domingo, 30 de março de 2014

Memórias dum passado recente!... (XI)


A chegada do aviso “Gonçalves Zarco” a Lisboa

A nova esquadra - O “Gonçalves Zarco”
chega amanhã a Cascais, pelas 9 horas da manhã
O aviso “Gonçalves Zarco” deve chegar amanhã a Cascais, pelas 9 horas, vindo depois para o quadro dos navios de guerra, amarrando à sua bóia pelas 11 horas.
Tal como foi antecipado, vão esperá-lo fora da barra o contra-torpedeiro “Tâmega” e os torpedeiros “Liz”, “Mondego”, “Sado” e “Ave”, que acompanharão o “Gonçalves Zarco” até à altura de Santos, a fim de o navio poder depois manobrar à vontade.
Este navio, desde Cascais, navegará sempre pelo norte, isto é, o mais próximo de terra, para poder ser melhor apreciado pelas pessoas que estiverem na margem norte do Tejo.
Logo que o navio fundeie, vão a bordo os srs. Ministro da Marinha, do Interior e da Guerra, e provavelmente o da Justiça, o comandante Geral da Armada, o chefe do Estado Maior Naval e pessoas dos gabinetes dos ministros.
Os discursos a bordo serão proferidos pelo sr. Ministro da Marinha e pelo Capitão-de-Fragata Quintão Meireles, comandante do navio. Vão, também, esperá-lo dois hidro-aviões.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 1 de Setembro de 1933)

Postal do aviso "Gonçalves Zarco" - edição da Marinha Portuguesa,
com a legenda «chegada do navio ao Tejo, 1 de Setembro de 1933»

Editorial - A nova esquadra
Chegou ontem ao Tejo, num ambiente festivo e acariciador, o novo aviso “Gonçalves Zarco”, que vem acamaradar orgulhosamente com o “Gonçalo Velho” e o “Vouga”.
Portugal, possuidor de um domínio colonial que lhe deve dar justa hegemonia no contexto das nações, tem absoluta necessidade de manter marinha que seja digna do nosso passado de povo de marinheiros e seja, ao mesmo tempo, nos dias angustiosos e nebulosos que passam, uma afirmação de vitalidade, uma presença efectiva que, não pretendendo tornar-se agressiva, deve, contudo, posicionar-se como realidade defensiva.
O Império Colonial merece a marinha de guerra e mercante, imprescindível nestes tempos que correm às nacionalidades que presem marcar o seu lugar perante o mundo internacional. A nossa época é de afirmações. E mal vai aos países que preferem às informações o negativismo e o desanimo. O “Gonçalves Zarco” é uma afirmação não do nosso valor, mas, como timbre das possibilidades da nossa acção.
O nome foi bem escolhido: João Gonçalves Zarco, fidalgo cavaleiro, pertenceu à Casa do Infante D. Henrique. Desde muito novo, seguiu a carreira marítima, exercendo, por mais de uma vez, o comando difícil das caravelas que guardavam as costas do Algarve. Foi Gonçalves Zarco o primeiro a oferecer-se ao Infante D. Henrique, quando este iniciou as explorações nesses «mares nunca dantes navegados».
Aproveitando-se do oferecimento, em 1418, o Infante D. Henrique mandou preparar um barco, entregando o comando dele a Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Chegou o barco a uma ilha, então chamada Porto Santo. Gonçalves Zarco regressou à Pátria, dando conta dos resultados da sua missão. Passado tempo, começou a colonização da ilha, ordenando o Infante D. Henrique a Gonçalves Zarco e Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo. Nesta segunda viagem descobriram a ilha da Madeira que foi circum-navegada.
Regressando a Portugal, Gonçalves Zarco foi honrado pelo Infante D. Henrique, que lhe deu por armas escudo em campo azul verde, com uma torre de menagem e cruz de ouro.
Marinheiro, colonizador, Gonçalves Zarco foi também guerreiro. O seu valor valeu-lhe ser armado cavaleiro, em Tanger. O mais curioso é que se afirma, se bem que historicamente não esteja provado, que foi Gonçalves Zarco quem primeiro utilizou artilharia a bordo. Por todos esses motivos, o nome de Gonçalves Zarco quadra bem ao novo aviso de guerra que triunfalmente entrou, ontem, em Lisboa.
Sendo uma afirmação da nossa vida presente, é uma recordação heróica dum passado, que não podemos esquecer. (a) V.G.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 2 de Setembro de 1933)

A nova esquadra - Chegou hoje ao Tejo o aviso
“Gonçalves Zarco”, que foi entusiasticamente saudado
Apesar de se prever que, devido ao nevoeiro, o novo aviso “Gonçalves Zarco” não pudesse chegar ao Tejo à hora anunciada, aquela unidade de guerra entrou no quadro às 11 horas em ponto, por ter aumentado de 12 para 18 milhas a sua velocidade logo que a cerração levantou.

