domingo, 18 de dezembro de 2011

Historia trágico-marítima (XLII) - Os encalhes do Alferrarede


O vapor “ Alferrarede “
1927 – 1961
Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa

O vapor "Alferrarede" na barra do porto de Leixões
Imagem Fotomar, Matosinhos

Nº Of.: 361-F - Iic.: H.A.L.F. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: J.C. Tecklenborg A.G., Gestemunde, 05.1905
ex “Pluto”, Dampschiffs Ges. “Neptun“, Bremen, 1905-1916
ex “Sado“, Marinha de Guerra Portuguesa, 1916-1918
ex “Sado”, Exército Português/ T.M.E., Lisboa, 1918-1919
ex “Sado”, Transp. Marit. do Estado, Lisboa, 1919-1924
ex “Sado”, Soc. de Navegação, Lda., Lisboa, 1924-1927
dp “João Diogo”, Sofamar, Lda., Lisboa, 1961-1963
Arqueação: Tab 1.452,18 tons - Tal 865,28 tons
Dim.: Ff 73,91 mts - Pp 70,06 mts - Bc 11,02 mts - Ptl 4,56 mts
Propulsão: Tecklenborg, 1905 - 1:Te - 3:Ci - 116 Nhp - 10 m/h
Equipagem: 27 tripulantes

Encalhe do navio no Porto

O vapor encalhou pelas 11 horas da manhã, do dia 3 de Dezembro de 1927, sob o comando do capitão António Botto, durante a manobra de entrada no rio Douro, por ter sofrido uma avaria no hélice, que se partiu. Sem possibilidade de governo, o vapor caiu sobre as pedras na Meia-Laranja, abrindo um rombo no casco sobre o tanque de lastro, à ré. O navio havia chegado poucas horas antes ao Douro, procedente de Antuérpia, com carga de adubos químicos, destinados à Companhia União Fabril.
No sentido de possibilitar as operações de desencalhe, a parte da carga destinada ao Porto foi descarregada no local para barcaças, aliviando o navio, o que veio a acontecer pelas 19.20 horas com o apoio dos rebocadores “Luzitano” e “Magnete”. Já livre dos rochedos onde se encontrava, seguiu a reboque rio acima, até Massarelos, ali ancorando para efectuar pequenas reparações.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 4 de Dezembro de 1927)

Novo encalhe do navio no Porto

O vapor “Alferrarede” encalhou às primeiras horas da tarde, do dia 30 de Janeiro de 1934, sensivelmente a meio do enrocamento do cais velho, à entrada da barra do rio Douro, mas cerca de 20 minutos depois pode ser desencalhado, devidos aos esforços do rebocador “Lusitânia”, que assistia ao navio na manobra de entrada e à corrente das águas de enchente. De acordo com informações prestadas pelo sr. Loureiro, gerente da sucursal no Porto da Sociedade Geral, o navio em função do sinistro, sofreu um pequeno rombo no tanque de proa, considerado de menor importância. O navio apresentava-se à entrada do rio com um calado de 15 pés e meio, estava sob o comando do sr. capitão Neto e deverá sair brevemente com destino a Lisboa.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 31 de Janeiro de 1934)

O vapor "Alferrarede" ancorado em Lisboa, durante os
anos do IIº conflito mundial - Foto de autor desconhecido

Um outro sinistro, desta feita no rio Tejo, em Lisboa, colocou o vapor novamente em sério risco, a 15 de Dezembro de 1958. A seguir o relato dessa ocorrência:

