segunda-feira, 8 de julho de 2013

História trágico marítima (LXXIII)


O naufrágio da escuna “Adolphine” em Sesimbra

Marinheiros, armadores e seguradores protestam; brigadas de voluntários perseguem estes estranhos piratas-salvadores, expressão que reflecte bem a inquietante ambiguidade do mundo marítimo. Há, evidentemente, as leis, os regulamentos, as convenções, mas há também os costumes obscuros e a inextirpável crença: tudo o que flutua, abandonado pelo homem, é pertença de todos. Contrariamente ao dinheiro, o destroço tem um cheiro. Odor dos dons surgidos do mar, odor desses bens cuja própria gratuitidade parece misteriosa, odor tão poderoso e penetrante que atrai tanto os habitantes da beira-mar como as gentes do interior. (1)
(1) de La Croix, Robert, História Secreta dos Oceanos, Bertrand, Amadora, 1979, (pp.200-201)

Já fiz referência no blog a outros naufrágios ocorridos nas proximidades de Sesimbra. Num dos casos, se a memória não me atraiçoa, relatei a heroicidade de pescadores locais, que em absoluto desprezo pela vida, salvaram a tripulação completa de um navio naufragado pela violência do mar. Numa outra situação relacionada com a fragata “Numancia”, também ali naufragada, foi mencionada a canibalização do navio ou seja, a vandalização em grau extremo por pessoas (eventualmente também pescadores), que fazendo uso de pequenas embarcações, tiveram acesso ao casco abandonado.
A pilhagem não é um exclusivo nacional e sabemo-lo ser combatida pelas autoridades, que em épocas remotas gerava confrontos de considerável violência, também já relatados no blog. A fome e a miséria das gentes do litoral era inicialmente sobreposta aos interesses do clero e mais tarde da fazenda nacional, que era quem mais beneficiava com os encalhes e os naufrágios dos navios, principalmente dos estrangeiros.
O naufrágio da escuna “Adolphine” não foi diferente de muitos outros, a que fizemos referência. É apenas mais um capítulo da nossa história trágico marítima.

Naufrágio e pirataria
Na noite de 14 para 15 do corrente, pelas 2 horas, deu à costa na praia de Sesimbra a escuna dinamarquesa “Adolphine”, capitão Hansen, procedente de Barcelona para aquele porto. Salvou-se toda a tripulação, que deitando-se ao mar foi levada para terra pelas ondas. Um dos marinheiros, porém, querendo depois ir a bordo para salvar algumas coisas, foi vítima da sua temeridade, porque sendo sacudido do navio por um forte balanço o mar o envolveu, e nunca mais apareceu.
Diz uma carta de Sesimbra que a pirataria se desenvolveu ali no seu auge. O navio foi invadido por centenas de habitantes de Sesimbra, que tudo roubaram; arrombando as caixas dos marinheiros na presença dos mesmos, e tirando delas o facto que melhor encontravam, sendo estes ameaçados com navalhas por tentarem opor-se a serem roubados.
Diz a mesma carta que na camara do capitão também nada escapou, ficando este apenas com uns calções e camisa que trazia no corpo quando veio para terra, porque o mais tudo lhe foi roubado pelos vândalos sesimbrões. Não escapou também o aparelho e as velas do navio, porque tudo desapareceu, levando cada um o que podia apanhar naquela ocasião de pilhagem. Que vergonha!
Felizmente a autoridade administrativa, que não pode obstar a que se praticassem estes roubos, conseguiu depois fazer entregar a maior parte dos objectos roubados, tanto aos marinheiros como ao capitão.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 23 de Novembro de 1858)

sábado, 6 de julho de 2013

Subsídios para a história da pesca do bacalhau


O 2º aniversário do navio hospital “Gil Eannes”


Dezenas de navios portugueses da pesca do bacalhau
saudarão o navio “Gil Eannes”, na sua chegada à Terra Nova

São João da Terra Nova, 26 – Doze navios de pesca portugueses chegaram a este porto na noite passada, a vanguarda de 40 esperados hoje para saudar o seu novo navio de apoio e celebrar o seu segundo aniversário.
O navio-apoio da frota de pesca dos portugueses nos bancos da Terra Nova, o “Gil Eannes”, chega de Lisboa, na sua primeira viagem com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e oito imagens mais pequenas como oferta à Catedral Católica de São João, que comemora no próximo mês o seu centenário.
Os dois aniversários que os portugueses estão a comemorar são o 500º da descoberta dos bancos da Terra Nova por marinheiros portugueses e o 400º do início da pesca portuguesa nesta região.
Os pescadores portugueses são familiares para os Terra-novenses, visto virem aqui muitas vezes abastecer os seus navios. Porém, São João nunca viu tantos ao mesmo tempo, sendo esperados hoje cerca de 4.000.
São passageiros do “Gil Eannes” o capitão Alan Villiers, escritor australiano e, em tempos, capitão de navios de vela, e o comandante Henrique dos Santos, que representa o Governo português e os interesses da pesca. Serão ambos homenageados pelas autoridades de São João.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 27 de Maio de 1955)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Subsídios para a história da pesca do bacalhau


