quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O " Santa Maria Manuela "


A 1ª escala no porto de Leixões

Nesta última terça-feira, o navio procedente de Vlissingen, na Holanda, onde participou no festival náutico local, com o sucesso habitual, registando um número muito superior a 3 mil visitas a bordo, com passagem por Brest, em 5 dias de viagem, o lugre “Santa Maria Manuela” fez escala em Leixões pela primeira vez, nesta nova fase da sua existência.
Visita breve por cerca de 3 horas, para na oportunidade receber 36 passageiros, que usufruindo das excelentes condições de bom tempo e mar bonançoso, partirem à descoberta da linha de costa nortenha, seguindo com destino a Aveiro.

O navio em porto, durante a estadia em Leixões

Aparte o aparato da partida, com a presença de pelo menos um agente do SEF (para quê?) e a sempre notada representante da Alfândega (porquê?), a viagem terá decorrido dentro da habitual normalidade, cumprindo o tempo previsto, de forma a assegurar a entrada em Aveiro na mesma maré, com água de enchente, o que sempre facilita o acesso e as manobras no porto.
Foi muito agradável ver o lugre em Leixões, cada vez mais a funcionar como embaixada itinerante do país, aqui e no estrangeiro, a lembrar a nossa herança marinheira. Nesta ocasião há que reconhecer, que para uma primeira vez soube a pouco. Porém, fica sempre a esperança que qualquer dia voltará!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Notícias do paquete “ Funchal “


O regresso ao mar

Já de saída do porto de Gotemburgo, com destino à Escócia, a concretizar o primeiro cruzeiro, após prolongada modernização e terminadas as necessárias reparações. Julgo ser para todos quantos gostam de navios e, mais ainda, em relação àqueles que adoptamos como nossos, ser motivo de forte regozijo saber que os últimos problemas detectados a bordo estão solucionados, encontrando-se o paquete a viajar em perfeitas condições de segurança e navegabilidade.
Por esse motivo aprovo, apoio e felicito Rui Alegre, nas considerações feitas quando soube que o navio ia ter autorização de saída do porto sueco, com as obras feitas e os certificados emitidos por gente supostamente competente, avalizando a já antecipada garantia de sucesso do navio nos próximos anos.

Imagem do "Funchal" na primeira escala no porto da Horta
Foto Jovial, Horta, Açores

Até parece que está tudo bem, quando acaba bem…!
Só que na nossa opinião não está! Alguém no país falhou no resultado das inspecções feitas a bordo, sujeitando o armador e o navio a uma paragem desnecessária e inconveniente, mais despesa, perda de passageiros e mais grave ainda, transmitindo uma péssima imagem do país para o exterior, que não é factual, mas que abre caminho à perda de credibilidade.
Compreendemos Rui Alegre evitando melindrar quem negligenciou as suas funções. Percebemos que o navio terá de repetir inspecções anualmente e o bom senso advoga prudência nos futuros contactos com os certificadores de classe. No interesse da Portuscale e do país é fundamental que nos próximos anos haja exigência e rigor, prevenir antes de remediar.
É bom sentir orgulho em ter o “Funchal” de volta!

Mais notícias sobre as avarias no paquete

Depois de publicado este texto no blog, recebi novas informações, que me obrigam a corrigir detalhes da notícia, por estarem manifestamente incorrectas. Pela necessidade de repor a verdade dos factos, deve ser mencionada a "não existência" de qualquer tipo de negligência por parte dos classificadores, perfeitamente cientes dos problemas que o navio apresentava.
Nesta conformidade, a realidade aponta no sentido de ao evitar novo adiamento à data de saída do navio para o cruzeiro inicial, os classificadores decidiram-se pela emissão de certificados provisórios, por escassos dias, obrigando à realização das reparações no primeiro porto de escala, que como se sabe foram efectuadas com sucesso na Suécia.
A situação configura-se natural, dentro dos padrões normais ao abrigo da legislação internacional, pelo que não se entenderia de forma alguma culpabilizar o armador ou os peritos em causa, cuja actuação proficiente deve em sentido contrário ser elogiada.

domingo, 1 de setembro de 2013

História trágico marítima (LXXIV)


O naufrágio do vapor “Portugal”

Navio mandado construir em Inglaterra, com a finalidade de estabelecer um tráfego regular desde o continente até Moçâmedes, com escalas previstas em diversos portos das ex-colónias. Navegou desde 1881 até 1897, sempre sob a bandeira da Empresa Nacional de Navegação, perdendo-se por encalhe na ilha do Sal, em Cabo Verde, a 5 de Fevereiro de 1897.