Notícia do temporal que se abateu sobre Lisboa

No Tejo, o temporal de ontem fez recordar o ciclone que, há quinze anos, afundou barcos, pôs outras embarcações em perigo e roubou a vida a alguns marítimos. As tripulações dos navios fundeados no rio e as dos barcos atracados aos cais, passaram tormentos durante a noite. As vagas impetuosas e a velocidade do vento puseram alguns barcos em risco de se perderem. A violência da tempestade destruiu o pontão da Ribeira Nova, onde normalmente atracam os barcos para a descarga do peixe e causou prejuízos em vários pontões. Durante a noite, o mar galgou a muralha da Ribeira Nova e invadiu os barracões da lota.
Alguns navios, tais como o “Gorgulho” e o “Andulo”, bateram fortemente nas muralhas dos cais e sofreram danos dignos de registo. Vários batelões foram arrastados pela fúria da tempestade, assinalando-se danos calculados, no conjunto, em mais de mil contos. A não ser as fragatas e outras embarcações de pequena tonelagem, recolhidas nas docas, desde segunda-feira, como medida de precaução, poucos foram os barcos de maior porte que escaparam aos tremendos efeitos do temporal. Raro foi o navio que não sofreu dano.
O “Sofala” da Companhia Nacional de Navegação, garrou em S. José de Ribamar e encalhou, safando-se, no entanto, pelos seus próprios meios. A tempestade no rio, com vaga forte e alterosa, e com as águas a correrem em velocidade, fizeram garrar outros navios, entre os quais o “Alfredo da Silva” e o “Maria Amélia”, que estavam fundeados no quadro central, em frente ao Terreiro do Paço, e o “Alenquer”, que se encontrava no quadro ocidental, pertencentes à Sociedade Geral.

O encalhe do navio “Alferrarede” na noite do dia 15, foi dos mais graves, como sinistro marítimo. O navio, também da mesma empresa e que havia no Domingo arribado a S, José de Ribamar, por não poder sair a barra com destino a Bone, garrou, devido à violência do mar e foi encalhar na praia de Algés. Os serviços técnicos da Sociedade Geral, logo que tiveram conhecimento do facto, mandaram seguir para o local o rebocador “Praia da Adraga”, que fez uma tentativa para o safar, mas nada conseguiu. Também o vapor “Pedro Rodrigues”, da Corporação dos Pilotos da barra de Lisboa, procurou desencalhar o navio, mas rebentou-se um cabo, desistindo da diligência. O “Alferrarede” de que é capitão o sr. António Camarate Carrilho, ficou à vista das pessoas que passavam na estrada marginal, onde se juntou uma multidão de curiosos, apesar da chuva e do vento.
Os trabalhos preparatórios para se proceder ao desencalhe começaram pouco depois, pelos técnicos da Sociedade Geral. Cerca das 18 e 30, o rebocador “Praia da Adraga”, com a poderosa força dos seus motores, ajudado pelo rebocador “D. Luís”, da Administração-Geral do porto de Lisboa, conseguiu safar o navio, que, logo a seguir subiu o rio.
(In jornal “O Século”, de 17 de Dezembro de 1958)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Construção naval em 1870


Um périplo pelo país dos oceanos!

A "Cutty Sark" - Pintura de autor não identificado
Construção inglesa, também no decorrer de 1870

Acontece hoje uma nova repetição sobre este tema, que julgo merecer grande importância, para tentarmos perceber o engenho dos construtores, relativamente às suas capacidades para oferecer aos interessados a melhor mão-de-obra, que ao longo dos anos existiu no país. Se é verdade que havia gente especializada na construção naval em madeira de norte a sul, acredito que o maior volume de trabalho esteve quase sempre concentrado no norte, com forte relevo no século XIX, donde sobressaiam os pólos de Vila do Conde, Fão e Esposende, através de estaleiros próximos a pequenos estuários situados nas margens dos rios Ave e Cávado. Entre os diversos motivos, que privilegiaram a escolha dos construtores destas localidades, terá sido a exuberante qualidade apresentada nas construções, granjeando-lhes fama e abrindo-lhes portas para trabalharem para o exterior, encontrando em França e no Brasil, um considerável grupo de armadores que facilitaram um substancial aumento em termos de mercado, muito útil para um melhor desempenho e em simultâneo frutificaram um notável incremento laboral.
Curiosamente, as construções levadas a cabo no ano de 1870, só em parte confirmam esta realidade, porque à excepção de anos anteriores e posteriores, os estaleiros de Fão e Esposende não apresentaram nenhuma construção nova, isto em comparação com as 22 novas construções realizadas nesse período, conforme o quadro que a seguir se apresenta:

