sábado, 13 de agosto de 2011

Divulgação



Descubra como embarcar num grande veleiro
e numa aventura inesquecível!


A Aporvela volta a efectuar uma viagem no “Creoula” no âmbito do programa “Jovens e o Mar” que todos os anos faz embarcar dezenas de jovens portugueses numa aventura inesquecível em grandes veleiros, tanto em Portugal como no estrangeiro. De 3 a 6 de Setembro, mesmo antes do início das aulas, os aspirantes a velejadores vão poder aprender tudo sobre o que é estar no Mar: ver cartas náuticas, estar ao leme, lavar o convés, ajudar a preparar as refeições, fazer turnos, ver o nascer do sol no Mar, aprender a fazer nós e a trabalhar em equipa. E vão fazê-lo num dos mais belos e grandes veleiros do mundo, um autêntico repositório da tradição marítima portuguesa.
Para que ninguém fique a ver navios, estamos a oferecer uma promoção irresistível para os jovens entre os 15 e os 25 anos:
Datas: 3 a 6 de Setembro de 2011
Itinerário (dependente do estado do mar):
Alfeite - Berlengas - Sesimbra - Alfeite

Até 16 de Agosto: só 130€
De 17 a 23 de Agosto: 150€
De 24 a 30 de Agosto: 180€
A partir dos 26 anos: 250€


O “Creoula” é um lugre de quatro mastros e 67 metros de comprimento com capacidade para 51 instruendos. O treino de mar é assegurado pela guarnição da Marinha Portuguesa, propositadamente reduzida para que os jovens participem nas manobras e tarefas. A bordo segue ainda uma equipa de monitores da Aporvela que vão organizar os turnos, promover a animação geral da tripulação e fazer workshops temáticos ligados ao Mar.

Contactos importantes:
As reservas de lugares e pedidos de informação devem ser feitas para a Aporvela: geral@aporvela.pt ou 934081112.
Mais informação em http://www.aporvela.pt/wp/?page_id=1279
Travessa do Conde da Ponte, nº 8 r/c
1300-141 Lisboa
Tel: +351 218 876 854
Fax: +351 218 873 885
Mob: +351 934 081 112
caravela@aporvela.pt
www.aporvela.pt
aporvela.blogspot.com
Facebook: Aporvela

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

História trágico-marítima (XXX)


O ataque ao " Desertas "

Ílhavo, 5 – Um submarino alemão, que apareceu à vista da barra de Aveiro, canhoneou o vapor “Desertas”, ali encalhado desde 16 de Novembro de 1916, sem ter conseguido atingir o alvo. Imediatamente, da base naval francesa voaram dois hidroaviões, que procuraram bombardear o submarino, mas este submergiu, sendo perdido de vista.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 6 de Setembro de 1918)

O vapor "Desertas" encalhado na Costa Nova
Foto de Henrique Ramos - Arquivo Digital de Aveiro

