quarta-feira, 30 de setembro de 2015

1935 – O Ano marítimo


Aumento dos efectivos da marinha nacional
Conclusão da primeira fase do programa naval
Organização da aviação marítima


No ano de 1935 a armada nacional viu aumentados os seus efectivos do maior número de navios de que há memória nos tempos modernos. De facto, foram incorporados na marinha as seguintes unidades, pertencentes à primeira fase do programa naval: avisos de 1ª classe – “Afonso de Albuquerque”, em 30 de Janeiro, e “Bartolomeu Dias” em 15 de Maio – construídos em Inglaterra; aviso de segunda classe “Pedro Nunes” em 11 de Abril, construído no Arsenal de Marinha, segundo os planos do engenheiro construtor-naval Silvério de Sousa Mendes; contra-torpedeiros “Dão”, em 5 de Janeiro; “Tejo”, em 12 de Outubro”, ambos construídos em Lisboa, nos estaleiros da Sociedade de Construções e Reparações Navais, navios em tudo iguais ao “Vouga” e ao “Lima” de construção inglesa; submersíveis “Espadarte”, em 9 de Janeiro e “Golfinho”, em 28 de Fevereiro, construídos em Inglaterra.
Com a entrada em serviço do contra-torpedeiro “Douro”, que está a realizar experiências e do aviso de segunda classe “Infante D. Henrique” (a), que brevemente será lançado ao mar, fica completa a primeira fase do programa naval, tendo entrado a fazer parte da marinha nacional os seguintes navios: avisos de primeira classe “Afonso de Albuquerque” e “Bartolomeu Dias”, avisos de segunda classe “Gonçalo Velho”, “Gonçalves Zarco”, “Pedro Nunes” e “Infante D. Henrique” (a), submarinos “Delfim”, Espadarte” e “Golfinho”, contra-torpedeiros “Vouga”, “Lima”, “Dão”, “Tejo” e “Douro”.
Bem longe estamos porém, de possuir a força necessária à nossa defesa naval, expressa no programa mínimo aprovado. O que existe representa, porém, já, um esforço considerável, se atendermos a que quase nada possuímos de valor militar. Torna-se necessário consolidar este primeiro passo na nova reconstituição naval, dotando a marinha dos restantes meios exigíveis à sua eficiência e, designadamente, da sua base naval, com todas as suas obras, os seus serviços logísticos e as suas defesas locais.
A marinha não se improvisa, e isto é tão verdade quanto ao seu material, como quanto ao seu pessoal, o qual precisa de ser recrutado e instruído com previsão e com tempo. Para isso as escolas da marinha têm dado o maior incremento aos seus trabalhos, de forma a acompanharem o ritmo do desenvolvimento do material e a fornecerem o pessoal necessário devidamente instruído.
Na sua exposição feita ao país em 20 de Setembro, o sr. Presidente do Conselho dizia: «Não sei se há algumas modificações a introduzir na segunda fase da reorganização da armada ou nos planos dos navios, nem tenho ainda bem claras no meu espírito a forma e prazo da sua execução. Entretanto tudo o que respeita à Escola Naval, Arsenal e construções complementares para a base naval do Alfeite tem sido realizado ou está estudado para sê-lo em curto prazo».
A proposta de lei de autorização das receitas e despesas para o ano de 1936 considera a ampliação das obras marítimas e das instalações terrestres do pessoal, no Arsenal do Alfeite, para o estabelecimento da base naval de contra-torpedeiros e submersíveis e a continuação do plano relativo à aviação naval.
Não deixarão, certamente, de ser consideradas outras instalações, como as relativas a depósitos de combustível líquido e à organização de defesa da base, que será naturalmente para todos os navios ligeiros de superfície. Conforme os modernos preceitos de organização das bases navais, convém, como medida de defesa contra os ataques aéreos, dispersar as instalações e assim é natural que a base de submersíveis venha a ser colocada suficientemente apartada da dos navios de superfície; igualmente a base de aviação, que carece de novas instalações, terá de ser disposta atendendo àquele princípio.
Deduz-se das declarações oficiais que durante o próximo ano ficará provavelmente suspensa a continuação das construções navais, para ser concentrado o esforço financeiro na formação de uma aviação marítima em equilíbrio com o desenvolvimento naval. De facto, no momento presente, sente-se de forma bem palpável a sua necessidade. A defesa naval, em geral, e especialmente a defesa da base naval principal, requerem uma força aérea considerável, que urge construir, tanto na parte terrestre, como na naval, ao mesmo tempo que se torna indispensável definir e limitar os campos de actividade de uma e de outra.
(a) O aviso de segunda classe “Infante D. Henrique” foi rebaptizado com o nome “João de Lisboa”.

