quarta-feira, 12 de outubro de 2011

História trágico-marítima (XLVIII)


Naufrágios em Viana do Castelo
(Idade média)

Navio mercante espanhol da carreira das Índias
Desenho de Robert Jackson
Imagem sem correspondência ao texto

Como mencionei previamente ao referir-me a Viana do Castelo e à importância do seu porto de mar, conferi recentemente a Lista de naufrágios de navios espanhóis da carreira das Índias, na costa portuguesa, tendo encontrado 3 registos abaixo discriminados.

Nau “Nuestra Señora de la Concepcion”
Naufragou dentro do porto de Viana, a 25 de Novembro de 1616, na viagem de regresso das Índias (local não especificado).
Nau “El Buen Jesus”
Naufragou em 1634 (data não especificada), no regresso duma viagem a Porto Rico.
Um patacho (nome não especificado),
que pertenceu a José Abadia, naufragou a 22 de Fevereiro de 1734, próximo do porto.

Os apontamentos utilizados na pesquisa, foram encontrados na lista acima mencionada, tendo como fonte documental o Arquivo Histórico da Câmara de Comércio, o Arquivo Geral das Índias e o Arquivo de Protocolos, todos com sede em Sevilha e ainda o Arquivo Geral de Simancas.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

História trágico-marítima (XLVII)


O vapor “ João Diogo “
1961 - 1963
Sofamar- Soc. de Fainas de Mar e Rio, Sarl., Lisboa

O vapor "João Diogo" encalhado nas Berlengas

Nº Oficial: I-351 - Iic.: C.S.H.H. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: J.C. Tecklenborg A.G., Gestemund, 1905
ex “Pluto”, Dampschiffs Ges. “Neptun“, Bremen, 1905-1916
ex “Sado“, Marinha de Guerra Portuguesa, 1916-1918
ex “Sado”, Exército Português/ T.M.E., Lisboa, 1918-1919
ex “Sado”, Transp. Marit. do Estado, Lisboa, 1919-1924
ex “Sado”, Soc. de Navegação, Lda., Lisboa, 1924-1927
ex “Alferrarede”, Sociedade Geral, Lisboa, 1927-1961
Arqueação: Tab 892,91 tons - Tal 855,73 tons
Dimensões: Pp 64,32 mts - Boca 9,73 mts - Pontal 3,97 mts
Propulsão: Tecklenborg, 1905 - 1:Te - 3:Ci - 116 Nhp - 9 m/h
Equipagem: 18 tripulantes

O naufrágio
Peniche, 8 - Cerca das 4 horas, o navio de carga “João Diogo” (antigo “Alferrarede”), pertencente à Sociedade Fainas de Mar e Rio, com 18 homens de tripulação, quando em viagem de Leixões para Lisboa, com minério de ferro, sob o comando do sr. Francisco Augusto Duarte, devido à forte neblina foi embater nos rochedos da Papoa, na costa norte desta península, ficando imobilizado e metendo água no porão da carga. Devido à agitação do mar e por desconhecimento da situação em que se encontrava o barco, a tripulação, depois de haver feito sinais para terra, que não foram vistos, passou para as baleeiras, fazendo-se ao mar. Apareceu, então, a traineira registada em Peniche “Praia Formosa”, que andava na faina da pesca, conduzindo a reboque as baleeiras para o seu porto de matricula.
O barco encontrava-se, soube-se depois, em situação difícil, podendo desde logo considerar-se perdido. Mais tarde, como o estado do mar permitisse uma operação de salvamento, o sr Comandante Andrade e Silva capitão do porto de Peniche, determinou a presença de uma equipa de mergulhadores, para uma meticulosa inspecção ao fundo do navio, na zona perfurada pelas rochas. O próprio capitão do porto, acompanhado dos srs. capitão Araújo, da Marinha Mercante e George Scheder Bieschin, gerente da empresa armadora, que, entretanto haviam chegado da capital, assistiram a essa demorada inspecção, apurando-se a impossibilidade de salvar o barco. De tarde, como o mar embravecesse, o casco começou a ser fustigado com maior violência, pelo que por volta das 14 horas, abria-se uma brecha no costado, de alto a baixo, por onde a carga começou a sair, a cada vez que o navio era sacudido por vagas alterosas. Apesar da chuva, na orla marítima e nos pontos altos de onde se podia avistar-se o navio, reuniu-se grande número de curiosos.
O antigo “Alferrarede”, cargueiro alemão lançado à água em 1905 e que pertenceu à Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, que há tempo o vendeu aos seus actuais armadores, era uma unidade de 1.452 toneladas, cujo porte bruto atingia 2.118 toneladas. Media 74 metros de comprimento e a sua máquina, original, desde quando o navio foi lançado ao mar, em 1905, tinha uma potência de 700 cavalos. Deve ser um dos mais velhos barcos mercantes portugueses, com quase sessenta anos de serviço, tendo navegado sob a bandeira alemã com o nome “Pluto”. O navio e a carga estão no seguro e procedia de Leixões. A carga era composta por um lote de minério das minas de ferro de Moncorvo, estando prevista a sua descarga em Lisboa, com destino à Siderurgia Nacional.
(In jornal “O Século”, de 9 de Novembro de 1963)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