» Navios construídos no departamento marítimo norte «
Estaleiros de Caminha, 1 navio; estaleiros em Viana do Castelo, 1 navio; estaleiros de Vila do Conde, 6 navios; estaleiros no Porto, 1 navio; estaleiros de Aveiro, 1 navio e estaleiros na Figueira da Foz, 2 navios.
» Navios construídos no departamento marítimo do centro «
Estaleiros de S. Martinho do Porto, 2 navios; estaleiros de Peniche, 1 navio e estaleiros de Lisboa, 1 navio.
» Navios construídos no departamento marítimo do sul «
Estaleiros de Faro, 2 navios; estaleiros de Portimão, 1 navio, estaleiros de Olhão, 1 navio (caíque S. José) e estaleiros de Tavira, 2 navios.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Medo e morte a bordo do paquete “Moçambique”


1 a 20 de Outubro de 1918 - Os dias da peste

A permeio de muitas histórias nas navegações nacionais, umas conhecidas e outras tantas por contar, não me ocorre um acontecimento mais trágico, como o que teve lugar a bordo do paquete “Moçambique”, na viagem de Lourenço Marques para Lisboa, com escala na Cidade do Cabo, durante os vinte primeiros dias do mês de Outubro de 1918. Para que conste, já existe referência ao navio no blog, todavia estou a crer justificar-se a lembrança das principais características, recorrendo agora à imagem do navio para uma melhor identificação do mesmo, como segue:

n/m “ Moçambique “
1913 - 1939
Empresa Nacional de Navegação, Lisboa

Postal da E.N.N. do paquete "Moçambique"
M/ colecção

Nº Oficial: 399-C - Iic: H.B.W.F. - Porto de registo: Lisboa
Cttor.: Alexander Stephen & Sons, Linthouse, Escócia, 04.1909
Ex “Bruxellesville”, Cie. Belge Maritime du Congo, 1909-1913
Arqueação: Tab 6.535,61 tons - Tal 4.160,26 tons
Dimensões: Pp 122,00 mts - Boca 15,58 mts - Pontal 9,95 mts
Propulsão: Alex. Stephen, Glasgow - 2:Te - 770 Nhp - 14,5 m/h
Vendido para demolir em Génova, Itália, a 22.06.1938