Criação do Conselho Superior de Defesa Nacional
Exercícios de táctica naval na Madeira e Açores
No campo orgânico da administração central, foi aprovado pela Assembleia Nacional um conjunto de propostas e projetos. Uma proposta, sobre todas fundamental, porque interessa à própria organização do Estado, criou o Conselho Superior de Defesa Nacional e os seus órgãos de estudo e de trabalho. Com essa medida mostrou o Governo quanto toma a peito dotar o país com os elementos indispensáveis da defesa e quanto deseja que esta defesa assente em bases sólidas, filhas de uma política de defesa nacional, conscientemente definida e seguida, e não seja criada ao sabor de ideias ou caprichos de ocasião.
A criação dos dois organismos paralelos, no exército e na marinha, a Majoria General do Exército e a Majoria General da Armada, assegura a efectivação das directrizes da defesa dadas pelo Conselho Superior de Defesa Nacional e entrega os respectivos meios de acção a entidades efectivamente responsáveis pela eficiência do seu emprego.
O Secretariado Geral da Defesa Nacional, que centraliza as iniciativas em matéria de defesa e assegura que as directrizes do Conselho sejam levadas aos órgãos de execução respectivos, encontra-se já a funcionar. Resta nomear os membros de um organismo também criado e que deve concorrer para facilitar a coordenação militar e naval no estudo dos problemas técnicos de defesa que interessam simultaneamente ao exército e à marinha, que mal se compreenderia que fossem estudados separadamente; tantos e tão importantes são eles, que o funcionamento da comissão mixta entre inter-estados-maiores do exército e naval, se não fará seguramente esperar.
Para pôr a organização da administração central da marinha de acordo com os princípios que orientaram a criação dos órgãos acima citados, foi publicada e começa a entrar em funcionamento uma nova organização daquela administração. Nela se atribui ao Major General da Armada a missão de orientar a preparação da marinha em tempo de paz e de comandá-la em tempo de guerra, tendo como seus assistentes imediatos, de um lado o Chefe do Estado-maior Naval, para os assuntos de carácter operativo, do outro o Superintendente dos Serviços Técnicos, a quem cabe executar tudo o que diz respeito à preparação técnica, tanto do pessoal como do material.
A actividade de carácter mais civil do que militar, que cabe ao Ministério da Marinha, isto é, relativa à marinha mercante e de pescas, e aos serviços de polícia e segurança da navegação, continua dirigida pelo Director Geral de Marinha. Ao ministro compete, naturalmente, coordenar esta actividade com a militar, da Majoria Geral da Armada.
Na primavera intensificou-se a preparação orgânica e militar dos navios da nova marinha, primeiro em unidades isoladas, depois em agrupamentos.
Em Junho foi ordenada a concentração nas águas das ilhas adjacentes, para exercícios tácticos, de uma força constituída por uma esquadrilha de contra-torpedeiros, outra de submarinos e ainda outra de hidro-aviões. A concentração fez-se com facilidade na Madeira, onde o grupo das três esquadrilhas realizou alguns exercícios tácticos, com temas relacionados com a defesa do arquipélago. Dali seguiram, navios e aviões, para os Açores, em cujas águas igualmente levaram a efeito numerosos exercícios, dos quais foram colhidos consideráveis ensinamentos.
Na ida, como no regresso, os aviões fizeram a travessia pelos seus próprios meios, utilizando-as para proveitoso exercício de navegação e treino para mais largas viagens. Durante os exercícios tácticos a sua cooperação com as outras esquadrilhas foi habilmente realizada e manifestou-se muito útil à defesa, como ao ataque.
Duraram estes exercícios cerca de seis semanas. Depois de reabastecidos de nafta, os navios da esquadrilha de contra-torpedeiros seguiram para a costa do Algarve, onde continuaram as exercitações, realizando interessantes exercícios de tiro de artilharia, que duraram cerca de quatro semanas. Finalmente realizaram-se exercícios igualmente proveitosos de lançamento de torpedos.
Os submersíveis prosseguiram também nos seus treinos e exercícios, que duram todo o ano. Os avisos, que, pela sua natureza, se não reúnem em agrupamentos, realizaram proveitosos exercícios e viagens, como a do aviso “Gonçalves Zarco”, que regressou de uma instrutiva volta pelos mares e colónias do Oriente e a do “Afonso de Albuquerque”, para instrução de aspirantes no Mediterrâneo.
Em resumo, em toda a marinha se nota um espírito novo, uma nova vontade de fazer o mais possível por tirar dos navios também novos todo o rendimento militar do que são capazes.

Navio-motor "Gorgulho" da extinta Empresa Insulana
Foto de autor desconhecido - minha colecção

Crise da marinha mercante
Progressivo desenvolvimento da marinha de pesca
Aos progressos da marinha de guerra não corresponderam semelhantes da marinha mercante. A crise em que a marinha mercante se debate há nos, não melhorou, antes se agravou com o desaparecimento da proteção que lhe concedia o diferencial de bandeira. Resta, como única protecção directa, o subsídio ao combustível, verba insignificante, comparada com a importância que a indústria do transporte marítimo tem na economia nacional.
Uma comissão nomeada em 24 de Outubro de 1934, concluiu os seus trabalhos na parte referente ao problema da navegação para as colónias de África, cuja solução não poderá protelar-se por muito tempo.


Os trabalhos preparatórios para a criação do grémio dos armadores não tiveram o seu natural seguimento. Em compensação, a marinha de pesca progrediu apreciavelmente durante o ano.
A publicação do decreto nº 24.614, que regulamentou a pesca de arrasto, teve como resultado o registo e matricula para esta pesca do vapor “Alcoa” e de três navios mais pequenos. No Porto registaram-se nove parelhas para a pesca de arrasto, além de dois outros barcos para o mesmo fim. Desta lei esperam-se resultados benéficos. Encontra-se também em preparação a regulamentação das lotas em todos os portos do Continente.