O paquete "Portugal" da Empresa Nacional de Navegação
para a África Portuguesa (Desenho do natural por João Dantas)

O paquete “Portugal”
da Empresa Nacional de Navegação para a África Portuguesa
É de há muito reclamada e reconhecida a necessidade de uma navegação regular entre o continente de Portugal e as suas possessões de África, com novos barcos a vapor que satisfação as exigências do serviço, por estarem velhos e em más condições de navegabilidade regular os que existem. A Empresa Nacional de Navegação para a África Portuguesa tratou de adquirir novos navios dos quais um é o paquete “Portugal” e o outro é o “Angola”. O paquete “Portugal” que já entrou no serviço, saindo do porto de Lisboa com destino à África Ocidental Portuguesa, em 5 do corrente, é um navio que tem todas as condições precisas para uma navegação regular, oferecendo as comodidades possíveis aos seus passageiros. Este barco construído pela Earl’s Shipbuilding Co., mede 295 pés de comprimento, 35 de largo, 25 de altura e 1.966 de tonelagem. Tem 6 compartimentos e alojamentos separados, incluindo os da 3ª classe para mulheres e doentes, quartos de banho, botica, camarote independente para o facultativo, depósito de bagagens, salão de fumo, etc. Cada classe tem a sua câmara e a da 1ª classe mede 65 pés de comprimento. Pode dar passagem a 60 passageiros de 1ª classe, 32 de 2ª e 120 de 3ª, para o possui os alojamentos necessários, com todas as comodidades de conforto e higiene. Os aposentos de 1ª classe são especialmente os mais luxuosos no gosto com que estão adornados. Este navio arma em brigue e o seu governo pode ser feito, tanto mecanicamente como à mão. Tem 6 escaleres sendo 4 salva-vidas. O seu andamento é muito satisfatório pois que, nas primeiras experiências deitou 12 milhas, e na sua viagem de Cardiff para Lisboa gastou 80 horas, com vento rijo pela proa. O paquete “Angola” ainda não está em Lisboa, sendo esperado em fins de Novembro, destinando-se à mesma navegação.
(In revista “Ocidente”, Nº102, de 21 de Outubro de 1881)

O navio
Nº oficial: n/t - Iic.: H.G.R.F. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Earl’s Shipbuilding & Engineering Co., Ltd.,
                    Hull, Inglaterra, Setembro de 1881
Arqueação: Tab 1.966,0 tons - Tal 1.803,0 tons - 1.635,78 m3
Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 10,70 mts - Pontal 7,80 mts
Propulsão: Earl’s, 1881 - 1:Cp - 1.250 Ihp - 10 m/h
Equipagem: ? tripulantes e capacidade para 212 passageiros

O paquete "Portugal" - Desenho de Luís Filipe Silva

O sinistro
Correu ter sofrido avaria o vapor “Portugal” da carreira de África. O governador de Cabo Verde mandou sair uma canhoneira à procura do vapor, sabendo que a demora da chegada a S. Vicente fora devido a pequena avaria no hélice, fácil de reparar.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 11 de Fevereiro de 1897)

Naufrágio do vapor “Portugal”
Lisboa, 12 de Fevereiro – O sr. Ministro da Marinha recebeu um telegrama do governador de Cabo Verde, participando que o vapor “Portugal” foi encontrado encalhado, perdido, na ilha do Sal, tendo também perdido parte do carregamento. Foram, porém, salvos os passageiros e os tripulantes.
O “Portugal” era esperado em Lisboa entre 18 e 19 do corrente. A Canhoneira “Rio Ave”, que saíra à sua procura, foi que encontrou o vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 13 de Fevereiro de 1897)

O naufrágio do vapor “Portugal”
Lisboa, 13 de Fevereiro – A respeito do vapor “Portugal” a Empresa Nacional de Navegação recebeu este telegrama: «O vapor “Portugal” encalhado na ilha do Sal. Dois rombos no fundo. Impossível safar. Não há vitimas. Parte da carga salva. A tripulação veio para terra; não há recursos; pedem-se ordens.»
A empresa respondeu: «O “Bissau” fazendo correio levará passageiros e tripulantes disponíveis para levar o “Portugal” para a Praia. Telegrafe se há possibilidades de safar o vapor, indo o material adequado. Consulte o agente do Lloyd’s.»
Esta manhã veio o seguinte telegrama: «Peritos dizem ser impossível safar o vapor».
A Empresa Nacional de Navegação deve perder 10.000 libras com o sinistro do “Portugal”. O vapor era um navio que tinha já 14 anos, servindo efectivamente.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 14 de Fevereiro 1897)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A notícia do dia