A trágica viagem do “Moçambique”
O navio navegava dias e noites, só, isolado do resto do mundo, levando a morte a bordo e pior, sob a eventual presença ameaçadora dos submarinos. A epidemia irrompe, subitamente, após a partida do navio do Cabo e com uma tão extraordinária virulência, que se propaga a todas as classes.
..........................................
Dia 1 - Às 23.30 horas do dia 30 de Setembro largamos do cais, e sob as indicações do prático manobramos a deitar fora o porto. Às 23.35 horas passamos a porta da doca e às 23.45 horas desembarcamos o prático. Navegamos a toda a força, praticamente até às 00.55 horas em que obtivemos o ponto de partida na posição 33º53’5”S e 18º14’E. Navegamos com bom tempo e mar.
Dia 2 - Navegamos com bom tempo e mar chão.
Dia 3 - Navegamos com tempo de aguaceiros, mar chão e horizonte curto.
Dia 4 - Navegamos com bom tempo e mar de pequena vaga com céu encoberto.
Dia 5 - Navegamos com tempo encoberto e mar de pequena vaga.
Dia 6 - Navegamos com bom tempo, mar de pequena vaga e céu encoberto. Às 12.00 horas faleceu o 1º Cabo Nº 691 António Gouveia, da 9ª Companhia do 29º Regimento.
Dia 7 - Navegamos com bom tempo e mar de pequena vaga. Às 17.00 horas foi lançado ao mar o corpo do passageiro de 3ª classe John Baptist Paulus, prisioneiro de guerra de nacionalidade alemã, falecido às 10.00 horas da manhã, conforme consta da certidão de óbito que fica junta. Às 23.30 horas faleceu o soldado de infantaria Nº 337, João António d’Araújo, também do 29º Regimento.
Dia 8 - Navegamos com bom tempo e mar chão. Às 08.00 horas foi lançado ao mar o corpo do soldado Nº 337, João António d’Araújo, na posição 80º28’0”S 51º18’W. às 21.00 horas faleceu um soldado expedicionário e às 22.00 horas faleceu a menor Amélia Olga de 14 meses, filha de Emílio Augusto Neves Guerreiro, passageiro de 2ª classe.
Dia 9 - Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje o número de falecimentos aumentou duma maneira alarmante, sendo opinião do médico de bordo, que se trata de casos de pneumonia infecciosa. Faleceram 14 soldados e 3 civis, sendo dois deles alemães, prisioneiros de guerra.
Dia 10 - Navegamos com bom tempo, mar chão e céu encoberto. Continua agravando-se a situação, tornando-se mesmo aflitiva a condição dos doentes, que falecem em torno dos médicos, sem que eles lhes possam acudir. Temos apenas 2 médicos para tratar cerca de 1.000 criaturas, caindo algumas com casos fulminantes, tornando-se realmente tétrica e dilacerante esta situação. Hoje faleceram 35, sendo 1 passageiro de 3ª classe, 1 alemão e 33 soldados.
Dia 11 - Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje atingiu o número de 43 óbitos, havendo ainda algumas centenas de doentes. Visitei as cobertas que se conservam tão limpas como as circunstancias o permitem. As enfermarias estão repletas, não havendo lugar onde acomodar os doentes. Em Lourenço Marques, insisti para que a 3ª classe fosse reservada somente para doentes, como nas anteriores viagens, nisto mesmo insistiu o médico de bordo, mas tudo foi debalde, alegando a autoridade, que eram ordens do Ministério das Colónias, que se tinham de cumprir. A 3ª classe fica contígua com os alojamentos dos soldados e a enfermaria está completamente cheia, havendo ali famílias civis com mulheres e crianças, não nos sendo possível melhorar as condições destas desgraçadas criaturas, sendo a sua condição moral verdadeiramente dilacerante.
.......................................
Os casos fatais aumentam dia a dia, num crescendo pavoroso, havendo um dia, o 11 de Outubro, em que morreram 43 passageiros. E num lúgubre e horrível espectáculo, que ainda mais apavora os sobreviventes, os cadáveres são logo lançados ao mar, envoltos num pedaço de pano. Pouco a pouco, o receio, o medo começa a apoderar-se de muitos, ainda os mais animosos e, por fim, o terror, o pânico horrível, cego. Mas há três homens, de coração magnânimo e temperado de aço, que conseguem, no meio de tanta desorientação e terror, encontrar fontes de energia para se dominarem, vencendo-se a si mesmos, animando uns, acudindo aos doentes, impondo-se a outros, multiplicando-se, passando noites e dias em claro na faina sublime de salvar os que ainda podem ser salvos. Esses três homens, de tão rara coragem moral, são o comandante do paquete, sr. Harberts, o médico de bordo dr. Peão Lopes e o capitão médico dr. Rola Pereira.