Pesca do bacalhau

O alvará de 14 de Outubro de 1506 demonstra, duma maneira evidente, que os portugueses foram os primeiros a fazer a pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova, na América, pois que já para ali iam nesta época.
Só do porto de Aveiro se destinavam àquelas paragens 60 navios por ano. De Viana e de outros portos, outros tantos. Além disto os nomes dos portos na Terra Nova, que são quase todos portugueses, e que ainda os conservam, são um documento que vem em apoio desta verdade.
Em 1578 os portugueses ocuparam ali 50 navios, e os ingleses 30. Uma grande parte do bacalhau que os portugueses iam pescar então na Terra Nova, era vendida para Inglaterra. Hoje é a Inglaterra que no-lo vende. Só a importação deste género pela barra do Porto pode calcular-se anualmente em mais de 100.000 quintais.
No ano económico de 1857-1858 o bacalhau despachado na alfândega do Porto, foi de 105.678 quintais, no valor de 529:243$910 réis, pagando 180:243$910 réis de direitos. No ano económico anterior a importação pela alfândega do Porto ainda foi maior, porque se elevou à cifra de 118.797 quintais, tendo pago 203:762$240 réis de direitos.
(In “Comércio do Porto”, quarta, 17 de Novembro de 1858)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Resumo histórico do vapor "Cassequel"


O afundamento
2ª Parte

Foto do vapor "Cassequel" supostamente em Lisboa
Imagem da colecção de Francisco Cabral

O afundamento do “Cassequel”
Funchal, 20 – O segundo piloto do “Cassequel”, sr. José Dias Furtado, esteve esta manhã no Consulado Britânico, onde manifestou ao representante da Grã-Bretanha na ilha da Madeira, a gratidão dos 31 náufragos das duas baleeiras do “Cassequel”, que foram recolhidos pelo vapor português “Maria Amélia”, graças aos grandes esforços empregados pela tripulação de um avião inglês, que localizou as referidas baleeiras.
Os náufragos, interrogados pelo correspondente da United Press, foram unanimes em louvar a admirável coragem e serenidade do capitão do “Cassequel”, sr. Sebastião Augusto da Silva, que com a sua autoridade e saber proficiente consegui restabelecer imediatamente a serenidade a bordo e distribuir eficiente e rapidamente todos os tripulantes e passageiros pelas baleeiras de bordo, sem que se tivesse registado o menor desastre. Se não fosse a rápida e decidida acção do comandante do “Cassequel”, teria lavrado o pânico a bordo e a estas horas teríamos a lamentar perdas pessoais. Para se avaliar como foi a eficaz acção do capitão sr. Sebastião da Silva, basta dizer-se que o “Cassequel” se afundou dez minutos depois de ter sido torpedeado, após ter sido servido o jantar.

Amanhã, comparece na Polícia Marítima o sr. capitão Sebastião da Silva, comandante do vapor “Cassequel” para prestar declarações. Ontem, esteve naquela polícia o estudante Adérito Santos Tavares, um dos náufragos, que seguia para o Lobito ao encontro de seus pais, que não vê há seis anos, e que perdeu tudo o que levava.
Na Polícia Marítima, por ordem do seu comandante, 1º tenente sr. Sales Henriques, deram-lhe do cofre de assistência daquela polícia, dinheiro para as suas maiores necessidades, tendo já comprado vestuário. Aquele náufrago partiu ontem para Távora, sua terra natal, aguardando ali outro navio da C.C.N. para seguir para Angola.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 21.12.1941)

O torpedeamento do “Cassequel”
Os náufragos do vapor “Cassequel”, que foram recolhidos por um navio estrangeiro, que aportou a Gibraltar, onde os deixou, seguiram, ontem, para Espanha, devendo chegar, hoje, a Lisboa, de caminheta ou de comboio.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 23 de Dezembro de 1941)