O paquete “Funchal” retido na Suécia

O paquete "Funchal" nas recentes provas de mar
Foto de Luís Miguel Correia

Na inspecção de rotina levada a cabo na última terça-feira, por peritos suecos no porto de Gotemburgo, foram detectadas diversas deficiências de segurança no navio, humanas e técnicas, que levaram as autoridades locais a reter o navio em porto, até que sejam efectuadas as necessárias reparações.
Se por um lado esta ocorrência inesperada prejudica os planos iniciais do armador Portuscale Cruises, face à alteração compulsiva do programa de cruzeiros do navio previamente planeados, com um agravar de despesas motivadas pelos trabalhos a efectuar, pela paragem obrigatória e pela desistência de passageiros neste cruzeiro inicial, será simultaneamente oportuno questionar as autoridades nacionais, que seguramente terão certificado o navio como apto a navegar, quando na realidade não está!
A situação agora vivida, que entendemos ultrapasse a responsabilidade do armador, muito embora o negócio vise a obtenção de lucros, convirá ouvir todos quantos viabilizaram as condições de navegabilidade do paquete, sabendo-se quão rigorosos são os nórdicos nestes e noutros aspectos, depois dos diversos acidentes ocorridos com ferries no Mar do Norte, motivados por actos de negligência e incompetência, tanto dos peritos como das tripulações.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Leixões 2013


As mais significativas escalas de navios em porto

Navios escola

O N.T.M. "Creoula"

O "Dar Mlodziezy" da Marinha Mercante Polaca

Navios de passageiros

A galera holandesa "Stadt Amsterdam"

Navios de cruzeiros

O "Club Med 2", em manhã de nevoeiro

O "Europa 2"

O recém construído "Le Soleal"

O "Oceana"

O antigo-novo "Quest for Adventure"

A primeira escala do "Ryndam"

O luxuoso "Sea Cloud II"

O clássico "Serenissima"

E para terminar o "Wind Surf"

Os maiores cruzeiros do ano até à data

O majestoso "Oceana"

E a novidade holandesa chamada "Ryndam"

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Os 52 anos do paquete “ Funchal “


A jóia da Coroa

Imagem do renovado paquete "Funchal"

Na semana em que está previsto que o paquete “Funchal” regresse ao mar, na perspectiva de ser mantido a navegar com a bandeira portuguesa, no mercado de cruzeiros nacional e internacional, regozijamo-nos pela motivação e sucesso da mais recente e obstinada aposta empresarial da Portuscale Cruises.


Confesso a minha decepção por não ter sido incluída a imagem do navio na minha primeira colecção de cromos, i.e. “Navios e Navegadores”, publicada em 1962 pela Agencia Portuguesa de Revistas, ao lado do “Infante D. Henrique” e do “Vera Cruz”, da Companhia Colonial, do “Príncipe Perfeito” e do “Índia”, da Companhia Nacional, ou do “Rita Maria” da Sociedade Geral. Mas ao lado da bandeira da Empresa Insulana, indicativa da companhia insular, lá estava a chaminé fumegante do “Funchal”, quiçá prenúncio de mais uma viagem de ligação à Madeira e às ilhas dos Açores.

Postais do navio da minha coleção

Vimo-lo a navegar de casco pintado em preto e em branco, praticamente desde as primeiras escalas que fez em Leixões, ainda com as cores da Empresa Insulana de Navegação, como navio de linha, servindo a intenção de diminuir a distância e as necessidades existentes entre continentais e insulares. Desde esses dias de há 50 anos atrás, gozava da particularidade única de não nos ser indiferente, porque era pequeno, singelo e esbelto de linhas e contornos.