........................................
Dia 12 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Houve hoje 23 óbitos, tendo melhorado um pouco o estado geral dos doentes. Os médicos, dr. Peão Lopes, médico do navio e o dr. Alexandre Rola Pereira, tem sido de uma dedicação aos doentes, que não há palavras que o possam expressar. Hoje reuni os meus oficiais e os médicos e disse-lhes que era chegado o momento de decidirmos se convinha arribar a S. Vicente ou não. Expus-lhes as condições em que estávamos, isto é, que tínhamos somente 10 dias de carvão, estando a 800 milhas de S. Vicente, que, segundo as instruções que tinha, me diziam não haver carvão em Cabo Verde, nem em Dakar. Que como era natural, aquele porto poucos socorros poderia oferecer, pois tendo em vista o carácter infeccioso da doença existente a bordo, estariam limitados a dar a assistência carecida. Face a essa contingência, não podíamos sujeitar-nos pois que à mínima demora ali, nos faltaria o combustível, que não podíamos refazer naquele porto. Nesta conformidade disse-lhes que tinha resolvido fazer a viagem directamente para Lisboa, poupando na derrota directa cerca de 500 milhas, tendo em consideração que os avisos de todas as estações Radiotelegráficas davam estas zonas presentemente livres de submarinos. Os meus oficiais e os médicos concordaram com a minha resolução, soltando rumo directo a Lisboa.
Dia 13 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje houve 20 óbitos, mas continuam a aparecer casos novos.
Dia 14 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Às 20.50 horas faleceu o Comissário deste vapor de nome Francisco António da Fonseca. Houve 16 óbitos, continuando o número de doentes a ser bastante numeroso.
Dia 15 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Às 07.00 horas foi lançado ao mar o corpo do Comissário do vapor Francisco António da Fonseca. Houve ainda durante este dia 9 óbitos, sendo 7 soldados.
Dia 16 – Navegamos com tempo claro, vento fresco e mar de pequena vaga. Houve 4 óbitos, sendo 2 civis e 2 militares. Apareceram ainda alguns casos novos, mas devido às medidas que temos tomado, que são limitadíssimas devido às circunstâncias, parece querer tomar um carácter mais benigno.
Dia 17 – Navegamos com bom tempo, mar de pequena vaga e céu encoberto. Houve 10 óbitos.
Dia 18 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje melhorou muito o estado dos doentes. Houve 4 óbitos.
Dia 19 – Navegamos com bom tempo e mar chão. Hoje houve 6 óbitos, sendo 4 militares e 2 civis.
Dia 20 – À 01.05 horas avistamos o Cabo Espichel. À 01.20 horas estava à vista o Cabo da Roca por 44ºNE. Às 02.45 horas obtivemos o ponto de chegada na posição 38º23’0”N 9º41’6”W. Navegamos praticamente até às 04.40 horas em que recebemos o piloto em Cascais. Às 05.35 horas passamos entre Torres e às 06.10 horas fundeamos próximo a Belém.
aa) A. Harberts
........................................
A doença propagou-se com tão extraordinária virulência, que pode-se dizer, das mil pessoas que vinham a bordo, a maioria foi mais ou menos atacada, ainda que na 1ª e 2ª classes os seus efeitos fossem mínimos, atentas as medidas de higiene e de isolamento postas rapidamente em vigor. Mas o terror que se apoderou a certa altura de todos os passageiros, incluindo mesmo os de 1ª classe, onde viajavam oficiais, foi tal que queriam à viva força, que o navio aportasse a Cabo Verde, para desembarcarem. Cabo Verde, onde aliás a epidemia também grassa com grande intensidade, é uma terra sem recursos médicos, farmacêuticos e mesmo de alimentação, nem sequer tendo um edifício próprio para alojar tantas pessoas. A aquiescência a tal desejo teria, inevitavelmente, como resultado tornar ainda maior a catástrofe; mas o comandante tomou a heróica resolução de prosseguir a viagem e, desprezando a ameaça dos submarinos, cortou em linha recta para Lisboa, encurtando dessa forma a viagem dois dias e meio, o que, nas circunstâncias, representou, talvez, a salvação de muitas vidas.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 30 de Outubro de 1918

