o “Restless”, o “Victoria”, o “Contest” e outros. Foi contratado um rebocador para o arrastar para fora, conseguindo levá-lo para a amarração mais próxima, mas foi de encontro ao vapor “Petersburgo”, batendo-lhe na quadra da popa, fazendo-lhe um pequeno rombo, e sofrendo ele próprio também uma avaria na parte posterior do casco».
(In jornal “O Comércio do Porto”, segunda, 22 de Janeiro de 1883)

Identificação do navio
Armador: T. Danzell, Liverpool, 1875-18??
Nº Oficial: N/t - Iic.: N.T.S.J. - Porto de registo: Liverpool
Construtor: Desconhecido, Port Glasgow, Escócia, 03.1875
Arqueação: Tab 929,00 tons
Dimensões: Pp 63,89 mts - Boca 10,46 mts - Pontal 6,31 mts
Capitão embarcado: Sutherland (1882)

O encalhe do vapor “ Isle of Bute “
O vapor inglês “Isle of Bute” ao demandar a barra do rio Douro encalhou na restinga do Cabedelo; momentos depois safou, seguindo rio acima, sem novidade.
O vapor entrou na barra do rio Douro no dia 28 de Novembro, procedente de Newcastle, em 8 dias de viagem, com um carregamento de carvão consignado a M.F. Rosas.
(In jornal “Comércio do Porto”, segunda, 29 de Novembro 1882)

Vistoria
Vai ser levado para a praia de Vila Nova de Gaia, a fim de ser vistoriado, o vapor inglês “Isle of Bute”, que como previamente noticiado, encalhou na restinga do Cabedelo quando entrava na barra do rio Douro, presumindo-se que o casco se ache um pouco danificado em resultado daquele incidente.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 2 de Dezembro 1882)

domingo, 27 de outubro de 2013

História trágico-marítima (LXXXIII)


Vapor inglês “Kate Forster”

Naufrágio a sul de Aveiro
Por telegrama oficial recebido no Porto, soube-se que naufragou ontem (13.10.1882) ao sul da barra de Aveiro o vapor inglês “Kate Forster”, procedente de Shields com um carregamento de carvão, consignado aos srs. D.M. Feuerheerd Júnior & Cª., com destino às minas do Braçal.
Ignoram-se por enquanto quaisquer pormenores com respeito ao estado em que se encontra o vapor, ao modo como se deu o sinistro e à sorte da tripulação.
Presume-se apenas que ao tentar a barra de Aveiro, de pouca água e poucas condições de navegabilidade para vapores de certa lotação, encalhasse no Cabedelo.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Outubro de 1882)

Identificação do navio
Armador: Fisher, Renwick & Co., Ltd., Newcastle
Construtor: Tyne Iron Shipbuilding Co., Newcastle, 09.1879
Arqueação: Tab 580,00 tons - Tal 373,00 tons
Dimensões: Pp 51,66 mts - Boca 8,29 mts - Pontal 3,84 mts
Propulsão: NEME, Sunderland - 1879 - 1:Cp - 2:Ci - 85 Nhp

Naufrágio
Com respeito ao vapor inglês “Kate Forster”, que ante-ontem naufragou a sul da barra de Aveiro, há ainda as seguintes informações:
Procederam desde logo à descarga do carvão que transportava; e se o mar continuar bom, há esperanças de salvar o navio. A fim de o fazer desencalhar e pôr a nado deve sair hoje do Porto, em direcção ao local do sinistro o rebocador “Victória”, levando a bordo o capitão náutico José Cláudio de Mesquita. A tripulação nada sofreu.
O “Kate Forster” vinha consignado aos srs. Carlos Coverley & Cª. e a carga aos srs. D.M. Feuerheerd Júnior & Cª., como anteriormente referido.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 15 de Outubro de 1882)

