domingo, 20 de setembro de 2015

História trágico-marítima (CLIX)


Lugre “ Maria Helena “
1921 - 1922

Desenho de um lugre, sem correspondência ao texto

Nº Oficial: A-191 - Iic: -?- - Porto de registo: Porto
Armador: Santos Amaral, Lda., Porto
Construtor: D.S. Howard, Parsboro, Nova Escócia, 1894
ex “Maria Helena”, Leonardo A. Dos Santos, Porto, 1920-1921
ex “Minho”, J. Mourão & Cª., Porto, 1917-1920
ex “Earl of Aberdeen”, Bridgetown, Barbados, 1894-1917
Arqueação: Tab 450,36 tons - Tal 392,05 tons
Dimensões: Pp 50,00 mts - Boca 10,50 mts - Pontal 3,75 mts
Propulsão: À vela
Equipagem: 9 tripulantes

Lugre de três mastros, construído em madeira, sofreu uma pequena alteração na arqueação, passando a navegar com a Tab 457 tons e Tal 385 tons, no período correspondente a um registo mais recente, para certamente permitir um aumento na capacidade de carga. Esse facto não obstou a que o armador, eventualmente vendo o estado degradado do navio, o tivesse colocado à venda, conforme o anúncio publicado no “Comércio do Porto”, em 7 de Setembro de 1922.


O naufrágio
Viana do Castelo, 16 – Continua o mau tempo. O mar brame encolerizado. Não nos consta de mais desastres, além daqueles já conhecidos, felizmente sem vítimas a lamentar.
Ainda não houve notícias do lugre “Maria Helena”, saído do porto no último Domingo. Deus as mande satisfatórias para sossego das famílias dos seus tripulantes.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 18 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 18 - O lugre "Maria Helena", quando já desamarrado na doca para seguir viagem para Lisboa, foi de encontro ao cais rebentando um cabresto, não podendo sair no sábado. Saiu ontem e talvez a esta hora tenha arribado, devido ao mau tempo.
(In jornal "Comércio do Porto", quinta, 19 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 24 - Ainda não há notícia do lugre "Maria Helena", que no Domingo saiu a barra de Viana com destino a Lisboa e no qual embarcou, a fazer a primeira rota de tirocínio para piloto, o sr. Jerónimo Aguiar, filho do importante industrial sr. José Pereira de Aguiar.
(In jornal "Comércio do Porto", quarta, 25 de Janeiro de 1922)

Viana do Castelo, 25 – Da viagem tormentosa do lugre “Maria Helena”, foram recebidas as seguintes informações: No dia 16, imediato ao dia da saída, achava-se o navio nas alturas dos «Cavalos de Fão», quando foi surpreendido por um forte temporal de sudoeste; procurando então arribar, tal não conseguiu, devido ao nevoeiro, pelo que se pôs de capa rigorosa. O mar estava agitadíssimo, as vagas varriam o convés, levando o que encontravam.
O vento, saltando para O.N.O. (oeste-noroeste), fez-se ciclone e o navio adernou, tendo de alijar a carga de convés, com grande risco. Dando a popa ao mar correu à mercê, visto o pano ter ido pelos ares.
A tripulação quase esmoreceu, pois a todo o momento esperava que o navio fosse varar numa praia, onde ninguém escaparia. Entretanto, no dia foi o “Maria Helena” socorrido por um vapor alemão, rebocando-o para a bacia de Peniche, onde por ordem da capitania, o navio ficou ancorado com dois ferros pela proa. Às 3 horas da manhã do dia 20, rebentaram as amarras e o “Maria Helena” foi à praia, onde se desfez.
Ontem chegaram os náufragos a Viana. Alguns deles, ao transporem os umbrais das suas habitações, ajoelhavam e beijavam a soleira da porta! Parece que um dos náufragos vai cumprir uma promessa à Virgem da Agonia, de joelhos desde a sua casa até ao santuário.
Bendita crença!
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 26 de Janeiro de 1922)

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