O afundamento do “Cassequel”
Chegaram ontem a Lisboa 31 náufragos
No paquete “Lima”, da Empresa Insulana de Navegação chegaram, ontem, a Lisboa, os 31 náufragos do vapor “Cassequel”, recolhidos pelo vapor português “Maria Amélia” e conduzidos ao Funchal.
Vêem gratos pela maneira hospitaleira e carinhosa como foram tratados na Madeira, tanto pelas autoridades locais, como pelo povo. Contaram a sua odisseia, e, através da sua narrativa, ficou um ou outro pormenor até agora desconhecido. Depois do primeiro torpedo, o “Cassequel” parou o andamento e, como se tivesse partido o eixo da hélice, a máquina começou a rodar desordenadamente.
- Foi um inferno -, exclamaram eles. O torpedo, apontado para meia-nau, devido ao andamento do vapor, atingira-o na popa, a estibordo, levando, ao que parece, a hélice e o leme. Depois de recolhidos nas baleeiras e de se terem apagado as luzes, subitamente, ouviram novo estrondo. Foi nesse instante que o navio se desfez em chamas. Um clarão enorme iluminou todos, mas, mesmo assim, não conseguiram ver o submarino que os atacou. Devido ao facto das duas baleeiras onde se recolheram terem a bordo gente mais nova e, portanto, com mais forças para remar, perderam-se das duas outras embarcações. Na manhã de terça-feira, os ocupantes dos dois salva-vidas, que andaram sempre mais ou menos juntos, avistaram pelas 11 horas o avião inglês, que se aproximava deles. A tarefa dos tripulantes deste aparelho e de outro que apareceu depois para os localizar não podem eles esquecer, como motivo de gratidão.
Até ali o desanimo tinha-se apossado de todos, mas, daí em diante, sentiram que tinham razão para não perder as esperanças de salvamento. Foi então, perto das 21 horas, com o auxílio de fachos luminosos, lançados do avião, que o capitão do “Maria Amélia” descobriu as duas baleeiras e se aproximou delas, recolhendo os seus ocupantes e levando-os para o Funchal, de onde chegaram ontem.
No cais eram esperados por pessoas de família. Parte dos náufragos embarcou no paquete “Mouzinho”, com destino aos portos da África Portuguesa.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 28.12.1941)

Factos e ocorrência
O neutral e desprotegido vapor “Cassequel”, às 21 horas e cinquenta e sete minutos, do dia 14 de Dezembro de 1941, foi atingido à face da ré por um de dois torpedos disparados pelo submarino alemão U-108, sob o comando do capitão Klaus Scholtz, quando este se encontrava a cerca de 160 milhas a Sudoeste do Cabo de São Vicente. O vapor afundou-se rapidamente depois de atingido por um torpedo definido como o golpe de misericórdia a meio-navio, partindo-se em duas partes, pelas 22 horas e vinte e cinco minutos.
O vapor encontrava-se iluminado, mas não foi vista qualquer bandeira ou sinais identificativos à distância de 1.000 metros, pelo que o comandante do submarino decidiu-se pelo ataque e afundamento do mesmo, quando este se encontrava na posição longitude 35º08´N e latitude 11º14’O, pela impossibilidade de mandar parar um navio suspeito durante a noite.
No dia 15 de Dezembro o submarino alemão U-131, sob o comando do capitão Arend Baumann aproximou-se de duas baleeiras com náufragos do vapor “Cassequel”, tendo-lhes fornecido pão e água. Os sobreviventes nessa ocasião solicitaram ao comandante deste submarino, que os rebocasse até próximo da costa portuguesa, mas o pedido foi obviamente recusado.

domingo, 30 de junho de 2013

Resumo histórico do vapor “Cassequel”


O afundamento
1ª Parte

O “Cassequel” foi o terceiro navio de longo curso afundado por um submarino alemão durante a IIª Grande Guerra Mundial. Desta feita, o efeito rotina descambou para situações antagónicas. Presidencialmente, conforme se constata através das notícias publicadas na época, a Companhia Colonial recebeu pêsames pela perda do navio e a própria companhia teve a bandeira içada a meia haste, muito embora não se tivessem registado vítimas mortais. Por outro lado, no Funchal as boas vindas da população local aos tripulantes do navio, foi de tal forma apoteótica, que quase faz precipitar a ideia que valia a pena ser náufrago outra vez!
Numa análise mais abrangente, contextualiza-se a hipotética irrelevância do país perder mais uma unidade, por muita falta que pudesse fazer! Fica também provada a capacidade para vencer a batalha da sobrevivência, nos casos agora relatados, independentemente do custo e do sofrimento que a isso obrigou, apesar da perda de outros navios e da vida de tripulantes, nos ataques a que estiveram sujeitos navios de menor porte.
Volvidos todos estes anos, é possível perceber que a história se esqueceu de dar nome aos muitos anónimos colocados acidentalmente no teatro de uma guerra, que o governo de então fez jus não lhes pertencer. A nossa memória colectiva, depois de conhecidas e apreciadas as vicissitudes e os momentos tormentosos vividos pelos referidos náufragos, fará juízo de cada um como vitima ou herói, no reino das causas perdidas.