Naufrágio
Relativamente ao naufrágio do vapor inglês “Kate Forster”, o jornal “Campeão das Beiras” noticiou o seguinte:
O vapor “Kate Forster” não entrou na quarta-feira como se esperava. Apenas ontem se aproximou da barra pela 1 e meia da tarde. Da torre dos sinais perguntaram-lhe a que horas tinha passado em frente do Porto. Responderam de bordo, que tinha sido às 10 horas e meia da manhã. Depois disseram-lhe de cá que a maré era só às 3 horas. Mas o vapor continuou a navegar, passou para o sul, e foi encostar-se à praia, onde se acha e de modo que só por milagre se poderá desenrascar.
Agora os pormenores que parecem ser os mais importantes:
De Aveiro partiu há dias para o Porto o piloto de número Ouvídio Lourenço, a fim de dirigir a manobra das aproximações da barra. Esteve no escritório de Belomonte, tendo ido com um empregado da Companhia das Minas do Braçal para a estação de pilotos da Cantareira. De bordo, porém, não quiseram recebê-lo.
Os pilotos ao avistarem o vapor dirigiram-se nas catraias à praia de S. Jacinto. Levavam uma bandeira e dali fizeram sinal para que o navio se fizesse ao mar. Também de bordo não fizeram caso. As manobras do vapor foram todas por conta do capitão. O resultado foi encalhar o navio na praia do sul do canal.
No local do sinistro achavam-se todo o pessoal da pilotagem, o sr. capitão do porto e o sr. engenheiro director das obras do porto. Esta na praia-mar tem mais 5 palmos de água do que a que exigia o vapor para navegar. Se o prático Ouvídio Lourenço, que o capitão não quis receber nas alturas do Porto, dirigisse a manobra, o “Kate Forster” estaria ancorado em porto, e não havia a registar mais um naufrágio por imperícia da tripulação.
O vapor vinha fretado por 500 libras esterlinas e procedia de Newcastle com carvão de pedra para as Minas do Braçal. Parece que se salvará toda a carga, que se acha segura. Só o casco é que se reputa condenado.
No local do sinistro compareceu logo a alfandega e o vice-cônsul inglês a residir em Aveiro. Não se podem deixar de considerar gravíssimas as acusações que faz o correspondente deste jornal em Aveiro, com respeito à origem do naufrágio.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 17 de Outubro de 1882)

O “Kate Forster”
A respeito do casco deste vapor, naufragado em Aveiro, o jornal “Campeão das Províncias”, refere o seguinte:
O navio conserva-se na mesma posição em que pegou na areia. Procedem já à descarga, mas o processo empregue é moroso, quando era mais fácil baldear tudo na praia. Parece tudo muito primitivo. Mas como o carvão estava no seguro, é por conta dele que corre o negócio.
Quanto ao casco, parece que não há esperança de salvá-lo. O mar não o tem deteriorado por enquanto, mas existe o receio que nas águas vivas não se levante, por estar já bastante assoreado, principalmente ao centro.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 21 de Outubro de 1882)

Arrematação de salvados
Aveiro, 8 – do «Campeão das Províncias»: Realizou-se na última segunda-feira a arrematação dos salvados do “Kate Forster”, naufragado ao S (sul) da barra do porto de Aveiro. Foram arrematados todos os lotes, que ainda eram bastantes, sendo adjudicados a diversos negociantes da cidade, do Porto e de Ílhavo. Ignora-se por enquanto a importância total da arrematação.
A requerimento do respectivo consignatário, foi mandada arrematar no próximo dia 10 do corrente toda a carga salvada do mesmo vapor, e que consta de 250 toneladas de carvão.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 9 de Novembro de 1882)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

História trágico-marítima (LXXXI)


Barca “ Nova Sympathia “ (2)
1897 - 1899
Armador: Vareta, Santos & Comandita, Porto

A barca “Beltana” ancorada em porto Australiano
Foto «State Library - Governo do Estado Sul da Austrália»

Naufrágio
Por telegrama ontem recebido do Pará sabe-se haver naufragado a 17 do corrente, a leste de Salinas, baía na costa norte do Estado do Pará, no Brasil, a barca “Nova Sympathia”, pertencente à praça do Porto, salvando-se a tripulação.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1899)

Identificação do navio
Construtor: Sir James Laing, Sutherland, 04.1869
ex “Beltana”, W. Stevens, Londres, 1869-1876
ex “Beltana”, A.L. Elder & Co., Londres, 1876-1897
Arqueação: Tab 734,00 tons
Dimensões: Pp 52,58 mts - Boca 10,24 mts - Pontal 5,85 mts
Propulsão: À vela
Capitão embarcado: José de Oliveira da Velha