O texto tem intercalado um extracto dos apontamentos efectuados diariamente no Diário de Bordo do “Moçambique”, pelo capitão Alberto Harberts e faziam parte do espólio pertencente ao digmo. Sr. António Cid, distinto colaborador da empresa proprietária do navio. Neste transporte o paquete transportava à saída de Lourenço Marques 819 passageiros e 133 tripulantes, tendo sucumbido durante a viagem 191 passageiros e 2 tripulantes, vitimados pela doença. Ao navio foi estabelecida uma quarentena obrigatória no ancoradouro, pelo período de 3 dias, findos os quais foi permitido o respectivo desembarque para o Lazareto de Porto Brandão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

História trágico-marítima (LX)


Naufrágios de 1871
(IX) Escuna inglesa “Eleonor Francis”, a 29 de Julho de 1871

Chegaram a bordo do brigue inglês “Nautilus”, à baía de Cascais, no dia 29 às 12.22 horas, 8 elementos da equipagem da escuna inglesa “Eleonor Francis”, a qual foi abandonada pela tripulação, por estar desarvorada e a fazer água. A escuna que se viria a afundar a oeste da baía de Cascais, encontrava-se sob o comando do capitão John Francis, procedia de Huelva e transportava um carregamento de minério.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 1 de Agosto de 1871)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

História trágico-marítima (LVIX)


Naufrágios de 1871
(VIII) Escuna inglesa “Margaret Meynear”, a 3 de Março de 1871

(In jornal "Comércio do Porto", de 8 de Março de 1871)

--- Naufrágio ---
Naufragou na praia da Torre Velha, em Vila Real de Santo António, a escuna inglesa denominada “Meynear”, capitão Shan, procedente de Gibraltar, tendo-se salvo a tripulação e alguns pertences do navio.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 16 de Março de 1871)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

História trágico-marítima (LVIII)


Naufrágios de 1871
(VII) Iate português “Nelson”, a 23 de Fevereiro de 1871

--- Encalhe ---
Informação de encalhe deste iate no cabedelo sul da barra de Aveiro, abrindo água, mas ficando em condição de seguir para estaleiro para posterior reparação, permitindo-lhe retomar o serviço comercial.

(In “Jornal do Comércio”, de 28 de Fevereiro de 1871)

domingo, 11 de dezembro de 2011

História trágico-marítima (LVII)