Lugre-motor "José Alberto" da praça da Figueira da Foz
Foto de autor desconhecido - minha colecção

A pesca do bacalhau teve um incremento importante no ano findo. Foram adquiridos os seguintes navios: “Labrador”, “Groenlândia”, “Terra Nova”, “José Alberto” e “Normandie”.
Para os bancos da Terra Nova e Groenlândia foram este ano 47 navios, dos quais 22 com motor, comparados com 34 e 10, respectivamente, em 1934. O número total de tripulantes foi de 1.969, comparado com 1.317 no ano anterior.
A distribuição pelos portos de armamento foi a seguinte:
1935 – Viana 3, Porto 7, Aveiro 16, Figueira 8 e Lisboa 13.
1934 – Viana 3, Porto 5, Aveiro 14, Figueira 3 e Lisboa 9.
Pelo Ministério do Comércio foi criado o Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau.
(a) Botelho de Sousa
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 1 de Janeiro de 1936)

domingo, 27 de setembro de 2015

História trágico-maritima (CLXII)


O encalhe do paquete "Empress of Canada"

Foto do sinistro do paquete em Albert Head, Victoria
Imagem da Photoship.Uk

O paquete inglês “Empress of Canada” encalhou a 13 do corrente, nos rochedos de Albert Head, perto de Victoria, à entrada do Estreito de Juan de Fuca, no Pacifico, por motivo dum espesso nevoeiro.
Dois rebocadores salvaram os 200 passageiros, que se encontravam a bordo. Este paquete, que é o maior a navegar no Pacifico, vale 200 milhões de francos.
Receia-se que não possa ser posto a flutuar.
(In jornal “Comércio do Porto, quarta, 30 de Outubro de 1929)

Foto do paquete "Empress of Canada"
Imagem da Photoship.Uk

Características do navio “Empress of Canada”
1920-1943
Armador: Canadian Pacific Steamships Ltd., Londres
Construtor: Fairfield Co. Ltd., Glasgow, Maio de 1920
Arqueação: Tab 21.517,00 tons - Tal 12.811,00 tons
Dimensões: Pp 191,11 mts - Boca 23,65 mts - Pontal 12,80 mts
Propulsão: Fairfield, Glasgow, 1920 - 6:Tv - 20 m/h

No dia 13 de Março de 1943 o navio foi atacado pelo submarino italiano “Leonardo da Vinci”, na posição 01º13’S 09º57’W causando-lhe diversas avarias. Voltaria a ser torpedeado pelo mesmo submarino no dia seguinte, tendo sido registadas 392 vítimas mortais em resultado do afundamento, quando o paquete se encontrava em viagem de Durban para Takoradi, no Ghana.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Histórias do país marítimo!


Lei é lei, mas...

Navio em perigo
O brigue francês “Louise & Marie”, procedente de Rio Pungo para Marselha, com carga de cacau e outros géneros, apareceu ontem de manhã à barra do rio Douro com bandeiras colhidas, à proa e ré, pedindo socorro. Traz 79 dias de viagem e veio acossado pelo temporal.
O capitão declarou, por meio de sinais, que não tinha pano, nem água, nem mantimentos. Pediu para que lhe prestassem todo o socorro possível, e sem demora, porque de contrário se via obrigado a meter o navio à costa.
Hoje às 7 horas da manhã estava fundeado em Carreiros.
Às 10 horas e 15 minutos, andando com o ferro à garra, estava em grande perigo.
Não foi levado socorro ao navio por vir de porto suspeito!!
O navio traz 79 dias de viagem, e se não tem doença a bordo não se sabe como justificar-se um acto de desumanidade, que a civilização em caso algum pode desculpar.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 12 de Março de 1862)

Navio francês em perigo
O brigue francês “Louise & Marie”, que aí esteve em iminente risco próximo de Carreiros, foi salvo pelo vapor “Lisboa” que o rebocou para o largo, livrando-o assim de se despedaçar sobre as pedras.
Do vapor foram prestados todos os socorros de que o brigue carecia, pelo que se torna digno de todo o elogio o comandante daquele navio, cujo procedimento contrasta bem com o da autoridade sanitária.
Se por acaso não estivesse aí fora o vapor “Lisboa”, quem sabe se agora não teríamos a lamentar a perda de umas poucas vidas e da embarcação?
É verdade que o estado do mar não permitiu ontem que de terra se levassem socorros ao brigue, mas tinha-o permitido no dia antecedente, e nesse dia tudo foram dificuldades da parte da saúde, não obstante todas as diligências empregadas pelo sr. Francisco José de Souza Pereira, vice-cônsul francês na Foz, o qual, não tendo o navio consignatário nesta cidade, fez tudo quanto foi possível para que se não deixasse o brigue ao abandono.
Do vapor “Lisboa”, participou-se hoje para terra que o brigue navegara para oeste, mas que ao romper do dia estaria outra vez à vista da barra. Até agora, porém, que são 10 horas, ainda não apareceu; é por isso provável que se achasse habilitado a continuar a viagem.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 13 de Março de 1862)

Notícia do movimento marítimo na barra do rio Douro

Curiosa a preocupação de informar que o brigue francês que esteve em perigo próximo da barra do rio Douro, e cuja entrada no porto lhe foi negada pelas autoridades sanitárias, tinha entrado no rio Tejo e eventualmente encontrando ancoradouro em Lisboa, para receber os necessários socorros, depois de seguramente ter sido apreciada a condição sanitária dos tripulantes, de acordo com a legislação vigente no país. O que nunca vou entender, é porque no país que se rege pelas mesmas leis, há desde sempre dois pesos e duas medidas...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

História trágico-marítima (CLXI)


O naufrágio do patacho "Abalisado" e das escunas "Agnes" e "Edith"