A barca “Nova Sympathia”
Este navio, que naufragou na costa norte do Estado do Pará (supostamente na Ilha de Caité, próximo da cidade portuária de Bragança), pertencia aos srs. Vareta, Santos & Comandita, da praça do Porto, era construída de ferro e teca, com a 1ª classe do Lloyds Inglês, tinha a capacidade de 1.000 toneladas, e seguia de Cardiff com um carregamento de carvão para o Pará.
Era um dos melhores navios da marinha mercante nacional, o que representa uma perda importante para a depauperada navegação portuguesa.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 23 de Novembro de 1899)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

História trágico-marítima (LXXX)


Barca “ Oliveira “
10.1894 - 08.11.1899
Armador: José Domingues de Oliveira, Porto

Gravura com a barca "Oliveira" no cais da Ribeira
Desenho de autor desconhecido

O naufrágio
Ontem, por volta das 5 horas da tarde, na ocasião em que saía a barra a barca “Oliveira”, pertencente aos srs. José Domingues de Oliveira & Cª., da praça do Porto, ficou à mercê das vagas, em virtude de ter rebentado o cabo de reboque, indo depois encalhar no Cabedelo.
Dado o sinal de navio em perigo, compareceu com grande presteza o pessoal e o material do salva-vidas, estabelecendo em seguida um cabo de vai-vem, pelo qual veio para terra toda a tripulação, que se compunha do capitão sr. João Francisco dos Santos, do piloto sr. José António Cachim, do contra-mestre sr. Francisco Fernandes Bio e de 10 marinheiros.
Não há a lamentar nenhuma desgraça pessoal; apenas o marinheiro José Francisco dos Santos se feriu levemente numa perna, sendo conduzido para a Estação de Socorros a Náufragos, onde ficou.
A barca, que levava carregamento de vinho e outras mercadorias, dirigia-se para Leixões, a fim dali ser desinfectada, devendo seguir depois para Lisboa.
Os pilotos da barra trabalharam corajosamente a fim de arrancar a uma morte certa a tripulação da “Oliveira”. Também prestaram bons serviços os srs. Terra Viana, tenente Pedreira, da Guarda Fiscal; Fernando de Almeida, Mateus de Sousa Fino e grande número de pescadores da Afurada. Compareceram no Passeio Alegre o chefe do departamento marítimo do norte, sr. Pereira Viana e o adjunto sr. Carlos Braga.
Os tripulantes do navio estiveram durante a noite trabalhando no salvamento das suas bagagens.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 9 de Novembro de 1899)

Identificação do navio
Nº Oficial: N/tem - Iic.: H.C.S.T. - Porto de registo: Porto
Construtor: -?-, Bideford, (Prince Edward Island), 07.1881
ex “Parthenia”, William Richards, Charlottetown, 1881-1894
Arqueação: Tab 822,15 tons - Tal 749.00 tons - 2.326,710 m3
Dimensões: Pp 54,71 mts - Boca 10,58 mts – Pontal 6,07 mts
Propulsão: À vela
Capitães embarcados neste navio: David Jenkins (1882/83); Holman (1883/84); David Jenkins (1884 a 1886/87); Tennant (1887/88); Holman (1888 a 1889/1890); Davies (1890 a 1894); João Francisco dos Santos (1894 a 1899)

Anúncio que antecede a viagem para o Brasil

A barca “Oliveira”
Durante a noite de ante-ontem para ontem o mar desfez completamente o casco da barca “Oliveira”, que encalhou ante-ontem no Cabedelo quando saía a barra. Os destroços do navio, bem como muitos barris de vinho, que faziam parte do carregamento, têm sido arrojados à praia.
O sr. Conselheiro Malheiro Dias, director da alfândega do Porto, esteve ontem no Cabedelo dando providências sobre a arrecadação dos salvados. O carregamento da “Oliveira” era importantíssimo, pois além de 1.500 pipas de vinho em barris, constava de outras mercadorias, tudo no valor de cerca de 150:000$000 réis.
A perda da barca “Oliveira” não é lamentável só pelos prejuízos imediatos que causa. É também lamentável pelos transtornos que ocasiona ao comércio da praça do Porto, o qual se aproveitara daquele navio para fazer conduzir mercadorias que haviam de levar ao Brasil o primeiro abastecimento de géneros portugueses, depois da crise angustiosa que a praça do Porto tem atravessado.
Quanto mais demora houver na recepção de géneros portugueses no Brasil, mais tempo ficarão abertos os mercados brasileiros aos produtos de outros países, que nos fazem vivíssima concorrência.
É, pois, muito lamentável que se inutilizasse essa prometedora tentativa do comércio portuense, no intuito de restabelecer as exportações para o Brasil.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 10 de Novembro de 1899)