O vapor “Cassequel”
1926-1941
Armador: Companhia Colonial de Navegação, Lisboa

Imagem do vapor "Cassequel", supostamente no porto de Lisboa
Foto da colecção de Francisco Cabral

Nº Oficial: 489-E - Iic.: C.S.A.L. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: W. Gray & Co., Ltd., West Hartlepool, 04-1901
ex “Numantia”, Hamburg America Line, Alemanha, 1901-1916
ex “Pangim”, Transp. Marít. do Estado, Lisboa, 1916-1926
Arqueação: Tab 4.751,26 tons - Tal 3.324,74 tons
Dim.: Ff 121,20 mt - Pp 117,10 mt - Bc 15,88 mt - Ptl 7,80 mt
Propulsão: Mar. Eng. Works, 1:Te - 3:Ci - 369 Nhp - 10 m/h

O vapor “Cassequel”, da Companhia Colonial de Navegação
foi afundado, no Domingo último, no Atlântico
Foi afundado no dia 14 do corrente, portanto no Domingo, pelas 19 horas, o vapor de carga português “Cassequel”, da Companhia Colonial de Navegação. O navio tinha saído da capital no dia 13, véspera do acontecimento.
O “Cassequel” levava carga geral para os portos da África Portuguesa, parte da qual pertencia ao Estado Português e destinava-se a Angola. O navio deslocava 7.300 toneladas. Tinha de comprimento 121 metros. Pertencia à Companhia Colonial de Navegação, desde a fundação da empresa. Antes fora propriedade da frota dos Transportes Marítimos do Estado, com o nome “Pangim”, e pertenceu primeiramente a uma companhia alemã, tendo ao tempo o nome de “Numantia”. Foi construído em 1901, nos estaleiros de West Hartlepool, e tinha motores de 1.500 C.V., possuindo três caldeiras.
Há tempos foi restaurado nos estaleiros da C.U.F., após o incêndio que se registou a bordo, durante uma viagem de África para Lisboa. Este navio no princípio da actual guerra foi levado pela fiscalização inglesa para Gibraltar.
O Estado-Maior Naval emitiu, após ter conhecimento do incidente, um radio a toda a navegação para que os navios que naveguem próximo do local onde o barco foi afundado procedessem a pesquisas. Também dois hidroaviões partiram a fazer pesquisas na zona onde se presume que tenha sido afundado.
Ontem à noite, compareceram junto dos escritórios da Companhia Colonial de Navegação algumas pessoas das famílias dos passageiros e tripulantes, para receberem notícias dos seus entes queridos e colherem detalhes quanto às pessoas que tinham sido salvas.
A Companhia Colonial de Navegação içou a bandeira a meia-haste em sinal de sentimento.
A tripulação do “Cassequel” era a seguinte:
Sebastião Augusto da Silva, comandante; Hermenegildo Rodrigues do Paço, imediato; José Dias Furtado, 2º piloto; Vasco de Sá Jara de Carvalho, 3º piloto; Marcelino Fonseca Sequeira, praticante de piloto; José Pedro Ventura Simões, telegrafista; José Joaquim Rita Júnior, 1º maquinista; José Pedro, 2º maquinista: Alfredo José Vieira, 3º maquinista; José António de Jesus Júnior, ajudante de maquinista; Vasco Baptista Almeida Graça, enfermeiro; Manuel Fernandes, contra-mestre; José Napoleão Aquino Pereira, carpinteiro; Francisco da Silva Sacada, Manuel Espírito Santo Rocha, João Abreu dos Santos e José da Conceição, marinheiros-timoneiros; Manuel Almeida, marinheiro fiel de porão; António Nanim Pimentel, moço paioleiro; Carlos António, despenseiro; Jaime Bento Lampreia, Manuel Oliveira Júnior e José Mendes Romero, criados; João Ildefonso Machado Barbosa, cozinheiro; Carlos Nunes da Maia, ajudante de cozinheiro; Manuel Santos, padeiro; António Augusto Ruela, Mário Tomé Rebelo Santos, João Inácio Nunes, Elias Ramos, Joaquim Mealha Ferreira e Luís Figueiredo, chegadores; Manuel Cristiano Mendes, fogueiro-faroleiro; Bernardo Luís, José Simões, Joaquim Luís, Joaquim Fernandes, José Correia, Manuel Cristiano Mendes, Amaro Domingos Caldas, Guilherme Matos, António Francisco e António Dias, fogueiros; José Almeida, Mário Repolho, Orlando da Silva Saraiva e Mud-Bai, moços.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 18 de Dezembro de 1941)