Notícia de navios chegados ao rio Douro em 1862

Naufrágios
Ontem, depois das 2 horas da tarde, houve três naufrágios na barra!
Aparecendo no castelo sinal de entrada, o navio inglês “Pearles” (ev. “Peerless”) que estava mais próximo, aproou à barra e entrou sem novidade.
Atrás deste veio o patacho português “Abalisado”, procedente de Setúbal, que, faltando-lhe o vento ao chegar à barra, não pode seguir nem retroceder, como o castelo lhe mandou, arriando a bandeira. A este tempo vinham também, já sobre a barra as escunas inglesas “Agnes” e “Edith”.
Uma destas escunas abalroou com o patacho “Abalisado” e arrombou-lhe a borda falsa, em consequência do que, foi o patacho encalhar em frente das pedras de Felgueiras.
Os dois navios ingleses, que pelo mesmo motivo de lhe faltar o vento, não podiam entrar nem desandar, puderam ainda assim, encalhar no Cabedelo, salvando-se as tripulações sem perigo.
Não se deu infelizmente o mesmo caso com a tripulação do “Abalisado”, que ficou encalhado muito ao mar, e sobre o qual se quebravam vagas alterosas e repetidas.
Quatro dos tripulantes vendo o grande perigo em que se achavam, quiseram salvar-se no bote, mas mal o arrearam dos turcos foi envolvido pelo mar, que o virou, levando três dos infelizes marinheiros, que não tornaram a aparecer. O quarto, como sabia nadar, sustentou-se ao lume de água, até que uma vaga o arrojou para a praia, onde pode firmar-se, salvando-se, porque logo lhe acudiram.
Dentro do navio achavam-se o capitão e quatro tripulantes, que não vendo outro meio de salvação lançaram ao mar uma pipa com um cabo amarrado. A pipa chegou à praia, onde ficou segura a extremidade da corda, porém a distância era grande, e o mar levando o cabo para o sul, numa grande curva, não podia ser estabelecido o cabo de vai-vem.
O salva-vidas saiu, mas conservou-se sempre a muita distância do navio, tornando-se por isso inútil para a salvação dos náufragos. Na praia do Cabedelo compareceram os srs. Intendente da Marinha e pilotos da barra.
Alguns capitães de navios ingleses, e um capitão americano, vendo que o salva-vidas não se aventurava a aproximar-se do navio naufragado, ofereceram-se para com alguns dos seus marinheiros tripular o salva-vidas, e ir a bordo do “Abalisado”. O sr. Intendente objectou dizendo que os oferentes se expunham a uma morte certa, e que se perderia o salva-vidas, único recurso para a salvação dos náufragos.
O sr. Machado, de Gaia, ouvindo isto, desapareceu dali, e, passados alguns minutos, foi visto já dentro de um barco, com cinco ou seis barqueiros portugueses, remando na direcção do navio, e, chegando a uma coroa de areia que ficava a pouca distância deste, saltaram nela, conquanto ainda estivesse coberta de água, e diligenciaram agarrar o cabo que estava preso ao navio, o que conseguiram com o auxílio dum corajoso varino, dentro uns poucos que também seguiram o barco do sr. Machado, e que, nadando, pôde prender uma corda ao cabo, e puxado este para a coroa de areia, pode então atesar-se, e por ele se salvaram os náufragos.
Só depois é que o salva-vidas se aproximou da coroa de areia, onde se achava o sr. Machado, os barqueiros e vareiros que o acompanharam.
O náufrago que pelo mar foi arrojado à praia ficou muito maltratado, ficando recolhido no hospital do salva-vidas.
O patacho “Abalisado” era propriedade do sr. João Francisco Gomes & Irmão, e vinha carregado de sal e arroz. Não se salva o casco nem a carga.
Os navios ingleses “Agnes” e “Edith”, ficaram direitos no sítio em que encalharam, e contam ser possível a salvação da carga, que é de material para o caminho-de-ferro. O primeiro vinha de Cardiff, à consignação dos srs. Chamiço Filho & Silva. O segundo vinha de Newport, consignado ao sr. Coverley.
O capitão deste último, está gravemente ferido na cabeça, porque vindo ao leme, uma vaga de mar o atirou de encontro ao molinete.
Durante a maré da noite foi salvo o velame dos navios naufragados.
Hoje continuam as diligências para o salvamento da carga dos navios ingleses.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 15 de Janeiro de 1862)

Os navios naufragados
O mar revolto e alteroso tem embaraçado os trabalhos para a salvação da carga dos três navios, que ante-ontem naufragaram na barra.
A escuna inglesa “Agnes” está já despedaçada.
O patacho “Abalisado” está partido em três pedaços. Durante a maré da noite salvaram-se da carga que tinha a bordo 16 cascos com azeite e alguns pequenos volumes. Da carga de arroz nada foi possível salvar.
A escuna “Edith” ainda se conserva direita.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 16 de Janeiro de 1862)

Comissão do salva-vidas
Na notícia de ontem dos naufrágios da véspera, não foi referida a circunstância que os srs governador civil, Amorim Braga, e Moser, membros da Comissão do salva-vidas, se apresentaram logo, na Foz, no hospital dos náufragos e depois no Cabedelo.
O sr. governador civil, com quanto estivesse incomodado de saúde, apenas soube a notícia dos sinistros, correu logo à Foz.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 16 de Janeiro de 1862)

Navios naufragados
Os cascos do patacho “Abalisado” e dos navios ingleses “Agnes” e “Edith”, que na terça-feira naufragaram na barra, foram já despedaçados pelo mar.
A popa da escuna “Agnes” já veio à praia.
Da carga do patacho “Abalisado” só se salvaram os 16 cascos de azeite, já referidos e alguns pequenos volumes.
Da carga (ferro) da “Agnes” pouco se tem salvado, porque está assoreada.
A maior parte da carga da “Edith” está já salva. É também de ferro.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 18 de Janeiro de 1862)