História trágico-marítima (XLV)


O lugre-escuna “ Santa Maria “ (2)
1914 - 1917
Parceria de Pescarias de Viana, Viana do Castelo

Imagem sem correspondência ao texto

Nº Oficial: 57 - Iic.: H.D.N.P. - Porto de registo: Viana
Construtor: John Hutt, Liverpool, Nova Escócia, 1902
ex “Albani”, -?-, Liverpool, Nova Escócia, 1909-1914
Arqueação: Tab 204,00 tons - Tal 190,00 tons
Dimensões: Pp 33,80 mts - Boca 7,63 mts - Pontal 3,40 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 10 tripulantes (mais 26 pescadores)
Capitães embarcados: Manuel Mendes (1914 e 1915)

O naufrágio
Peniche, 11 - Chegaram a este porto os escaleres conduzindo 10 tripulantes do lugre-escuna “Santa Maria”, de Viana do Castelo, que vinha do Porto, com um carregamento de carvão destinado a Lisboa, quando foi torpedeado por um submarino alemão a 6 milhas ao sul das Berlengas. Antes do torpedeamento, os alemães apoderaram-se dos viveres.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 13 de Junho de 1917)

Em aditamento ao texto anterior, verifico uma curiosa trapalhada em relação aos dois lugres de Viana do Castelo, com o nome “Santa Maria”, instalando-se a confusão, por força da existência de duas versões distintas, pela repetição do mesmo nome em navios diferentes. Por um lado, em parte da documentação disponível, as características acima mencionadas deviam pertencer ao primeiro “Santa Maria”. No entanto, tanto oficialmente como em conformidade com o relatório do cap. Kurt Albrecht, que se encontrava a bordo do submarino alemão UC-53, no período de 5 de Abril de 1917 a 5 de Fevereiro de 1918, o mesmo atesta claramente ter sido este o lugre vitimado pelo ataque. Nesse mesmo relatório faz constar, que o lugre foi afundado a 10 de Junho de 1917, na posição 39º11’N 09º35’W, confirmando o local a 6 milhas náuticas a sul das Berlengas, quando o navio transportava um carregamento de carvão, com destino à colónia portuguesa da Guiné.
Porque o capitão do submarino alemão teve forçosamente acesso aos documentos oficiais do navio e ao manifesto da carga (e aparentemente dos viveres), parto do pressuposto que sabia exactamente qual foi o navio afundado, pelo que agora sou favorável a considerar este como o segundo “Santa Maria”, até prova em contrário.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

História trágico-marítima (XLIV)


A chalupa construída em madeira - “ Rasoilo & Cª. “
1899 - 1914
Armador: Bernardo Razoilo, Manoel F. Batata e outros, Aveiro