O naufrágio da barca “Oliveira”
Terminou ontem a arrematação dos salvados da barca “Oliveira”, ultimamente naufragada no Cabedelo, como é sabido. O produto total da arrematação foi de 7:500$000 réis.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 24 de Novembro de 1899)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

História trágico-marítima (LXXIX)


O abalroamento do vapor "Foscolia"
e o naufrágio do iate "Joven Maria"

Abalroamento e naufrágio
Quando ontem, cerca das 5 horas e meia da tarde, estava para fundear em frente da Ribeira o vapor inglês “Fozcalino” (deve ler-se “Foscolia”), procedente de Girgenti (Agrigento, Sicília, Itália), com carregamento de enxofre, abalroou com o iate “Joven Maria”, mestre Vilão, que no Domingo entrara no rio Douro, procedente de Lisboa, com carregamento de sal, e que se achava ancorado em frente da lingueta chamada da Lenha, junto das escadas da Rainha.
A causa deste sinistro foi não haver sido o vapor detido a tempo de estacionar no ponto que lhe estava destinado, caindo por isso sobre a embarcação ancorada na sua frente.
O vapor foi de encontro à popa da “Joven Maria”, lançando-lhe fora a borda falsa, principiando desde logo a meter água. Trataram imediatamente de procurar puxar o iate para terra por meio de cabos e correntes, aparecendo para isso os srs. José Pereira Santo Amaro, Joaquim Soares Marmelada, capitão António Machado e Joaquim Francisco Paredes, acompanhados de alguns agentes.
Nos diferentes pontos do navio foram ligados cabos e correntes e em seguida presos a terra por meio de ancoretas; porém o iate fazia tal esforço para se inclinar para o lado do rio, que em breve parte desses cabos se romperam e muitos se soltaram em virtude de ser muito movediço o terreno em que estavam firmes as ancoretas.
Solta assim a embarcação, inclinou-se cada vez mais rapidamente, afundando-se inteiramente dentro em pouco, arrastando consigo muitas das pessoas que tratavam do salvamento de parte da carga e pondo em risco, segundo informação recolhida no local, as vidas dos srs. Capitão Machado, Joaquim Paredes e Manuel dos Santos Vitorino, que a nado conseguiram por fim vencer o redemoinho produzido nas águas pelo impulso do navio que se afundava. Felizmente, todas as pessoas que foram à água conseguiram salvar-se; e do “Joven Maria” ficou apenas a descoberto uma parte dos mastros.
O iate pertencia ao sr. Francisco da Rocha Coutinho Ferra e não estava seguro. Julga-se difícil o salvamento do casco e o cálculo dos prejuízos apontam em cerca de 3 contos de réis. Com o impulso do choque foi também ao fundo uma barca carregada de enxofre, pertencente ao sr. Joaquim Guedes.
O vapor “Fozcalino” (deve ler-se “Foscolia”) veio consignado ao sr. José Teixeira da Costa Basto e o carregamento de enxofre pertence aos srs. Fonseca & Araújo. Este navio não sofreu qualquer avaria.
Na ocasião em que se deu o sinistro, caíram à água duas mulheres, uma das quais foi prontamente resgatada para uma barca, mas a outra chamada Maria Teresa, afastou-se mais. Nessa ocasião, conforme referido por um dos salvadores, saltaram imediatamente para a água, vestidos como estavam, o intrépido Simão da Costa Neves e José Romar Carneiro, que briosamente salvaram a infeliz, depositando-a na barca.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 28 de Fevereiro 1883)

Identificação do iate “Joven Maria”
1877-1883
Armador: Francisco da Rocha Coutinho Ferra, Caminha
Nº Oficial: n/t - Iic.: H.C.T.M. - Porto de registo: Caminha
Construtor: Desconhecido, eventualmente em Caminha
Arqueação: 105,777 m3
Dimensões: Desconhecidas
Propulsão: À vela
Mestre embarcado: Vilão (1883)