Real Sociedade Humanitária
Já comentado anteriormente, foi confirmada a intenção da Comissão do salva-vidas da Real Sociedade Humanitária dar uma recompensa pecuniária a todos os indivíduos, que contribuíram para o salvamento dos tripulantes do patacho “Abalisado”, que se perdeu na barra do rio Douro no dia 14 de Janeiro, entregou à Intendência da Marinha a quantia que para esse fim destinou.
Em consequência disto foram chamados aquela repartição os srs. Manuel António, piloto supra da barra, Francisco dos Reis, José Joaquim Machado, João de Araújo e Manuel Joaquim, que foram os primeiros que acudiram em socorro dos náufragos, para receberem o prémio pecuniário que lhes estava destinado; todos o recusaram, tendo declarado que se consideravam bem recompensados com a consciência que tinham praticado uma boa acção, e pedindo que a quantia que se lhes queria dar fosse entregue a qualquer estabelecimento de caridade que o sr. Intendente da Marinha julgasse mais digno de preferência.
O sr. conselheiro Graça, autorizado assim para fazer a escolha, dirigiu ontem ao sr, conselheiro José Lourenço Pinto, digno presidente da comissão administrativa do Asilo das Raparigas Abandonadas, 54$000 réis, que tanto era o total da recompensa destinada aos corajosos marítimos, sendo a indicada quantia acompanhada de uma carta, em que o sr. Intendente da Marinha menciona todas as circunstâncias que aqui se encontram mencionadas.
Se são para louvar-se a abnegação, e os sentimentos generosos dos que renunciaram um prémio, mais que devido, em favor da humanidade infeliz, é também muito credora de elogio a preferência que o sr. Intendente de Marinha deu a um estabelecimento, que tanto a justifica, porque o seu único património é a caridade pública.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 15 de Março de 1862)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

História trágico-marítima (CLX)


O naufrágio da chalupa "Quo Vadis"

Ocorrência marítima
No alto mar – Em Leixões
Segundo um rádio recebido na Capitania de Leixões, o vapor inglês “Herald Custer” encontrou no alto mar, desarvorada, a chalupa francesa “Quo Vadis” à qual deu reboque e recolhendo a bordo a tripulação. Ignora-se o destino que tomou, supondo-se que seguisse rumo a Vigo.
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Também um vapor, do qual se desconhece o nome e a nacionalidade, fora da barra, a umas 10 milhas, recolheu ontem de manhã, os tripulantes de uma chalupa, da qual também se desconhece o nome e a nacionalidade.
Parece que, devido ao mau tempo, a chalupa esteve prestes a naufragar; mas, correndo rumo de N.N.E., desarvorada, e impelida pelo mar, devia ter dado à costa, pela praia de Lavra. Há uns três dias que esta chalupa fôra vista no alto mar.
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O vapor “Bourgainville”, fundeado na bacia de Leixões, ontem, devido à ressaca, garrou um pouco, indo abalroar com o vapor “Eros” partindo-lhe o pau do gurupés.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 24 de Janeiro de 1922)

Na Apúlia
Naufrágio – Mortes – Uma comunicação
Sobre o naufrágio de um navio francês, ocorrido frente à Apúlia, há as seguintes informações:
Apúlia, 23 – Ontem, de manhã, foi visto ao largo e em frente a esta localidade uma embarcação com sinal de pedir socorro. Pelas bandeiras logo se reconheceu ser o navio de nacionalidade francesa.
Avistou-se depois um bote que se dirigia para terra. Com a enorme agitação do mar, todos perceberam que os seus tripulantes vinham precipitar-se em morte certa. Seriam 2 horas da tarde quando o bote, já no meio das vagas, veio, quase que submergido, até à praia.
Salvaram-se 5 homens e um desapareceu, já quase na praia, não tornando mais a ser visto. Um outro faleceu minutos depois de estar a salvo.
Estão nesta localidade 35 (?) restantes, entre os quais o capitão.
O navio era francês e denominava-se “Quo Vadis”.
Sobre este acontecimento foi muito sentida a falta do telegrafo, pois se o houvesse evitavam-se duas mortes, pois havia muito tempo para telegrafar para Viana ou Leixões; assim viria qualquer rebocador e recolheria os tripulantes.
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Viana do Castelo, 23 – Constou-se ter naufragado, na Apúlia, um navio francês, com 19 tripulantes. Procurando informações, soube-se que infelizmente o naufrágio deu-se devido a uma vaga violenta, que partiu o leme ao navio.
Os náufragos embarcaram nos escaleres de bordo, alcançando a praia uns 17, perecendo 2. O cadáver de um já foi arrojado à praia. Para o local seguiu o chefe da Delegação aduaneira e o tenente da guarda-fiscal.
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Deve também estar relacionado com o naufrágio acima apontado o seguinte:
Pelas 10 horas da manhã de ontem apareceu à vista da barra, fazendo sinais para o semáforo da Luz, o vapor holandês “Hoogvliet”. (a)
De acordo com o noticiado acima, um vapor estivera, ante-ontem, no mar alto, próximo de uma chalupa, desarvorada, não se tendo podido colher qualquer outra informação.
Esse vapor era o “Hoogvliet”, que interrogado pelo semáforo da Luz, sobre a sorte da tripulação da referida chalupa, disse a não ter recolhido a bordo, ignorando o seu rumo.

(a) O vapor Hoogvliet tinha nacionalidade holandesa, estava matriculado na praça de Roterdão, fora construido por Werf Gusto, de Schiedam, em 1918, e era propriedade da Nationale Stoomvaart Maatschapij. Arqueava 833 toneladas de registo bruto e media 71 metros de comprimento.
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É deveras de lamentar que da Apúlia fosse, há tempos, retirada a estação telegráfica, que tão bons serviços ali prestava, mormente em casos idênticos a este, como por mais de uma vez já se tem feito sentir a sua enorme falta.
Oxalá que sejam tomadas providências para que se restabeleça imediatamente essa estação.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 25 de Janeiro de 1922)