Todos os tripulantes e passageiros do “Cassequel”
afundado no Atlântico estão salvos
Por um radio recebido ontem de tarde em Lisboa, soube-se que a baleeira, a bordo da qual tomaram lugar o comandante e 17 pessoas do vapor “Cassequel”, afundado no Atlântico no último Domingo, pelas 19 horas, um dia depois de ter partido de Lisboa, com destino aos portos portugueses de África, havia sido localizada em determinado ponto por elementos da nossa Marinha de Guerra que tinham saído para fazer pesquisas.
Em virtude desta informação, o Ministério da Marinha ordenou a recolha dos náufragos. Estão, portanto, salvos todos os passageiros e tripulantes do “Cassequel”.
Em Lisboa tinham embarcado, com destino aos portos da África Ocidental, 9 passageiros: Isilda Portela, de 43 anos, solteira, da Covilhã e Josefina Marques, de 49 anos, casada, de Maçãs de Dª. Maria, comerciante, ambas para São Tomé; Lino Pereira Pinto, de 23 anos, casado, torneiro, da Vila da Feira; Alfredo da Silva, de 50 anos, serralheiro, do Porto; Virgílio Santos Pinto, de 36 anos, casado, comerciante, de Moimenta da Beira; Mário Adelino Pires, de 15 anos, estudante em Matanga; e José António Costa, de 23 anos, estudante, de Bragança, todos para Luanda; Adérito dos Santos Tavares, de 19 anos, estudante, de Távora e António Mendes Negrão, de Lisboa, empregado no comércio, solteiro, ambos para o Lobito. Seguiam todos em 3ª classe.
Na melhor das hipóteses os náufragos chegaram a Lisboa de madrugada. De Gibraltar comunicaram às entidades competentes que tinham sido recolhidos por um barco estrangeiro 13 náufragos que chegaram já ali. São todos tripulantes do “Cassequel”: Hermenegildo do Paço, Vasco Almeida Graça, José Passos, José Simões, João Santos, Mud-Bai, José Oliveira, António Barros, Amaro Caldas, António Francisco, Joaquim Fernandes, José Correia e José Pereira.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 19 de Dezembro de 1941)

O afundamento do vapor “Cassequel”
Chegaram, ontem, a Lisboa alguns dos náufragos
Chegaram ontem, à tarde, a Lisboa, alguns dos náufragos do vapor “Cassequel” que foram recolhidos no alto mar por elementos da nossa Marinha de Guerra, e tinham tomado lugar a bordo de uma baleeira do navio, aquela que anteontem foi assinalada.
São o comandante sr. Sebastião da Silva e mais 17 pessoas, tripulantes e passageiros do “Cassequel”, que a não ser o cansaço resultante das horas difíceis que passaram a bordo da baleeira, se encontram de saúde. 

O “Cassequel” foi torpedeado por um submarino cuja nacionalidade é, ainda, desconhecida. Trata-se, conforme previamente acentuado, dum novo acto brutal perpetrado contra um país que tem mantido, escrupulosa e exemplarmente, a sua neutralidade. É legítima a indignação que tal atentado provocou em todos os portugueses, ciosos da sua independência e da sua honra.

Em nome do sr. Presidente da República, o sr. General Amílcar Mota apresentou pêsames à direcção da Companhia Colonial de Navegação pela perda do “Cassequel”.

Os náufragos foram carinhosamente recebidos no Funchal
Funchal, 19 – O vapor português “Maria Amélia” fundeou neste porto ontem, às 14 e quarenta horas, trazendo a bordo 24 tripulantes e 7 passageiros do vapor português “Cassequel”. Na ponte-cais centenas de madeirenses aguardavam ansiosamente a chegada do “Maria Amélia”, que fora anunciada à população através dos «placards» dos jornais e por intermédio da capitania do porto.
Apenas o “Maria Amélia” lançou ferro, dirigiu-se imediatamente para junto daquele navio o gasolina da capitania do porto, levando a bordo o Patrão-mor e as autoridades sanitárias e alfandegárias. Depois de cumpridas as usuais formalidades os náufragos do “Cassequel” dirigiram-se para terra em dois gasolinas. Ao desembarcarem no cais foram alvo duma carinhosa recepção por parte de centenas de pessoas que se encontravam na ponte-cais e que lhes ofereceram frutas e garrafas de vinho da Madeira. Seguiram depois até à avenida Dr. Manuel de Arriaga e junto ao monumento a Gonçalves Zarco, descobridor da ilha, foram distribuídos por vários hotéis e pensões da cidade.
Os náufragos declararam que o “Cassequel foi afundado no domingo, 14, às 19 horas. Dois dias depois, na terça-feira, 17 do corrente, foram recolhidos, às 17 horas, pelo “Maria Amélia”, cuja oficialidade e tripulação os trataram com o maior carinho e desvelo, cuidando para que nada lhes faltasse e chegando mesmo alguns oficiais de bordo a ceder as suas acomodações.
Acrescentaram que uma das baleeiras era guiada pelo segundo-piloto do “Cassequel”, José Dias Furtado, e que a outra era conduzida pelo terceiro-piloto, Vasco de Carvalho. Ambos os oficiais não só deram mostras da maior coragem e sangue-frio, como ainda animaram os náufragos durante os dois dias em que as suas baleeiras vogaram ao sabor das ondas. Disseram ainda que os náufragos foram salvos pelo “Maria Amélia”, graças aos sinais que aquele navio recebeu.
Os 31 náufragos do “Cassequel” seguem para Lisboa no dia 24 do corrente, a bordo do vapor português “Lima”. Nenhum deles apresenta quaisquer ferimentos, mas mostram-se bastante fatigados, devido ao frio que sofreram durante os dois dias que navegaram no mar alto.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 20 de Dezembro de 1941)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Resumo histórico do vapor "Corte Real"


O afundamento
2ª Parte

Foto de passageiros e tripulantes do vapor "Corte Real"
à chegada a Lisboa - Imagem do jornal "Comércio do Porto"