Ílhavo, 6 – Ontem, cerca das 4 horas da tarde, um submarino alemão bombardeou o vapor “Desertas”, há tempo encalhado perto da Costa Nova e que em breve será posto a navegar, depois de custosos e arriscados trabalhos hidráulicos. Do ataque foram ouvidos fortes detonações de canhão, vindos do lado do mar. As pessoas que acorreram a ver do que se tratava, puderam distinguir perfeitamente um grande submarino, que navegava a pouca distancia da praia. Pouco depois o bombardeamento recomeçou intensamente, sendo alvejado o vapor “Desertas”, as dragas que trabalhavam no seu salvamento e as oficinas provisórias ali instaladas. O numeroso pessoal que ali trabalha, talvez perto de 200 pessoas, tomadas de um pânico indescritível, procuraram salvar-se, umas fugindo numa correria vertiginosa, outras lançando-se por terra. Dentro em pouco, todo o local se achava envolto por densas nuvens de fumo e areia, que as granadas produziam.
Os banhistas da Costa Nova, que tinham acorrido a presenciar o estranho acontecimento, tiveram rapidamente a visão de uma grande catástrofe, tal era o espectáculo horroroso e imprevisto a que estavam assistindo. E, assim, aterrados, gritos aflitivos se ouviam por toda a praia, aquela hora extraordinariamente concorrida. Receando que o bombardeamento atingisse os prédios, todos procuraram pôr-se a salvo, tomando a estrada da Barra em direcção a Aveiro e a maior parte embarcando para fazer a travessia da ria, em direcção à margem da Gafanha, para alcançarem Ílhavo. Como tudo foi feito sobre uma forte impressão de terror, aconteceram desmaios, cenas lancinantes e pequenos desastres, chegando a cair algumas pessoas à água na precipitação da fuga. Mas, decorrida talvez meia hora, o bombardeamento parou e pode verificar-se que os seus resultados não tinham sido como antecipadamente se previra. Apenas uma das dragas sofreu pequenas avarias, não havendo desastres pessoais de grande importância.
Decorrida cerca de 1 hora, da estação naval francesa de S. Jacinto elevaram-se alguns hidroaviões que seguiram em direcção ao mar, procurando atacar o submarino, chegando até a lançar algumas bombas, mas sem resultados práticos Receia-se que novo ataque venha a dar-se, pois há fortes razões para julgar que os alemães sabem que o “Desertas” vai, finalmente, ser posto a navegar e procuraram, antes disso, inutilizá-lo. Convém tomar medidas que contrariem o seu empenho. O caso é que este não esperado incidente, aliás de bastante gravidade, veio alarmar toda a colónia de banhistas da linda praia da Costa Nova, tendo-se dado nestes dias um verdadeiro êxodo. Mas a serenidade deve regressar em breves dias, tudo voltando ao estado primitivo, continuando o entusiasmo e animação, que são tradicionais naquela ridente praia.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de Domingo, 8 de Setembro de 1918).

O vapor “ Desertas “
1916 - 1921
Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

O "Desertas" a aguardar maré propícia para sair de Aveiro
Foto-postal na Costa Nova - Imagem de autor desconhecido

Ctr.: Flensburger Schiffsbau AG, Flensburg, Alemanha, 10.1895
ex “Thekla”, Kingsin Linie, Bremen, Alemanha, 1895-1898
ex “Wittenberg“, Norddeutscher Lloyd, Bremen, 1898-1912
ex “Hochfeld », Continentale Reederei, Hamburgo, 1912-1916
Arqueação : Tab 3.689,00 tons - Tal 2.363,00 tons
Dimensões: Pp 108,10 mts - Boca 12,80 mts - Pontal 7,98 mts
Propulsão: Flensburger, 1895 - 1:Te - 10 m/h

O “Desertas” foi um navios requisitados pelo governo português à Alemanha, em Fevereiro de 1916, quando este se encontrava amarrado na baía do Funchal, desde o decorrer de 1914, para evitar a sua captura por qualquer das marinhas dos países aliados. Posto ao serviço do estado, foi fretado ao governo inglês, através da empresa Furness, Withy, até encalhar a 18 de Novembro, na Costa Nova, cerca de 4 milhas a sul do farol de Aveiro, por motivo de forte agitação marítima. Tentado o seu desencalhe, foi aberto um canal de ligação à ria de Aveiro, tendo os trabalhos sido concluídos a 20 de Março de 1920, data em que o vapor reflutuado saiu com destino a Lisboa. Ainda nesse ano o navio sofreu uma considerável reparação, regressando ao serviço do governo do país. Em 1921 alterou o nome para “Mendes Barata”, em agradecimento ao engenhoso comandante do mesmo nome, responsável pela sua recuperação.
Entre os anos de 1926/ 1927 foi adquirido pela Companhia Colonial de Navegação, que lhe manteve o nome, até à sua venda para demolição em Scheveningen, na Holanda, durante Outubro de 1927.