Sinistro no mar
Viana do Castelo, 24 – Na praia da Apúlia varou ontem um escaler com o capitão e mais cinco tripulantes do navio francês “Quo Vadis”, que de Fécamp se dirigia a Lisboa, com carga de cascos vazios. Esta embarcação pertencia ao porto de Saint Malo e tinha a lotação de 89 toneladas brutas.
Tendo sida surpreendida, na nossa costa, pelo temporal, perdeu velas e partiu-se-lhe o leme. Nesta circunstância foi socorrida por um vapor que a rebocou, mas a certa altura, como o mar era de grande vaga, partiu-se o cabo e o vapor abandonou-a.
Assim andou à mercê do tempo e do mar, até que achando-se a 6 milhas da costa e vendo os tripulantes o risco que sofriam e não poderem ser reconhecidos de terra os seus sinais, resolveram largar os dois ferros ao navio e vir na lancha de bordo a fim de empregar os meios para salvar o navio e o carregamento.
Momentos depois de se acharem na praia, com grave risco, viram que um vapor se aproximou do “Quo Vadis” e o rebocou para destino desconhecido. Na ocasião de lançar a lancha ao mar um tripulante foi arrebatado pelas ondas e outro faleceu na praia em virtude das contusões que recebeu.

- Passou hoje para o norte um navio completamente desmantelado. Parece não levar tripulação e diz-se ser o “Quo Vadis”.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 27 de Janeiro de 1922)

Na Apúlia
Ainda acerca do naufrágio da “Quo Vadis”
Apúlia, 26 – Ampliando a notícia prévia, cabe informar que o náufrago da chalupa “Quo Vadis”, que falecera logo após a chegada a terra, de nome Isaac Joseph Pierre, natural de Saint Valery-en-Caux, França, ficou enterrado no cemitério paroquial desta praia.
O funeral fez-se no meio da maior consternação dos companheiros sobreviventes e do povo desta freguesia, que cobriram de flores o coval.
Os cinco náufragos restantes, que tinham sido vestidos, tratados e recolhidos pelos srs. Bento Ferreira da Costa, Júlio Rodrigues de Carvalho, Zacarias Pires, António Tomé e Manuel Fernandes Fradique Ribeiro, foram entregues hoje ao sr. cônsul da França em Viana do Castelo, que dali viera buscá-los de automóvel.
Os pobres náufragos pediram então ao sr. cônsul para que agradecesse a todo o povo daquela praia o generoso acolhimento que lhes fôra feito. E ao despedirem-se e talvez pela dificuldade de se exprimirem e fazerem compreender por palavras, falaram com o coração reconhecido, isto é, abraçando-se a todos e beijando entre soluços aqueles que os hospedaram e lhes prestaram tão espontâneo e grande auxílio.
Seguiram chorando e todo o povo acenando com lenços, chorava também a falta da estação telégrafo-postal, ouvindo-se veementes protestos pela sua extinção após mais de quarenta anos de serviços.
Talvez ainda se pudesse ter evitado as mortes, que se lamentam, se houvesse telegrafo para, a tempo, ter reclamado socorros.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Janeiro de 1922)

domingo, 20 de setembro de 2015

História trágico-marítima (CLIX)


Lugre “ Maria Helena “
1921 - 1922

Desenho de um lugre, sem correspondência ao texto

Nº Oficial: A-191 - Iic: -?- - Porto de registo: Porto
Armador: Santos Amaral, Lda., Porto
Construtor: D.S. Howard, Parsboro, Nova Escócia, 1894
ex “Maria Helena”, Leonardo A. Dos Santos, Porto, 1920-1921
ex “Minho”, J. Mourão & Cª., Porto, 1917-1920
ex “Earl of Aberdeen”, Bridgetown, Barbados, 1894-1917
Arqueação: Tab 450,36 tons - Tal 392,05 tons
Dimensões: Pp 50,00 mts - Boca 10,50 mts - Pontal 3,75 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 9 tripulantes

Lugre de três mastros, construído em madeira, sofreu uma pequena alteração na arqueação, passando a navegar com a Tab 457 tons e Tal 385 tons, no período correspondente a um registo mais recente, para certamente permitir um aumento na capacidade de carga. Esse facto não obstou a que o armador, eventualmente vendo o estado degradado do navio, o tivesse colocado à venda, conforme o anúncio publicado no “Comércio do Porto”, em 7 de Setembro de 1922.


O naufrágio
Viana do Castelo, 16 – Continua o mau tempo. O mar brame encolerizado. Não nos consta de mais desastres, além daqueles já conhecidos, felizmente sem vítimas a lamentar.
Ainda não houve notícias do lugre “Maria Helena”, saído do porto no último Domingo. Deus as mande satisfatórias para sossego das famílias dos seus tripulantes.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 18 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 18 - O lugre "Maria Helena", quando já desamarrado na doca para seguir viagem para Lisboa, foi de encontro ao cais rebentando um cabresto, não podendo sair no sábado. Saiu ontem e talvez a esta hora tenha arribado, devido ao mau tempo.
(In jornal "Comércio do Porto", quinta, 19 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 24 - Ainda não há notícia do lugre "Maria Helena", que no Domingo saiu a barra de Viana com destino a Lisboa e no qual embarcou, a fazer a primeira rota de tirocínio para piloto, o sr. Jerónimo Aguiar, filho do importante industrial sr. José Pereira de Aguiar.
(In jornal "Comércio do Porto", quarta, 25 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 25 – Da viagem tormentosa do lugre “Maria Helena”, foram recebidas as seguintes informações: No dia 16, imediato ao dia da saída, achava-se o navio nas alturas dos «Cavalos de Fão», quando foi surpreendido por um forte temporal de sudoeste; procurando então arribar, tal não conseguiu, devido ao nevoeiro, pelo que se pôs de capa rigorosa. O mar estava agitadíssimo, as vagas varriam o convés, levando o que encontravam.
O vento, saltando para O.N.O. (oeste-noroeste), fez-se ciclone e o navio adernou, tendo de alijar a carga de convés, com grande risco. Dando a popa ao mar correu à mercê, visto o pano ter ido pelos ares.
A tripulação quase esmoreceu, pois a todo o momento esperava que o navio fosse varar numa praia, onde ninguém escaparia. Entretanto, no dia foi o “Maria Helena” socorrido por um vapor alemão, rebocando-o para a bacia de Peniche, onde por ordem da capitania, o navio ficou ancorado com dois ferros pela proa. Às 3 horas da manhã do dia 20, rebentaram as amarras e o “Maria Helena” foi à praia, onde se desfez.
Ontem chegaram os náufragos a Viana. Alguns deles, ao transporem os umbrais das suas habitações, ajoelhavam e beijavam a soleira da porta! Parece que um dos náufragos vai cumprir uma promessa à Virgem da Agonia, de joelhos desde a sua casa até ao santuário.
Bendita crença!
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 26 de Janeiro de 1922)