Nº Oficial: n/s > Iic.: H.J.R.P. > Registo : Cap. de Aveiro
Construtor: Não identificado, Vila do Conde, 1886
ex “Neves”, Proprietário desconhecido, 1886-??
ex “Rasoulo & Cª.”, Manoel F. Batata, F. Foz, 18??-1899
Arqueação: Tab 87,82 tons - Tal 83,42 tons
Dimensões: Desconhecidas
Propulsão: À vela, sem motor auxiliar
Equipagem: 6 tripulantes
Mestres embarcados: Manoel António Caravela (1913 e 1914)

Viana do Castelo, 15 - Em relação ao sinistro da chalupa “Rasoilo”, ainda não foram recebidas, até agora, noticias do destino da sua tripulação. Um marinheiro do vapor “Valhal”, a receber carga no porto, foi ontem a Guardia, de visita à família, trouxe a notícia de que ao norte do portinho daquela vila galega, fora avistado um navio desarvorado, tendo só um mastro. Como não fazia sinais para terra, suspeitou-se logo que não tinha ninguém a bordo e, portanto, foi dado conhecimento para Vigo, de onde saiu um rebocador, que levou o referido navio para aquele porto. Foi então que dali telegrafaram, dizendo que a referida embarcação era a chalupa “Rasoilo”, completamente rasa e sem ninguém a bordo. Continua a ansiedade e a esperança da sua tripulação ter sido recolhida por qualquer embarcação.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 16 de Novembro de 1913)

Embarcação abandonada
Acerca da chalupa “Rasoilo & Cª.”, referida no texto anterior, foi entretanto recebida a seguinte informação de La Guardia, com data de 14 do corrente, como segue:

Ontem pairou em frente da praia e bastante ao largo, uma embarcação desarvorada. Pelo rumo do vento, era suposto ser portuguesa – vinha corrida do sul. Foi imediatamente dado conhecimento ao cônsul, para serem tomadas providencias, mas, enquanto estas se discutiam, surgiu a ideia a um grupo de pilotos de solicitarem a saída do pequeno vapor de reboque da casa Candeira, o qual está sempre fundeado no rio Minho. Em virtude disso, não houve necessidade de contacto posterior, a lembrar da conveniência da vinda do “Tritão”, visto não constar que em Viana haja reboque para o mesmo fim. O mesmo mereceu a concordância do cônsul, que não chegou a pedir socorros a Vigo, pois a breve espaço de tempo foi vista a eficácia dos trabalhos de salvamento realizado pelo reboque “Candeira”, que conduziu a embarcação para Vigo.
Por telegrama dali recebido, sabe-se tratar-se da chalupa “Rasoilo & Cª.”, da praça do Porto, com carga de sal e diversas mercadorias. Estava completamente abandonada, ignorando-se ainda a sorte da tripulação, que tem sido procurada com afã pelos pescadores da costa.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 16 de Novembro de 1913)