Decorridos quase 100 anos sobre o incidente, não encontro referência ao submarino, que levou a cabo o surpreendente e esporádico canhoneamento ao “Desertas”, pela não existência do relatório correspondente. Essa omissão sugere que o episódio de guerra, foi deliberado pela estrutura militar e meticulosamente preparado, visando a total ou parcial destruição do navio. Só assim se entende a aproximação do submarino a curta distancia da linha de costa, sabendo estar numa área perigosa de fácil acesso a uma fatal retaliação.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

História trágico-marítima (XXIX)


O afundamento da galera “ Graciosa “

Náufragos
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Chegaram a Lisboa os 20 náufragos do navio “Graciosa”, torpedeado na costa de Inglaterra, entre os quais o capitão Armando Bettencourt, o 1º oficial Fernando Ferreira e o 2º oficial Bartolomeu Sequeira.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 24 de Setembro de 1918).

No dia de ontem, passaram pelo Instituto de Socorros a Náufragos os tripulantes do vapor “Graciosa”. Foram-lhes dados socorros pecuniários e guias de passagem para as terras das suas naturalidades.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 25 de Setembro de 1918).

A galera “ Graciosa “
1916 - 1918
Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Nº Oficial: 353-E - Iic.: H.G.R.A. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: Russel & Co., Port Glasgow, Escócia, 1890
ex “Strathgryfe”, Strathgryfe Shipping Co., Inglat., 1890-1906
ex “Margretha” - H.H. Schmidt, Alemanha, 1906-1916
Arqueação : Tab 2.276,00 tons - Tal 2.190,00 tons
Dimensões : Pp 95,03 mts - Boca 14,25 mts - Pontal 8,29 mts
Propulsão : À vela, sem motor auxiliar
Equipagem: 20 tripulantes

Depois da majestosa galera “Thermopylae”, entretanto transformada em barca e incorporada na Armada como “Pedro Nunes”, lamentavelmente afundada em 1907; do clipper “Thomas Stephens”, que também esteve ao serviço da Marinha como “Pêro de Alenquer”, naufragado em viagem de comércio, de regresso de uma viagem à América em 1916; da galera “Argo” e da barca “Santa Maria”, ambas afundadas por submarino durante a guerra e da galera “Graciosa”, canhoneada pelo submarino alemão U-90 do cap. Helmut Patzig, pode praticamente dar-se por terminado o ciclo de grandes veleiros rápidos de transporte de mercadorias, que navegaram com a bandeira portuguesa.
A galera “Graciosa”, que se encontrava sob fretamento ao governo Inglês, sobre administração da companhia Furness, Withy, foi afundada ao largo da costa noroeste da Escócia, na posição 59º06’N 05º00’W, transportando um carregamento completo de carvão, quando em viagem de North Shields para o Lobito, no dia 24 de Agosto de 1918.

sábado, 6 de agosto de 2011

Porto de Leixões


O passado, o presente e o futuro

Pagina do jornal de "Notícias", de 5 de Agosto p.p.

Não posso deixar de mostrar a minha satisfação, face à notícia de ontem, certamente publicada em todos os jornais, apesar de ter optado pelo texto e imagem do jornal de “Notícias”. Entre outros motivos, pelo facto de ter sugerido já há alguns anos, entre outras possibilidades de incremento do turismo marítimo, a ligação porto/ aeroporto a quem de direito, obviamente pessoa competente e interessada nestes assuntos. Porque o porto, depois do acentuado decréscimo nas escalas de navios convencionais de transporte de mercadorias, abria espaço para um aumento gradual à navegação de cruzeiros. Melhor ainda, previa então a possibilidade do porto satisfazer condições para permitir escalas técnicas (turn-around), face à provável colaboração a combinar com as companhias de aviação, que operam no serviço low-cost, bastando para isso a garantia que os passageiros a embarcar ou desembarcar em Leixões, pudessem gozar do privilégio de prioridade nas deslocações e algumas facilidades em termos de bagagem a transportar. Face ao exposto, só posso congratular-me por saber que outras ideias poderão surgir nos contactos em curso e mais ainda pelos melhoramentos, com a adjudicação da futura gare marítima, que alem da excelente obra programada de arquitectura, possa simultaneamente ser pratica e funcional, além dos indispensáveis novos arruamentos.