sábado, 19 de setembro de 2015

O dia do porto de Leixões


Portões abertos!

No dia em que Leixões celebra a passagem de mais um aniversário, o porto abre novamente os portões à restrita área internacional, para que a população possa de algum modo entender os movimentos e o frenesim diário, das muitas centenas de pessoas que ali exercem a sua actividade.


A principal novidade portuária que deverá atrair de sobremaneira o interesse dos visitantes, será a visita ao novo edifício da gare marítima, inaugurado recentemente, que já é um ex-libris da cidade. Porém, a 1ª regata do porto de Leixões, a mostra fotográfica a concurso, a visita a algumas embarcações e uma tarde animada com música para diversos gostos, irão certamente proporcionar momentos agradáveis de convívio e descoberta.
E já agora, um bom fim de semana!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

História trágico-marítima (CLVIII)


O naufrágio do vapor inglês "Antinous"

Vapor encalhado
Salva-se a tripulação – Pormenores
Caminha, 29 – Hoje, cerca das 6 horas e meia da tarde, foram alarmados os habitantes desta vila com os socorros pedidos pela fortaleza da Ínsua para o vapor inglês “Antinous”, com carga de trigo, milho e sabão, que se achava varado junto de Moledo, na praia de Santo Isidro.
Prestados os devidos socorros foi salva toda a tripulação, que se compunha de 28 homens. O vapor vinha da Argentina e dirigia-se a Vigo. Segundo consta, o sinistro foi devido a um engano de barra, por causa do muito nevoeiro que fazia.
A tripulação foi acolhida das residências dos srs. José Batista da Silva e João Martins Rodrigues, residentes em Moledo.
Esperam poder salvar o vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 31 de Janeiro de 1922)

Desenho de vapor inglês, sem correspondência ao texto

Naufrágio
Viana do Castelo, 30 – Pelas 6 horas da tarde de ontem encalhou ao sul da Ínsua, em Caminha, o vapor inglês “Antinous”, da Egypt & Levant Steam Shipping Co., com um importante carregamento de trigo, milho e sabão, para Vigo. É um navio de 3.681 toneladas e 26 homens de tripulação, que se salvaram.
O capitão, que ficou a bordo, pediu por intermedio do capitão do porto de Caminha, ao Departamento Marítimo do Norte, rebocadores para hoje, na preamar, tentar safar o navio.
O sinistro foi ocasionado por uma avaria na máquina.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 1 de Fevereiro de 1922)

Caracteristicas do vapor "Antinous"
1907 - 1921
Armador: Egypt & Levant Steam Shipping, Ltd., Londres
Construtor: Robert Thompson & Sons, Ltd., Southwick, 1907
Arqueação: Tab 3.682,00 tons
Dimensões: Pp 105,60 mts - Boca 15,50 mts
Propulsão: 1 motor de tripla expansão
Equipagem: 26 tripulantes

O vapor inglês encalhado considera-se perdido
Viana do Castelo, 1 – O vapor inglês “Antinous”, do lote de 3,681 toneladas brutas de registo, que na tarde de segunda-feira encalhou na praia de Moledo, considera-se perdido.
Adernou muito e, devido ao milho que transportava ter inchado com a água que entrou nos porões, abriu um enorme rombo.
O vapor é da praça de Londres e procedia de Buenos-Aires e Ramallo, com 5.787 toneladas de milho, com destino a Vigo, Bilbao e outros portos de Espanha. Trazia 30 dias de viagem e era seu comandante Edward P. Fishwick.
Espera-se a chegada de dois rebocadores do Porto, para tentarem o salvamento, se bem que o movimento dos barcos seja muito dificultado pelos baixos da Ínsua.
Todas as roupas dos tripulantes foram retiradas de bordo, assim como um grande número de animais domésticos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 3 de Fevereiro de 1922)

O vapor inglês encalhado
Viana do Castelo, 5 – O mar tem danificado o casco do vapor inglês “Antinous”, que há dias naufragou na praia de Moledo, ao sul de Caminha. Não há probabilidade de ser salvo o casco, que de dia para dia mais se vai enterrando na areia.
A carga, de milho, também se considera perdida.
As roupas e mais haveres da tripulação foram retiradas de bordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 7 de Fevereiro de 1922)

Naufrágio do vapor inglês “Antinous”
Anúncio nº 1133
Até ao meio-dia de quarta-feira, 8 do corrente, recebem-se na rua da Nova Alfândega nº2, desta cidade, propostas para salvamento da carga (milho ensacado) do vapor “Antinous”, assim como do casco ou pertences do mesmo, naufragado ao Sul da Barra do Rio Minho, em frente a Moledo.
As propostas deverão ser apresentadas mencionando separadamente a percentagem de separação da carga da que se relacionar com a salvação do casco ou pertences.
Fica a cargo do proponente a quem fôr adjudicado o serviço de salvação, todas as despesas em que houver de incorrer para tal fim, embora por qualquer motivo de força maior resulte improfícuos os sacrifícios feitos.
Para mais esclarecimentos dirigir-se aos agentes do Lloyd’s Rawes & Cª., à rua acima mencionada.
Porto, 7 de Fevereiro de 1922
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 7 de Fevereiro de 1922)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Leixões na rota do turismo!