Na madrugada de ontem entrou no porto de Vigo, o rebocador a vapor “Maria”, dos srs. Candeira Irmãos, de Campossancos, com uma chalupa portuguesa a reboque. Era a chalupa “Rasoilo & Cª.”, que ante-ontem tinha sido vista à mercê das ondas, em frente de La Guardia e que o referido rebocador tinha ido buscar. Era meio-dia quando um pratico do porto de La Guardia a viu e o comunicou ao ajudante de marinha. Este oficial solicitou o concurso do “Maria”, que os seus proprietários cederam imediatamente e, como o vapor não tinha dotação bastante para o reboque, embarcaram nele dois práticos e um marinheiro. Saiu o “Maria” em busca da referida embarcação à vela, que impedida pelo temporal ia dar à costa, sendo possível a meio da tarde estabelecer-se o reboque. A chalupa estava abandonada e com bastantes avarias.
O temporal tinha-lhe partido o mastro da mezena, rente à coberta. A cozinha, que estava situada ao pé do referido mastro, havia sido destruída por um golpe de mar e o fogão rolava pelo convés. Também estava desmontada a roda de leme. Logo à primeira vista se notava que a tripulação da chalupa, tinha lutado muito com o temporal. Para poder sustentar-se, depois de partido o mastro da mezena, foi improvisado um aparelho, estendendo uma vela desde o topo do mastro de popa, até à proa. O escaler via-se fortemente amarrado sobre o porão do centro.
Estabelecido o reboque, o “Maria” empreendeu a marcha em direcção a Vigo, já que o estado do mar não lhe permitia entrar em La Guardia, tendo por esse motivo só chegado a Vigo de madrugada. Pela manhã, o mestre do rebocador deu conhecimento de achado ao comandante de marinha, sr. Conde de Villar de Fontes, o qual ordenou que se procedessem às necessárias investigações.
Pela tarde, foi a bordo da chalupa o juiz de marinha sr. Carrero, com o secretário sr. Fernandez. Da busca efectuada a bordo, resultou serem encontradas numerosas cartas e outros documentos, pelos quais se deduz que o arrais da “Rasoilo & Cª.” se chamava Manuel António Caravela e era de Viana do Castelo. Achou-se também a bordo alguma roupa velha da tripulação. Não foi, porém, encontrado nem o rol de bordo, nem qualquer outra coisa de importância, não tendo ficado dúvidas que a embarcação foi abandonada pela sua tripulação e que esta, ao deixar a chalupa, levou somente o que podia ter algum valor.
A carga transportada pela “Rasoilo & Cª.”, consistia em sal, caixas de velas, barris vazios e duas quartolas, que parecem ser de azeite. A julgar pelo estado de conservação da chalupa, esta deve ter sido construída há uns vinte cinco anos. Também se deduzia das cartas encontradas a bordo, que a chalupa se dedicava à cabotagem entre Viana e portos do sul de Portugal.
Parece que o capitão do patacho “Soares”, também português, que durante os últimos temporais entrou em Vigo com o velame destruído, recebeu uma carta dos armadores da “Rasoilo & Cª.”, dizendo-lhe que esta havia sido abandonada e que se aparecesse pelas costas galegas lhe desse conhecimento. Nesta data será chamado o capitão do “Soares”, ao julgado de marinha, para prestar declarações.
A “Rasoilo & Cª.” é uma embarcação de 83 toneladas e, desde os últimos dias de Outubro, que deram início ao regímen tempestuoso, é o quarto navio de vela que entra avariado no porto de Vigo.
(In jornal “Faro de Vigo”, de 15 de Novembro de 1913)

Tripulação salva
Londres, 17 - Chegou ontem a Newport o vapor inglês “Scamby”, conduzindo a tripulação da chalupa portuguesa “Rasoilo & Cª.”, salva no mar ao largo da costa portuguesa. Os náufragos ficaram entregues ao cônsul português em Newport.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 18 de Novembro de 1913)

Como seria de prever, as negociações para recuperar a chalupa devem ter levado um considerável período de tempo, até ao seu regresso definitivo a Viana do Castelo. E, ao que tudo indica estaria em tais condições, muito próximo do inavegável, que levou à sua venda, nos moldes que o anúncio publicita:

(In jornal “O Comércio do Porto”, de 17 de Julho de 1914)

Apesar de tudo a venda foi consumada em 1914, a proprietários que não foi possível identificar. Desde este ano, eventualmente já desmastreada, veio para o Porto, ficando matriculada na Capitania do Douro, como fragata de carga. Depois deste último registo, lamentavelmente perde-se-lhe o rasto.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A pesca do bacalhau em Viana do Castelo