Gare marítima de Leixões em 1900

Devo lembrar que Leixões, foi durante muito tempo a porta de saída a uma inimaginável quantidade de emigrantes, para os mais variados continentes e porto de escala para passageiros e tripulantes de transatlânticos de consideráveis dimensões. A imagem da gare marítima do princípio do século vinte, um singelo e pitoresco barraco de madeira, garantidamente serviu os fins em vista, até à construção de uma saia que circundou o edifício do posto semafórico, visível na foto, que serviu ainda de estação dos correios, até à construção da mais recente gare marítima, ainda em serviço. Para tanto movimento de visitantes, nesses tempos, revelaram-se fundamentais os hotéis e pensões que existiram na área adjacente ao porto, entretanto desaparecidos, bem como os comboios que saíam da estação de Leça, posteriormente substituídos pelos carros da companhia carris, na ligação ao Porto, compostos pelo eléctrico motorizado e três atrelados, sendo que o último servia exclusivamente para o transporte de bagagens.

Futura gare marítima de Leixões, prevista para 2014

Por toda esta tradição histórica na ligação terra-mar, o porto de Leixões através dos seus anteriores e actuais responsáveis estão de parabéns, pela concretização duma obra, mais uma, que enche de orgulho o norte, permitindo potenciar uma região, que tem muito para mostrar a quem nos visita e muito a ganhar em termos logísticos e económicos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

História trágico-marítima (XXVIII)


O afundamento da traineira " Primorosa "
Ao largo de Leixões, em 7 de Setembro de 1918

Acho que depois dos vários relatos com notícias de naufrágios, que se ficaram a dever a actos de guerra, na sua totalidade por acção dos submarinos alemães, é difícil imaginar, que por mau carácter ou falta de escrúpulos, houvesse quem ousasse tirar vantagem dessa actividade nefasta, que julgo saber ser por todos repudiada.
Ao longo dos anos tenho vindo a compreender a rudez da labuta diária dos pescadores, situação comum às diferentes áreas de actividade, tal como me apercebo das dificuldades e múltiplas carências dos familiares, seguramente mais graves nos muitos anos anteriores à revolução de Abril de 1974. A estes argumentos posso ainda acrescentar a fiscalização que lhes é movida, através dos meios policiais, que mais não fazem do que obrigar à utilização de determinadas artes, conforme as leis que vão sendo publicadas e que visam a preservação das espécies e a diminuição das capturas, na defesa de interesses ambientais e ecológicos.
Da mesma forma consigo ainda entender, que o risco da utilização de artes com redes de tamanho ilegal, ou até mesmo de redes vadias, deixadas a toa no mar sem a respectiva sinalização, quantas vezes ajudam a melhorar o parco pecúlio da classe, principalmente nos períodos de pouca abundância de peixe!
O que nunca vou entender, é que se utilizem mentiras para dar cobertura a processos criminosos, na procura gananciosa de pouco trabalho e lucro fácil. Provavelmente a ilegalidade existirá à tanto tempo, quanto a própria pesca, repetindo-se a miúdo, cada vez que uma embarcação ia pelos ares, acrescentado mortes e miséria. Senão vejamos:

Submarinos na nossa costa
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A noite passada constou na cidade, que por volta da meia-noite, um submarino inimigo aparecera a sudoeste de Leixões, atacando umas traineiras da pesca, que pairavam naquelas alturas. Os primeiros pormenores apontam para que de facto, antes da meia-noite, a duas milhas da costa, um submarino rompera fogo contra umas traineiras de pesca, sendo atingida pelo canhoneio a “Primorosa”, que estava muito próximo do molhe sul do porto de Leixões, sendo metida no fundo.
Isto deu lugar a grande alarme, vindo para a praia, num berreiro ensurdecedor as numerosas pessoas das famílias dos pescadores que estavam no mar. O alarme foi até às casas voltadas para a praia, tendo fugido muitas famílias e sendo suspenso um baile, que se realizava numa delas.
A “Primorosa”, ao que se sabe tinha 30 tripulantes, dos quais não se sabia o destino, até que mais tarde entrou em Leixões a traineira “Independência”, trazendo seis dos náufragos, ignorando-se a sorte dos restantes.
Alguns barcos saíram de Leixões depois da meia-noite, parte dos quais tripulados por praças da base naval francesa, que foram em busca de náufragos. Na praia de Matosinhos constou que outra traineira havia sido atingida pelos projecteis do submarino; mas até à madrugada nada se tinha confirmado. O submarino não se demorou muito e seguiu com rumo a sul. Algumas traineiras conservaram-se no mar e outras regressaram a Leixões.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 8 de Setembro de 1918).

O naufrágio da traineira “ Primorosa “
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Tem sido muito comentado o caso do naufrágio da traineira “Primorosa”, já anteriormente referido. O que tem dado lugar a esses comentários é o facto de não ter sido registado oficialmente a presença de qualquer submarino nas proximidades de Leixões e de se ter espalhado que o naufrágio fora devido à explosão de um cartucho de dinamite que levava a bordo.
Pela Capitania do porto de Leixões está sendo feito um inquérito, tendo ali sido ouvidos alguns dos tripulantes da “Primorosa”, os quais, continuaram a afirmar que entre a praia do Senhor da Pedra e a barra do Douro, avistaram um submarino, que torpedeou a traineira e por tal forma lhe acertou, que a partiu ao meio, soçobrando em poucos segundos, tendo ficado desde logo morto a bordo o tripulante Francisco Passos. O certo é que nenhuma outra traineira, das que andavam perto, avistou o tal submarino e a todos causou estranheza o facto de se empregar um torpedo para tão pequena embarcação.