Navios que fizeram escala em porto no mês de Setembro

No dia 3, navio de passageiros "Azamara Quest"
Chegado procedente de Bilbao, saiu com destino a Lisboa

No dia 4, navio de passageiros "Ocean Majesty"

No dia 6, navio de passageiros "Costa Fortuna"
Veio procedende da Corunha, saiu com destino a Lisboa

No dia 10, navio de passageiros "Silver Cloud"
Tal como o anterior, procedia da Corunha e saiu para Lisboa

No dia 10, navio de passageiros "Marina"
Chegado proveniente do Ferrol, saiu para Lisboa

Ainda no dia 10, navio de passageiros "Star Legend"
também procedente do Ferrol, saiu para Lisboa

No dia 11, navio de passageiros "Azores"
Chegado proveniente da Corunha, saiu para Lisboa

No dia 14, navio de passageiros "Nautica"
Como na grande maioria das situações retratadas, chegou igualmente procedente da Corunha, tendo saído para Lisboa.

Acreditamos que devido ao actual tempo invernoso e mau estado do mar, o navio de passageiros "Rijndam" da Holland America Cruises, possa ter anulado a escala prevista para o dia de amanhã. E da mesma forma e pelo mesmo motivo, seria lamentável o porto de Leixões, em pleno período festivo de aniversário, não poder contar com o sempre agradável regresso do "Queen Elizabeth".

sábado, 12 de setembro de 2015

História trágico-marítima (CLVII)


Iate "Póvoa de Varzim"
1921 - 1922

Ocorrências marítimas
O temporal
Matosinhos-Leça, 2 – Um lugre dinamarquês, do qual não foi possível apurar o nome e dois iates, sendo um o português “Póvoa de Varzim”, garraram, tendo ficado convenientemente amarrados, com a ajuda dos rebocadores “Mars” e “Douro”, que se encontravam na bacia de Leixões. Estão ancoradas dentro do porto de serviço cerca de trinta traineiras.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 3 de Dezembro de 1921)

O encalhe do iate “Póvoa de Varzim”
Pela uma hora da madrugada de ontem o iate “Póvoa de Varzim”, ancorado em Leixões, garrou devido ao forte temporal e ressaca, indo cair sobre o enrocamento do molhe norte.
O “Póvoa de Varzim”, que se considera perdido, tinha entrado no dia 15, com um carregamento de sal, procedente de Setúbal, vindo consignado ao sr. Caetano Rodrigues.
A tripulação foi retirada de bordo pelo barco salva-vidas.

Matosinhos, 26 – Na madrugada de hoje, devido à agitação do mar, garrou o iate português “Póvoa de Varzim”, com carregamento de sal, indo encalhar no enrocamento do molhe norte, tendo sido salva toda a tripulação.
O iate considera-se totalmente perdido. De bordo têm sido retirados vários aprestos, roupas e bagagens dos tripulantes.
Os bombeiros voluntários estiveram toda a noite de prevenção, tendo sido requisitados os seus serviços.
Ainda, neste dia, cerca das cinco horas da tarde passou sobre Leixões um violento furacão, que, felizmente, não causou prejuízos nas diversas embarcações ali ancoradas.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 28 de Janeiro de 1922)

Matosinhos, 28 – Continua na mesma situação o iate “Póvoa de Varzim”, que na madrugada de ante-ontem encalhara nas pedras do enrocamento do molhe norte, em Leixões.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 29 de Janeiro de 1922)

O iate “Póvoa de Varzim” era uma embarcação que arqueava 103,75 toneladas de registo bruto e 84,00 toneladas de registo líquido. Foi construído pelo mestre-construtor Manuel Amaro, em Vila do Conde, praça onde igualmente esteve matriculado. A cerimónia de bota-abaixo teve lugar no dia 24 de Março de 1921, ficando a operar no tráfego de cabotagem. Perde-se por encalhe, abrindo um rombo no fundo com considerável dimensão, tal como se encontra explicado nas respectivas notícias do naufrágio, no dia 27 de Janeiro de 1922.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Leixões na rota do turismo!


Sequência de navios de passageiros que fizeram escala
em Leixões, na segunda metade do mês de Agosto

Navio de passageiros "Insignia"

No dia 23, chegado procedente da Corunha, saiu para Lisboa

Navio de passgeiros "Ventura"

No dia 27, chegou proveniente de Lisboa, saiu para a Corunha

Navio de passageiros "Azura"

No dia 28, chegou procedente Lisboa, saiu para St. Peter Port

Navio de passageiros "Sea Cloud II"

Dia 29, chegado procedente de Vigo, saiu com destino a Lisboa

Navio de passageiros "Wind Surf"

No dia 31, também procedente de Vigo, saiu para Lisboa

Para o próximo mês de Setembro estão previstas 16 escalas de navios de passageiros em Leixões. Desse já muito considerável número de visitas, merecem menção especial o regresso de dois navios da Costa Cruises, outros dois da Holland America Cruises e do "Queen Elizabeth", da Cunard Lines. O único navio que julgo visitará o porto numa primeira escala é o "Mein Schiff 4", já muito próximo do final do mês.