Os primeiros passos!…

Diz-nos a história, que a praça de Viana do Castelo é uma das mais antigas e com maiores tradições na pesca do bacalhau, tendo inclusive os seus marinheiros formado colónia na Terra Nova, desde o período quinhentista das navegações para norte, ou mesmo ainda em período anterior, na idade média, motivo que alicerça a nossa firme convicção, de que na cidade deve ter existido um polo marítimo de grande relevo.
Essa história sugere ter tido em paralelo uma praça forte na armação comercial, com enorme fluxo nas ligações entre o norte e o sul, mas também uma extraordinária representatividade de séculos, na ligação com os países da América do Sul, com principal incidência no Brasil.
Todavia, reportando-nos ao início do século XX, que felizmente está melhor documentado, a praça de Viana viveu dias austeros, com um pequeno grupo de armadores, a operar pequenas embarcações (iates e chalupas), quase todas vocacionadas para servir no tráfego de pequena cabotagem.

A escuna "Creoula" em Lisboa
Imagem de autor desconhecido

Ao contrário do que se possa imaginar, o primeiro armador nacional, com intenção de experimentar a descarga e secagem do peixe na margem sul do rio Lima, foi a empresa Bensaúde & Cª, já com sede em Lisboa, que seguindo o exemplo da Atlântica- Companhia Portuguesa de Pesca, ao desviar a sua frota de Lisboa para a Figueira da Foz, decidiu mandar a Viana do Castelo a escuna “Creoula”, para em fase experimental ali descarregar 25 toneladas de pescado. Mas a viagem não correu lá muito bem, como a seguir nos é dado constatar:

A chalupa “Creoula”, na ocasião que seguia de Lisboa para Viana do Castelo, pelas 10 horas da noite do dia 30 do mês findo (Outubro de 1913), apanhou forte temporal a oito milhas a oeste da barra de Vila do Conde, tendo perdido nesse período um dos seus tripulantes. Foi o marinheiro Manoel Rodrigues Bartholo, de 21 anos, natural de Ílhavo.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 7 de Novembro de 1913).

Como se pode verificar, para que fosse possível reactivar localmente a secagem de bacalhau, o início da promissora actividade tinha começado mal. Mesmo assim a aposta em experimentar as condições em Viana do Castelo foi mantida, sendo dado continuação ao projecto, nestes termos:

A escuna “Creoula”, pertencente à frota de pesca do bacalhau da firma Bensaúde & Cª., de Lisboa, que entrou no porto há dias, principiou a fazer a descarga do bacalhau pescado na Terra Nova, para ser seco nos terrenos da margem esquerda do Lima, sendo este o primeiro navio que aqui chegou, para experiência. Até ao momento tem sido descarregados de bordo parte dos 25 mil quilos de peixe, que, está afiançado, se o resultado for satisfatório os srs. Bensaúde & Cª., mandarão de futuro parte dos seus navios a Viana, montando na cidade escritórios e estufas, para uma larga secagem do seu bacalhau, empregando nesse serviço pessoal da terra.
..................................
A Sociedade de Pesca Vianense, aqui organizada para mandar navios aos bancos da Terra Nova, à pesca do bacalhau, já adquiriu três magníficos barcos, para o fim a que são destinados.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 9 de Novembro de 1913).

Em função daquilo que julgo saber, a aposta terá fracassado e os bacalhoeiros da frota da Bensaúde & Cª., que entretanto alterou a designação comercial para Parceria Geral de Pescarias, não regressaram a Viana. É muito provável, que um importante centro para escoamento de peixe seco estava próximo, no norte de Espanha, mas somos obrigados a admitir, que o fracasso da eventual exploração ultrapassasse os custos previamente calculados.