O torpedeamento do vapor português “Corte Real”
causou profunda impressão na opinião pública
O torpedeamento do vapor português “Corte Real” causou, como não podia deixar de ser, profunda impressão na opinião pública. Apesar de ter corrido o boato, porque de outra coisa não se tratava senão de boato, de que o “Corte Real” transportava determinado minério, verificou-se já, até pelas declarações do comandante daquela unidade da nossa frota mercante, que nem uma grama desse minério ia a bordo.
A carga do “Corte Real” era constituída por um pequeno lote de cortiça, grande quantidade de relógios e anilinas. Tratava-se de mercadorias vindas da Suíça, e embarcadas num porto italiano, sob a fiscalização e controle das autoridades daquele país beligerante.
A perda do “Corte Real” representa um golpe para a nossa Marinha Mercante, que fica privada de uma das suas melhores unidades. O afundamento do vapor português “Corte Real” causou na opinião pública a mais legítima indignação e a mais dolorosa surpresa. Nada houve que justificasse tal procedimento, pois o “Corte Real” não transportava mercadoria que pudesse ser considerada como contrabando de guerra.
Portugal, que sempre manteve e mantem, ainda, relações amistosas com os países beligerantes, não merece este tratamento tão iniquo como injusto. Observando, sempre, com inexcedível escrúpulo uma política de neutralidade, o nosso país tem o direito de ser respeitado. O afundamento do “Corte Real” constitui, por isso, um atentado ao brio nacional, perante o qual não podemos ficar indiferentes. Tal procedimento é condenável e merece a mais enérgica reprovação dos portugueses que põem acima de tudo a honra nacional.
O que dizem os jornais ingleses
Londres, 15 – A Grã-Bretanha sente e manifesta grande simpatia por Portugal, a propósito do afundamento do “Corte Real”. Todos os principais jornais inserem notícias dos seus correspondentes em Lisboa, principalmente o Times, que publica uma mensagem de 350 palavras na sua primeira página.
Londres, 15 – Acerca do afundamento do “Corte Real” os círculos autorizados de Londres salientam que a falta de humanidade do comandante do submarino, ficou demonstrada pelo facto de ter abandonado os tripulantes e passageiros em escaleres abertos, a 100 quilómetros da costa.
Visto o comandante alemão não ter dado qualquer razão para o afundamento de um navio neutral, que se deslocava em transportes neutros, a única explicação possível conforme se pensa na cidade, é tratar-se de um acto de intimidação dirigida contra um pequeno país neutro, mantendo o comércio pacífico e legitimo com outro país neutro.
A Alemanha deu, assim, a conhecer ao Mundo não estar livre de ataques de qualquer navio navegando no alto mar. Os círculos autorizados de Londres têm por certo que, Portugal com a sua gloriosa e secular tradição naval, insistirá no seu direito de manter em aberto operações de comércio legítimo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 16 de Outubro de 1941)

O torpedeamento do “Corte Real” -  O comandante do submarino
alemão não acedeu ao pedido do capitão do navio português
no sentido de que, para ser poupado, a carga fosse lançada ao mar.
Mantem-se viva e profunda a impressão de pesar nos portugueses pela notícia do afundamento, no Atlântico, do “Corte Real”, atendendo à situação de Portugal como país neutro. É que, de verdade, o acontecimento chega a ser inconcebível e merecedor dos mais duros e amargos comentários.
As autoridades de Marinha estão a ultimar o processo relativo ao afundamento do vapor “Corte Real”, que será enviado oportunamente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, a fim de habilitar o Governo a tomar sobre o caso as providencias que julgar necessárias.
Teve-se agora conhecimento de que o capitão do navio, sr. José Narciso Marques Júnior, ao falar com o comandante do submarino alemão que afundou o “Corte Real”, prontificou-se a lançar ao mar toda a carga que lhe fosse indicada ou a regressar a Lisboa, comprometendo-se, sob palavra de honra a descarregar aquela mercadoria e a não voltar a transportar não só os produtos que levava como todos aqueles que lhe fossem indicados. Estas propostas, porém, não foram aceites e o barco acabou por ser torpedeado, depois de não terem dado resultado as granadas incendiarias que sobre ele foram lançadas.
Passageiros e tripulantes foram, até certo ponto, rebocados pelo submarino, que a certa altura cessou o reboque. A odisseia dos náufragos durou cerca de treze horas, até serem avistados pelo caíque “A Deus”, que os trouxe para o porto de Lisboa.
O “Corte Real”, visitava com frequência o porto de Génova, não só levando mercadorias para Itália, algumas em trânsito, como tomando ali carga que transportava para outros destinos.
Deste afundamento resultam ainda algumas consequências pouco agradáveis, entre as quais, o benefício dos carregadores americanos, que desviam as cargas para as suas companhias de navegação, com o argumento de que os seus transportes estão a coberto de torpedeamentos.
Comentários da imprensa inglesa
Londres, 16 – O afundamento do “Corte Real” continua a despertar grande atenção. Aguarda-se com enorme interesse, o resultado do inquérito oficial mandado fazer pelo Governo português.
O correspondente do Times em Lisboa informa: «Nada se deu que diminuísse a impressão geral que se sentiu em Portugal da extrema gravidade do assunto.»
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 17 de Outubro de 1941)