Postais do navio da minha coleção

Características do navio em 1963
Nº Oficial: H-479 - Iic.: C.S.B.M. - Porto de registo: Lisboa
Cttor.: Helsingor Skibsvaerft og Maskinbyggeri A/B, Helsingor,
                Dinamarca, Outubro de 1961
Arq.: Tab 9.823,97 tons - Tal 5.971,97 tons - Pm 2.975 tons
Dim.: Ff 152,79 mt - Pp 144,03 mt - Bc 19,08 mt - Ptl 7,91 mt
Prop.: Parsons Co., 1961 - 2:Tv - 2x6.900 Bhp - 18 m/h
Equipagem: Um total de 400 entre tripulantes e passageiros

Percorrendo as listas de navios nacionais e do Lloyds, constata-se que o navio em 1977, já se encontrava matriculado em nome da CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos, E.P., com algumas alterações em relação aos detalhes de origem, como segue:
Características do navio em 1977
Nº Oficial: I-454 - Iic.: C.S.B.M. - Porto de registo: Lisboa
Arq.: Tab 9.846,90 tons - Tal 6.892,60 tons - Pm 2.975 tons
Dim.: Ff 152,79 mt - Pp 144,03 mt - Bc 19,08 mt - Ptl 7,91 mt
Prop.: Stork Werkspoor - 2:Di - 9:Ci - 2x5.000 Bhp - 18 m/h
Equipagem: Um total de 400 entre tripulantes e passageiros

Postais do navio da minha coleção

Por volta de 1986, ou mesmo antes, depois de um longo período de profunda indefinição, que quase colocou o navio cortado a maçarico, num qualquer sucateiro próximo ou distante, foi encontrado um comprador que diligentemente decidiu manter o navio com base em Lisboa, muito embora tivesse sido transferido a propriedade para o Panamá, a coberto da empresa Great Warwick Inc., mas sem qualquer alteração nas principais características. Desde então o navio foi operado regularmente pela empresa Arcalia Shipping Co. Ltd., também sediada na República do Panamá.

Foto recente do "Funchal" de Luis Miguel Correia
Indiscutivelmente uma das melhores imagens de sempre

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Viana do Castelo - evocação à pesca do bacalhau


Viana, fiel amiga do Mar
Memórias da Empresa de Pesca de Viana
Exposição


Em perfeita harmonia subjacente ao pretexto da romaria em honra da Senhora da Agonia, e perfeitamente enquadrado nas comemorações da passagem do centenário da criação da Parceria de Pescarias de Viana, ocorrido a 16 de Agosto de 1913, foi inaugurada na última sexta-feira, no Museu Municipal de Artes Decorativas, uma mostra de fotos e modelos de navios de pesca matriculados na Capitania da cidade e construídos no estaleiro local, bem como diversas peças utilizadas nessa actividade nos tempos remotos, a que juntaram equipamentos mais modernos.
Uma parede decorada com bacalhaus e um memorial, onde está registado um número muito considerável de nomes de pescadores, que participaram na “Faina Maior”, podem igualmente ser apreciados pelo público até ao próximo dia 27 de Outubro.


Retira-se da sinopse alusiva à exposição, a amostragem de «peças de navios, instrumentos de marinhagem, artefactos dos pescadores, um dóri, redes, maquetas, telas e louça, recompondo a memória da pesca do bacalhau e recuperando a história da Empresa de Pesca de Viana. No âmago da exposição, um memorial nomeia centenas de homens que viajaram até ao mar gelado da Terra Nova e da Gronelândia.
Nenhuma narrativa sobre Viana do Castelo pode sonegar a importância que a pesca do “fiel amigo” teve na vida social e económica desse território. Navegadores vianenses pescaram bacalhau no noroeste do Atlântico entre os séculos XV e XVI» – arrisco-me a antecipar um a dois séculos nesta história, identificados pela designação de mercadores marítimos, que no seu conjunto formaram as comunidades de marinha das cidades e vilas marítimas de Portugal, situadas ao longo do litoral entre Viana e Aveiro -, «havendo notícia da fundação de colónias nessas paragens remotas e, até essa data, ignoradas.
Dois séculos mais tarde os lugres tornam a zarpar regularmente da costa portuguesa tomando a direcção da Terra Nova e da Groenlândia. Muitos homens desta região participaram nessas jornadas ou viram sair no porto de Viana de Castelo os navios, cujas proas fendiam o mar, tantas vezes gelado. O regresso era tempo de partilhar ganhos e perdas, sucessos e insucessos.»


Procedeu à inauguração da exposição, a apresentação do livro “Viana e a Pesca do Bacalhau”, trabalho da responsabilidade de Manuel de Oliveira Martins, personalidade sobejamente conhecida no meio marítimo vianense e por motivos óbvios, pelos estudos desenvolvidos e pela dedicação à história da pesca do bacalhau, ao longo dos anos, depois de nela ter igualmente participado em diversas campanhas.

O autor, durante a sessão de autógrafos