Quanto à Sociedade de Pesca Vianense, uma meia verdade, não é uma verdade, mas também não é uma mentira, porque no ano de 1913 não devia existir outra, senão a vontade de armar dois navios, aptos para seguir para a pesca do bacalhau. A realidade aponta no sentido de haver negociações, para a compra de dois navios e não três, que vieram a ser adquiridos pela empresa, já no decorrer de 1914, data que marca o regresso de Viana no século XX, à pesca nos grandes bancos.
Para o efeito a nova sociedade comprou em Baltimore, Estados Unidos, o lugre “Venus”, que viria a ser matriculado com o nome “Santa Luzia” e do mesmo modo adquiriu em Liverpool, pequeno porto na Nova Escócia, Canadá, um outro lugre de nome “Albani”, que se encontrava a navegar com pavilhão Inglês, ficando registado com o nome “Santa Maria”. Perseguida pelo azar, a sociedade perde o navio, quando a 28 de Fevereiro de 1914, por motivo de escassez de vento e agitação do mar, na sua primeira viagem, o lugre naufraga à entrada da barra de Viana. Por esse motivo a empresa vê-se na necessidade de comprar um segundo navio, desta feita em Faversham, Inglaterra, onde estava matriculado com o nome “Fyn”. Também este lugre foi rebaptizado com o nome “Santa Maria”, tendo participado nas campanhas de 1914 a 1916 e mais não pode pescar, por ter sido afundado por um submarino alemão, por altura das Berlengas a 10 de Junho de 1917, durante uma viagem de comércio.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

História trágico-marítima (XLIII)


O cruzador “ Adamastor “
1897 - 1934
Marinha de Guerra Portuguesa

É normal nos meus escritos, não falar muito sobre os encalhes dos navios da Armada, porque pouco se sabe e porque não é desejável que se saiba, pelo menos mais do que se pode considerar absolutamente necessário. Só recordo alguns sinistros, ou incidentes, porque a notícia ficou para sempre registada nos jornais e porque, como neste caso, estão já decorridos cerca de 100 anos.
Como o acidente teve lugar durante o ano de 1913, durante a viagem entre Macau e Hong-Kong, no regresso de mais uma honrosa comissão, naquela que durante muitos anos foi a nossa pérola do oriente, imagino que a notícia tenha ficado refém no respectivo ministério, até porque o cruzador foi desencalhado e por conseguinte capacitado a concluir a viagem até Lisboa.
Quem quiser e estiver interessado, para complementar esta informação, recomendo uma visita à wikipédia e à notícia publicada online, na revista da Armada, sobre a fantástica carreira e utilidade do navio, nos vários palcos onde esteve presente. Para que conste, sobre este navio foram escritas páginas de glória, que muito honraram a marinha portuguesa, até ao seu abate, ocorrido durante o ano de 1934, após completar 41 anos de serviço.

O cruzador "Adamastor" em Lisboa
Postal Ilustrado

Construtor: Fratelli Orlando, Livorno, Itália, 13.07.1896
Deslocamento: Máximo 1.964,00 tons - Standard 1.757,00 tons
Dim.: Ff 79,62 mts - Pp 73,81 mts - Bc 10,73 mt - Ptl 6,50 mts
Propulsão: Ansaldo (?) - 2:Te - 2x4:Ci - 2.000 Nhp - 17,2 m/h
Equipagem: 206 tripulantes
Vendido a F.A. Ramos & Cª., de Lisboa, foi demolido em 1934.

O encalhe do “Adamastor”
Julgamento
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Lisboa, 24 de Janeiro de 1914
Nas salas do conselho de guerra da marinha, realizou-se hoje o julgamento do capitão-tenente sr. Aníbal de Souza Dias, por causa do encalhe do cruzador “Adamastor”, entre Macau e Hong-Kong. Pouco passava do meio-dia quando se constituiu o tribunal, vendo-se nos corredores muitos oficiais superiores da Armada e do Exército e vários amigos do acusado.
Ocupava a presidência o capitão de mar e guerra sr. Alves Loureiro e o júri era composto pelos capitães-tenentes srs. Ayres de Souza, Paiva Amado, Leotte do Rego, Souza e Faro, Júlio Milheiro e Barbosa Bacelar, este último como suplente. Face às explicações prestadas, recebidas com plena compreensão dos motivos apresentados, o capitão-tenente sr Aníbal de Souza Dias, foi absolvido.
In jornal “O Comércio do Porto”, de 25 de Janeiro de 1914)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Divulgação


Aporvela - Forum Jovens e o Mar