O afundamento do “Corte Real”
O sr. Manuel Pinheiro Chagas, agente em Lisboa da Companhia Carregadores Açoreanos, continuou ontem a tratar do caso do torpedeamento do vapor “Corte Real”, propriedade daquela empresa. No escritório da agência estiveram o capitão do navio, sr. José Marques Júnior e alguns tripulantes. Estes aguardam a solução do seu caso, no sentido de lhes ser indicado outro navio da mesma Companhia para poderem continuar a governar a sua vida, agora prejudicada por motivo da perda do navio onde trabalhavam.
Tem continuado a elaboração do relatório sobre as causas do afundamento, o qual vai ser enviado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para habilitar o Governo a tomar as necessárias providências.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 18 de Outubro de 1941)

Factos e ocorrência
Às 14 horas do dia 12 de Outubro de 1941, o vapor “Corte Real” foi mandado parar para ser inspecionado pelo submarino alemão U-83, que se encontrava sob o comando do capitão Hans-Werner Kraus, a cerca de 80 milhas a Oeste de Lisboa.
Com base no princípio estabelecido que o navio transportava contrabando, por motivo da mercadoria ser destinada aos Estados Unidos e ao Canadá (país beligerante), o comandante do submarino decidiu ordenar que a tripulação e passageiros (entre eles mulheres e crianças) abandonassem o navio em três escaleres. Consumado o desembarque, o submarino abriu fogo contra o navio com o canhão do convés, tendo-se declarado incêndio a bordo, contudo face à provável demora no afundamento do navio, optaram pela destruição do mesmo com dois torpedos, às 16 horas e cinquenta e quatro minutos.
Entretanto, porque um dos escaleres do “Corte Real” se encontrava em mau estado e a meter água, a tripulação do submarino transferiu os náufragos para os dois restantes. Afundado o navio, o submarino procedeu ao reboque dos dois escaleres na direcção da costa portuguesa, durante três horas, até ao local que lhes pareceu oferecer segurança.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Resumo histórico do vapor "Corte Real"


O afundamento
1ª Parte

Depois do violento impacto que teve lugar na opinião pública, referido anteriormente relacionado com o afundamento do vapor “Ganda”, primeira grande vítima dos submarinos alemães na IIª Grande Guerra Mundial, é já percetível um amaciamento nos comentários publicados nos jornais quanto ao torpedeamento do vapor “Corte Real”, e mais interessante ainda, é a constatação do alheamento na defesa feroz dos valores e interesses nacionais, face aos governos dos países beligerantes.
Depreende-se portanto que depois do primeiro caso, os afundamentos seguintes já são aceites como parte de uma rotina, não aceitável mas compreensível, ao ponto de se terem levantado suspeitas relacionadas com a possibilidade do navio transportar uranio. Em qualquer dos casos, consegue-se perceber que o afundamento do “Corte Real” nesta fase é já um mal menor, até porque o armador desta feita, até é beneficiado em função do novo regime de seguros instituído pelo Governo.

O vapor “Corte Real”
1934-1941
Armador: Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos,
Ponta Delgada

Foto do vapor "Corte Real" no porto de Nova Iorque
Imagem da Photoship.Uk

Nº Oficial: 949 - Iic.: C.S.A.G. - Porto de registo: Ponta Delgada
Cttor.: A. Vuijk & Zonen, Capelle a/d Ijssel, Holanda, 06-1922
ex “Peursum”, Stoomvaart Mij Oostzee N.v., Amsterdão, Holanda
Arqueação: Tab 2.043,85 tons - Tal 1.211,78 tons
Dimensões: Ff 90,41 mt - Pp 86,26 mt - Bc 12,25 mt - Ptl 5,86 mt
Propulsão: Sulzer, 1922, Holanda – 1:Te – 267 Nhp
Equipagem: 36 tripulantes