Matosinhos, 9 – A população da beira mar de Matosinhos foi alarmada cerca das 11 horas e meia da noite de sábado com o apitar continuo das traineiras que apressadamente recolheram à bacia de Leixões. Claramente que quem tinha pessoas de família no mar e os que tinham lá os seus interesses se assustaram e num momento a gritaria era ensurdecedora. O caso foi relatado assim: A traineira “Primorosa” foi afundada por um submarino próximo ao Castelo do Queijo e outra traineira que não se sabe qual seja teve igual destino. Foram estas as primeiras notícias que correram de boca em boca. Entretanto da traineira “Independência”, que chegava a todo o vapor a Leixões eram desembarcados seis pescadores tripulantes da “Primorosa”, contando que cerca das 11 horas, a 3 milhas a oeste do Senhor da Pedra, estando o seu barco parado e o pessoal respectivo a compor uma avaria na rede, foram repentinamente surpreendidos com a detonação que sentiram vir da parte de baixo da traineira e imediatamente viram saltar pelos ares partes do tombadilho, mastro, chaminé, etc. Os gritos de socorro foram indescritíveis, saltando para a xalandra 17 homens, número bastante superior ao que esse pequeno barco pode suportar, ficando seis no mar a debater-se com as ondas. Estes foram socorridos pela traineira “Independência”, que os conduziu a Leixões e foram eles que trouxeram as primeiras notícias. Na madrugada chegavam os 17 tripulantes na xalandra, exaustos de forças por terem de remar, já que continuadamente tinham de esgotar a água que entrava no frágil barco. Porque é que a traineira “Independência” não salvou os restantes tripulantes que deviam andar na água? Explica o mestre que quando estava recolhendo os náufragos ouviu dizer que a “Primorosa” fora atacada por um submarino e isso impôs-lhe o dever de se retirar, o que fez, deixando o tripulante «Chico da Mulata» na sua xalandra para ele socorrer os outros homens, pois ainda que o submarino o visse mal nenhum faria à xalandra. O caso é que o «Chico da Mulata» vendo-se sozinho remou para terra sem ter visto mais nenhum pescador na água.
Morreram, portanto, o maquinista Manoel Pereira da Silva e os pescadores da companha Francisco Passos, casado, de Viana do Castelo; António Vaz, casado, de Ancora; António Verde, casado e José Manco, casado, ambos da Póvoa de Varzim. Todos deixam filhos em precárias circunstâncias, como é fácil de prever.
Esta é a informação encontrada disponível, de como se passaram as coisas. O que foi, porém, que fez afundar a “Primorosa”? A ideia do submarino parece estar de parte, porque nenhum dos tripulantes de alguma traineira, que de mais a mais rodeavam a “Primorosa” o viu. A corrente intensa é de que se deu uma explosão a bordo da “Primorosa”. Nas caldeiras? Se se confirma o que se relatou desse barco, positivamente a explosão não se deu nas caldeiras. Há quem diga que a “Primorosa” trazia matéria explosiva a bordo para lançar ao mar e forçar a sardinha a vir ao cimo da água e que a explosão se deu nessas matérias. Será assim? O inquérito que corre na Capitania é que o vai aclarar. Se o barco trazia esse material, que nos dizem ser «pratica corrente» em alguns pescadores menos escrupulosos, justo é que isso se apure e se reprima essa pratica, que as leis certamente proíbem e não será difícil que isso se apure, pois há alguns donos de traineiras que estão sendo prejudicados pelos que matam o peixe com dinamite ou acetilenos; uma rigorosa fiscalização dos barcos e dos pescadores, antes da saída de Leixões, não deixaria de dar o resultado desejado.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 10 de Setembro de 1918).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

História trágico-marítima (XVII)


O afundamento do “ Neptuno “

O vapor " Neptuno " - atacado e afundado
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No dia 27 de Janeiro saiu do Tejo, com destino ao Funchal, o vapor português “Neptuno”, pertencente ao sr. João de Freitas Mathias, daquela praça e do qual é consignatária em Lisboa a firma António Pedro da Costa & Comandita.
A 140 milhas da costa portuguesa um submarino alemão de grandes dimensões e que se presume ser o mesmo que torpedeou os vapores de pesca “Germano” e “Serra do Gerez”, sem aviso prévio torpedeou-o e meteu-o no fundo.
A tripulação, que se compunha, além do comandante, sr. Joaquim Labrincha, natural de Ílhavo, de mais 13 homens, uns naturais da Madeira e outros da terra do capitão, apenas teve tempo de salvar algumas roupas que vestia, acontecendo que aqueles que estavam repousando, como sucedeu ao capitão, entraram na baleeira em roupas brancas e descalços.
Os 14 homens, dentro de uma única baleeira, pois o inimigo nem tempo lhes deu para arriar uma outra que tinham a bordo, lutaram desde o dia 28 até ao dia 30 com enormes vagas, navegando sempre em direcção à nossa costa.
Quando os infelizes náufragos andavam no mar do Cabo da Roca, foram vistos pela estação semafórica de Oitavos, que imediatamente participou para Cascais qual era o seu paradeiro.
Um caça-minas foi então ao encontro dos náufragos, recolhendo-os quase exaustos e molhados, conduzindo-os para Belém, onde desembarcaram. O capitão telefonou para o consignatário, pedindo auxílio, roupas, etc.
O “Neptuno” deslocava 300 toneladas e levava um importante carregamento, composto por 1.300 sacos com arroz, 200 fardos de bacalhau, 150 caixotes com fósforos, 15 toneladas de figos, 500 sacos com enxofre, louças, vidros, etc., tudo avaliado em cerca de 80 contos. Parte da carga estava segura, bem como o barco. Além deste carregamento, o “Neptuno” levava 119 malas de correio, embarcadas em Lisboa, assim discriminadas: 57 de Lisboa, 10 da América do Norte para o Funchal, 15 da América do Sul para o Funchal, 16 da África Oriental e 4 do Porto. Com registo transportava 17 malas.
O navio tinha recebido ultimamente em Lisboa consideráveis reparações e a próxima viagem que se propunha fazer era do Funchal para Bordéus, com carregamento de vinho.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 31 de Janeiro de 1918).