O abalroamento no rio Douro
O comandante do vapor inglês “Fozcalino” (deve ler-se “Foscolia”), o qual meteu ontem no fundo, por meio de abalroamento, o iate “Joven Maria” e uma barcaça carregada de enxofre, declarou que pagaria os prejuízos causados pelo navio do seu comando, e que fossem especificados pelos árbitros. Há esperanças de tirar o iate do fundo do rio.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 1 de Março de 1883)

Identificação do vapor “Foscolia”
06.1879 - 29.05.1898
(naufragou após colisão ao largo da Ilha do Fogo)
Armador: E.H. Watts & Ward & Co., Londres
Construtor: Mitchell & Co., Low Walker, Junho de 1879
Arqueação: Tab 1.573,00 tons - Tal 1.025,00 tons
Dimensões: Pp 76,81 mts - Boca 10,36 mts - Pontal 6,92 mts
Propulsão: 1 motor Cp provavelmente do construtor
Capitães embarcados: Meerdram (1882)

Abalroamento do “Foscalino” (deve ler-se “Foscolia”)
Reuniram ontem, em casa do sr. José Teixeira da Costa Basto, consignatário do vapor inglês “Foscalino” (deve ler-se “Foscolia”), o dono do iate “Joven Maria” e o recebedor do carregamento de sal do mesmo iate, que foi há dias abalroado por aquele vapor, em frente da Ribeira.
Esta reunião teve em vista os interessados estipularem qual a importância dos prejuízos no iate e no carregamento, causados pelo abalroamento do vapor. Segundo consta, foi acordado em satisfazer uma indemnização razoável pelo carregamento do sal, assim como por uma barca de enxofre que também foi metida no fundo; mas quanto à indemnização pelo casco não chegaram a acordo por ter sido considerada exorbitante a reclamação feita pelo dono do iate.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 3 de Março de 1883)

O abalroamento do “Foscolia”
O dono do iate “Joven Maria”, afundado no Douro, propôs ontem ao consignatário do vapor inglês “Foscolia”, o sr. José Teixeira da Costa Basto, a seguinte regulação de avarias:
Receber 3:000$000 réis, deixando o casco à disposição do dono do vapor; receber 2:500$000 réis e o casco; -ou, finalmente, ser o iate posto a nado e em estado de navegar, por conta do proprietário do vapor, recebendo além disso ele, dono do iate, uma indemnização pelos prejuízos ocasionados em consequência do navio não poder navegar.
A propósito temos a dizer que ainda não foi tomada resolução alguma definitiva acerca da regulação das avarias tanto do casco como do carregamento, visto a primeira conferência dos interessados não haver dado o menor resultado.
(In jornal “O Comércio do Porto”, Domingo, 4 de Março de 1883)

O abalroamento do “Foscolia”
Ficou ontem resolvido amigavelmente o modo como vão ser indemnizados os proprietários do casco e carregamento do iate “Joven Maria”, que foi há dias metido no fundo do rio Douro, por efeito de abalroamento do vapor inglês “Foscolia”. Assim o proprietário do iate, o sr. Francisco da Rocha Coutinho Ferra receberá a quantia de 1:800$000 réis e o casco do navio; e o proprietário do sal será indemnizado em conformidade com o preço que este género obtém presentemente no mercado.
O intermediário em tais negociações foi o comerciante da praça do Porto, o sr. José António Ribeiro da Silva.
(In jornal “O Comércio do Porto”, quarta, 7 de Fevereiro de 1883)

Iate “Joven Maria”
Este navio que se afundou no rio, próximo às escadas da Rainha, em virtude do abalroamento do vapor inglês “Foscolia”, já se acha a descoberto no baixo da Porta Nobre.
O processo seguido para o erguer do fundo do rio foi simples. Na vazante colocaram algumas barcaças em volta do iate, às quais estavam seguras correntes de ferro previamente lançadas por um mergulhador sob a quilha do navio. À medida que as barcaças subiam com a enchente do rio, o iate ia levantando do fundo.
Conseguido este pequeno resultado, o iate foi rebocado até próximo do muro dos Banhos e mais tarde levado para a Porta Nobre, onde se acha. Depois de reparado ali provisoriamente, o iate será conduzido para o estaleiro de Vila Nova de Gaia, para ser convenientemente reparado.
(In jornal “O Comércio do Porto”, Domingo,11 de Março de 1883)