Naufrágios de 1871
(VI) Barca portuguesa “Maria”, a 20 de Fevereiro de 1871

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

--- Notícia de naufrágio ---
No dia 20 de Fevereiro a barca portuguesa “Maria”, entrando com vento norte, já próximo do Cabedelo, outras embarcações tomaram-lhe o vento, perdeu o regimento, apoderaram-se dela as ondas e encalhou na restinga do Cabedelo, onde foi despedaçada pelo mar, salvando-se a tripulação.
(In “Boletim Mensal da A.P.D.L.”, Mapa do movimento da barra do Porto, nos anos de 1871 e 1872, pág. 12, sem identificação do ano de publicação).
--- Naufrágio ---
Ontem às três horas da tarde, vindo a entrar a barca “Maria”, quase na ocasião em que já estava dentro da barra, faltou-lhe o vento e foi encalhar na restinga do Cabedelo, defronte do Salva-vidas. Dali saiu imediatamente o barco para receber os tripulantes, que conseguiu trazer a salvo para terra. O piloto que pilotava o navio antecipando o socorro, lançou-se ao mar e pode com felicidade alcançar a praia.
Quanto ao navio, não está completamente perdido, como o fizeram acreditar as primeiras participações, que da Foz vieram para a repartição da capitania do porto e Associação Comercial. A barca conservou-se direita durante o dia e, como o mar estava bonançoso, permitiu que ao cair da tarde fossem a bordo buscar a roupa dos marinheiros e alguns objectos do navio, como o cronómetro, diário, etc.
No local do sinistro compareceram, logo que tiveram conhecimento do naufrágio, os srs. Capitão do porto, Patrão-Mor e Real, chefe interino da fiscalização externa da alfândega. Aqueles deram as providências para que o navio fosse espiado convenientemente, a fim de melhor poder resistir aos embates das ondas e, este providenciou para que fossem resguardados os salvados do navio, determinando que durante a noite ficassem em barracas os empregados da fiscalização externa.
Durante a noite foram empregues esforços para aliviar o navio, tendo apenas sido possível descarregar 100 caixas de petróleo e o pano da embarcação. Às oito horas da manhã, o navio ainda se conservava direito, mas já fazia alguma água. A essas horas não havia gente que quisesse trabalhar, porque só davam a 5ª parte dos salvados e por essa oferta ninguém se queria arriscar a ir a bordo para aliviar o navio. À vista dessa decisão, é de supor que o barco se perca completamente, apesar do mar estar muito bonançoso.
A barca “Maria” é propriedade do sr. António Francisco da Silva Nunes, vinha de Liverpool e trazia carga de arroz, ferro e petróleo. Foi justo o salvamento desta mercadoria por 12 libras. O navio e a carga estavam seguros na Companhia La Española, de que são representantes na cidade os srs. D. Félix Fernandes Torres e Viegas dos Santos.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 21 de Fevereiro de 1871)
--- Barca “Maria” ---
Acerca do naufrágio da barca “Maria”, sucedido na segunda-feira à tarde, existem agora outros pormenores: A tripulação foi salva pelo salva-vidas e por um saveiro. Na ocasião em que o navio encalhou, o piloto supranumerário Sebastião Pedro dos Santos, que ia a bordo, atirou-se inconscientemente ao mar e a nado alcançou o Cabedelo, para depois ser ajudado a vir para terra por um vareiro, não identificado. A tripulação, parte foi recolhida no estabelecimento do salva-vidas e parte por pessoas dos seus conhecimentos.
A barca “Maria” procedia de Liverpool e a sua carga consistia em arroz, ferro e carvão. Às 10 horas da manhã de terça-feira, o navio estava com a quilha partida, sem leme e aberto por todos os lados. À mesma hora estava gente dentro da embarcação para tirar alguma carga, o que foi conseguido durante o tempo da baixa-mar, salvando algum arroz. Depois daquela hora foi ainda possível retirar o massame do navio. Ontem de manhã a barca estava cheia de água, o casco e parte da carga podiam julgar-se completamente perdidos.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 23 de Fevereiro de 1871)
--- Barca “Maria” ---
Esta barca naufragada na última segunda-feira, conserva-se ainda no Cabedelo, tendo, porém, principiado já a ser desfeita. Amanhã, Domingo, deve verificar-se no sítio da Cantareira, por conta das companhias de seguros «Garantia» e «La Española», de Madrid, ou de quem pertencer, a arrematação da referida barca, no estado em que estiver no referido dia. Ontem de tarde na baixa-mar, pode ser salva alguma carga e durante o tempo da preia-mar foi conseguido retirar o mastro da mezena.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 25 de Fevereiro de 1871)
--- Barca “Maria” ---
Ainda se conserva direito o casco da barca “Maria”, naufragada no dia 20 na restinga do Cabedelo. Tem continuado os trabalhos a fim de lhe ser tirada alguma carga, muito embora já se encontre muito arroz inutilizado. Os trabalhos de extracção da carga, tem também por fim aliviar o navio, com a finalidade de ver se ainda pode ser salvo. Por esse motivo não teve lugar no Domingo, na Cantareira, a arrematação que estava anunciada.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 28 de Fevereiro de 1871)
--- Barca “Maria” ---
Ontem de manhã desfez-se completamente o casco da barca “Maria”, que se achava encalhada na ponta do Cabedelo, perdendo-se por isso a esperança de o salvar.
Teve ontem lugar no cais da Nova Alfandega, a arrematação de alguns dos salvados da barca “Maria”, há pouco naufragada na restinga do Cabedelo. Foram arrematados 26 balões de linho cânhamo à razão de 1$490 réis cada 60 kilos. A arrematação continua hoje e nos dias seguintes.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 1 de Março de 1871)
--- Arrematação de salvados ---
Continuou ontem no cais da Nova Alfandega a arrematação dos salvados da barca “Maria”. Foram arrematados por diferentes preços os seguintes objectos, que faziam parte do carregamento; verguinha de ferro, pedra hume, galha, cal e goma-arábica. Presidiram à arrematação os srs. Francisco Rodrigues de Faria e o Dr. Carneiro. Esteve presente por parte do seguro o sr. A. Miller. No Domingo seguinte foram arrematados no mesmo local os mastros, velame, poleame e correntes que se salvaram, bem como os sobresselentes, que constam de tintas, óleo, louças e outros objectos.
(In jornal “Comércio do Porto”, de 2 de Março de 1871)