O vapor português “ Corte Real ” foi afundado por um submarino
alemão, tendo os náufragos sido recolhidos por um barco de pesca
O vapor português “Corte Real”, da Companhia dos Carregadores Açoreanos, que saiu do Tejo no dia 7 de Outubro para o Porto, foi torpedeado. A bordo seguiam de Lisboa os seguintes passageiros: Dª Odete da Piedade Barros, de Faro, de 20 anos, e sua filha, a menina Aldina Ferraz Violante; Dª América Ferreira da Silva, de Lisboa, e sua filha, a menina Maria Celeste Silva, de 4 anos. No Porto embarcaram mais dois passageiros: J. Ean de Lawillarde Reni, francês e Charles Cante Bufuwer, americano.
O navio foi afundado por um submarino alemão cerca das 13 e trinta horas de Domingo, depois do comandante do submarino ter consultado a bordo a documentação do barco português, e de ter dito ao capitão do “Corte Real”, sr. José Narciso de Matos Júnior, para afundar o navio, que se dirigia para a América do Norte.
Foi tentado o afundamento do navio pelo processo da abertura das válvulas, mas não foi possível metê-lo no fundo desta maneira.
Depois dos passageiros e os 36 tripulantes terem ido para as baleeiras de bordo, do submarino começaram a ser disparados tiros de canhão. Como o navio também não se afundasse desta forma, foi lançado um torpedo.
O “Corte Real”, dos Carregadores Açoreanos, foi afundado, e o submarino, depois de ter recolhido a bordo as senhoras e as crianças, lançou um cabo e rebocou as duas baleeiras durante vinte milhas, largando os náufragos, que andaram 24 horas à deriva.
Ontem, de manhã, os náufragos foram recolhidos por um barco de pesca do porto de Faro, de nome “A Deus”, que os conduziu à barra do Tejo. Depois o barco dos pilotos foi buscá-los e levou-os para a Capitania do porto de Lisboa.
Dos 36 tripulantes são do Norte os seguintes: contra-mestre José Cândido Gonçalves, marinheiro; Francisco Luzia e o criado João dos Santos Lauro, todos de Ílhavo; fogueiros José da Costa e Álvaro Pereira, chegador Jaime Ernesto, paioleiro António Miranda, marinheiro António Marques e o cozinheiro João Marques Ferreira, todos de Vila Nova de Gaia.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 14 de Outubro de 1941)

O torpedeamento do vapor português “Corte Real”
O mestre do caíque “A Deus” conta como
salvou os náufragos e os trouxe até ao Tejo
O mestre João Matos” do caíque “A Deus”, que transportou os náufragos do vapor português “Corte Real”, após o torpedeamento de que este foi vítima por parte de um submarino alemão, declarou à imprensa:
- «Fundeei para a pesca eram 10 horas. Às 4 e meia, vi dois sinais, dois clarões no ar, provocados por náufragos. O coração deu-me um baque e pressenti desgraça. Fiz-me de vela e tomei o rumo de Sudoeste, a ver se descobria alguma coisa. Avistei duas baleeiras. Corri para elas e eram 6 horas quando tomei contacto com os náufragos.»
Entraram para o seu barco?
- «Só algum pessoal passou para o “A Deus”. O outro ficou em uma das baleeiras, inclusivamente o capitão. Prendi a baleeira a reboque e, como não havia vento, larguei o bote a motor, que usamos para lançar as redes. Foi este bote que rebocou o meu caíque e a baleeira. Valeu-nos estar o mar calmo, como está hoje, aqui, no Tejo. Senão o salvamento teria sido mais difícil e tinha de perder-se a baleeira que conseguiu salvar-se.»
Vieram sempre rebocados?
- «Não. Às 11 horas, entrou o vento e meti o bote a motor dentro do barco. Dei de comer aos náufragos que vinham no meu barco e, por duas vezes, perguntei ao capitão se queria que lhes desse alguma coisa. Mas ainda levavam conservas e não quiseram nada. Quando chegamos ao Cabo Raso é que avistamos o aeroplano.»
O mestre pediu auxílio, como se diz?
- «Não, senhor. Não pedi qualquer auxílio. Estávamos na Guia, perto de Cascais, já não precisava de auxílio. Trouxera os náufragos até ali, melhor podia trazê-los da Guia para cá. Foi às 4 e meia que apareceu o gasolina dos pilotos, entre a Guia e a Ponta do Tamanco. Tinha perguntado ao capitão do “Corte Real” onde queria saltar e, como ele me tinha dito que ficava em Cascais, ia já a aproximar-me de terra para o deixar. O capitão desejava que fosse o meu caíque que o trouxesse até Lisboa, visto que já o tinha trazido até ali. Mas, já da parte de dentro de S. Julião, por indicação do gasolina dos pilotos, a que prontamente obedeci, os náufragos transitaram do meu para aquele barco.»
O socorro aos náufragos trouxe-lhe prejuízos, foi perguntado ao mestre João Matos?
- «E grandes. Perdemos toda a pesca, tivemos de deitar fora todo o isco. Os 25 homens de bordo sofreram um considerável prejuízo. Mas cumpriram bem o se dever de portugueses e já essa consolação nos conforta.»

O Estado-maior Naval, onde ontem compareceu o comandante do “Corte Real”, sr. capitão José Marques Júnior, está a elaborar o processo do incidente, extensa documentação que será depois remetida às entidades do Ministério da Marinha, às quais compete informar o Governo.
A companhia armadora do “Corte Real” é a primeira empresa a beneficiar do novo regime de seguros de guerra instituído pelo Governo, após o torpedeamento do “Ganda”.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 15 de Outubro de 1941)