Analisados todos os elementos da notícia supra, está confirmado que este navio foi afundado pelo submarino alemão U-152, do comando do cap. Constantin Kolbe, em cujo relatório referia ter mandado parar o “Neptuno”, a 140 milhas de Lisboa, nas coordenadas 37º12’N 11º37’W, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Funchal. Que a bordo foi encontrada carga diversa, alimentos e correspondência.

Vapor construído em madeira “ Neptuno “
1916-1918
Companhia de Navegação Madeirense, Lda.
(João de Freitas Mathias, Funchal, Madeira)

Nº Oficial: 869 - Iic.: H.B.T.V. - Porto de registo: Funchal
Construtor: J.S. White, Cowes, Inglaterra, 1867
ex “Elisabeth”, (proprietário desconhecido), 1867-1900
ex “Maria”, Manuel Gonçalves, Funchal, 1900-1916
Arqueação: Tab 178,30 tons - Tal 115,57 tons
Dimensões: Pp 38,80 mts - Boca 7,20 mts - Pontal 3,90 mts
Propulsão: Day Summer & Co, 1867 - 1:Cp - 2:Ci - 33 Nhp
Equipagem: 14 tripulantes

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

História trágico-marítima (XXVI)


O afundamento do iate " Vouga "

Náufragos que se apresentam
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No Instituto de Socorros a Náufragos apresentaram-se a 11 de Setembro os tripulantes do iate “Vouga”, afundado no Golfo da Biscaia por um submarino inimigo. Foram-lhes dados socorros pecuniários e guias de passagem para as terras das suas naturalidades.
(In jornal “O Comércio do Porto”, de 12 de Setembro de 1918).

Iate “ Vouga “
1918 - 1918
Francisco dos Santos Victória, Lisboa

Nº Oficial: A-154 Iic.: H.K.C.V. - Porto de registo: Lisboa
Construtor: António Dias dos Santos, Fão, 1890
ex “Gomes Iº, Joaquim Gomes Soares e outros, Fão, 1890-1899
ex “Gomes Iº”, Francisco F. Gaifem, V. Castelo, 1899-1901
ex “Gomes Iº”, António F. Gaifem, V. Castelo, 1901-1909
ex “Gomes Iº”, Carlos P. L. Moreira & Cª., Esposende, 1909-1909
ex “Gomes Iº”, José Joaquim Gouveia, Porto, 1909-1910
ex “Tricana”, José Joaquim Gouveia, Porto, 1910-1917
ex “Vouga”, Empresa do Sal, Lda., Aveiro, 1917-1918
Arqueação: Tab 96,32 tons - Tal 91,50 tons
Dimensões: Pp 25,66 mts - Boca 6,80 mts - Pontal 2,45 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 7 tripulantes

Conforme explicado no texto da notícia acima referida, confirma-se que o iate “Vouga”, foi afundado pelo submarino alemão U-43, sob o comando do cap. Johannes Kirchner, quando se encontrava a navegar ao largo da costa Noroeste de Espanha, no golfo da Biscaia, a 3 de Agosto de 1918. Recordamos que se completam amanhã 93 anos, sobre este lamentável incidente de guerra.