A recepção em Cascais
Ao largo de Cascais, o novo navio de guerra foi recebido por uma esquadrilha constituída pelo contra-torpedeiro “Tâmega” e pelos torpedeiros “Mondego”, “Liz”, “Sado” e “Ave” e ainda por dois vapores com populares e alguns barcos de recreio com banhistas da Costa do Sol. Nos navios de guerra houve as continências regulamentares e nos mercantes estrugiram salvas de palmas e vivas entusiásticos.
Nas praias do Estoril e Cascais, centenas de pessoas assistiram à chegada do terceiro navio do programa naval. Três hidro-aviões voavam baixo. Um aparelho do grupo de bombardeamento de Alverca lançou proclamações, convidando o povo a receber mais uma unidade da nova esquadra.

O cortejo
Eram 11 horas, quando se formou um cortejo com rumo à barra. Passou para a cabeça da formatura o contra-torpedeiro “Tâmega”, seguindo nas suas águas o novo aviso “Gonçalves Zarco”, ladeado a bombordo pelos torpedeiros “Liz” e “Sado” e a estibordo pelos “Mondego” e “Ave”. Todos tinham embandeirados os topes. Na cauda da formatura seguiam barcos com muitos populares, enquanto os hidro-aviões iam evolucionando sempre a pouca altura.
A chegada ao Tejo
Pelas 10 horas o cortejo estava entre torres. Na barra havia outros barcos aguardando a sua chegada e pelas margens e pontos altos grupos de populares admiravam o belo efeito da formatura.
Em frente de Algés foi o cortejo engrossado por mais um rebocador, o “Falcão” – que conduzia os srs Adam, conselheiro da embaixada britânica, o cônsul geral da Inglaterra, sr. Robi Rowell, o director da casa Hawthorne Leslie, construtora do novo navio, o sr. Stilwell, seu representante em Lisboa e muitas senhoras da colónia inglesa.
Soaram as salvas em frente da Torre de Belém. A artilharia anti-aérea do aviso “Gonçalves Zarco” deu 21 tiros numa saudação à terra portuguesa, respondendo-lhe o Forte do Bom Sucesso. E o cortejo seguia a uma velocidade de 12 milhas.
Às 11 horas em ponto o aviso “Gonçalves Zarco”, de peças desencapotadas, com as suas bocas cobertas com placas metálicas onde reluziam os escudos nacionais, entrava no quadro perante um enxame dos navios de guerra e mercantes dificultando estes últimos, por vezes, a marcha do navio. Na Praça do Comércio havia centenas de pessoas e as janelas dos ministérios estavam cheias.
Subiram, então, nos mastros de todos os barcos da esquadra portuguesa surta no Tejo, bandeiras de saudação e as guarnições formavam nas toldas. Só os antigos vasos de guerra “Vasco da Gama” e “Adamastor”, condenados já por medida oportuna, se conservavam impassíveis e com as toldas limpas de marinheiros.
O “Gonçalves Zarco” descrevendo uma curva, passou pela popa da “Sagres”, dirigindo-se para a baía que lhe estava destinada, próximo do seu irmão gémeo, o “Gonçalo Velho”. Por uma deferência cativante do sr. Capitão-de-Fragata Afonso de Carvalho, sub-director dos serviços de marinha, o rebocador “Azinheira” largou do Arsenal de Marinha cheio de repórteres dos jornais de Lisboa e Porto e de muitos fotógrafos correspondentes de jornais estrangeiros.
Entretanto o aviso “Gonçalves Zarco” rodeado de embarcações que lhe dificultavam as manobras, amarrava à bóia às 11 horas e quinze minutos. Nesse momento, as sirenes e buzinas dos navios apitaram largamente numa saudação entusiástica ao novo navio de guerra, formando um coro ensurdecedor, de mistura com vivas e salvas de palmas.
Todos os navios da esquadra estavam embandeirados nos topos, e os torpedeiros que haviam dado escolta ao Gonçalves Zarco dirigiram-se lestos para as suas boias. Só o “Mondego” não o pode fazer desde logo, porque esteve algum tempo com avaria no leme, não chegando, porém, a utilizar reboque por ter seguido pelos seus próprios meios para a bóia.

A visita do governo a bordo
Eram 11 horas e trinta minutos quando dois gasolinas que conduziram os membros do governo e alguns oficiais do comando da Armada, atracou ao portaló do “Gonçalves Zarco”. No convés superior, o sr. Comandante Quintão Meireles, em uniforme de gala, aguardava os visitantes. Os oficiais alinhavam na tolda e a guarnição estava formada. Subiu em primeiro lugar o sr. Ministro da Marinha, seguido pelos seus colegas da Guerra, Interior e da Instrução e do sub-secretário de Estado das Finanças, almirante Saavedra Melo Cabral, comandantes Filomeno da Câmara e Oliveira Mozante e pessoal do gabinete dos ministros. Houve toques de sentido de bordo das embarcações que cercavam o novo navio, e o público saudou a entrada do Governo com uma salva de palmas.
Iniciou-se, após os cumprimentos, uma visita ao navio, que é, como se sabe, igual ao “Gonçalo Velho”, e que se apresenta impecável. Na sala dos oficiais e num quadro encimado por duas cruzes de Cristo lêem-se estas palavras em iluminura: Gonçalves Zarco – Guerreiro e navegador do século XV. Combateu valorosamente em Ceuta e em Tanger, onde foi armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique. Descobriu o Arquipélago da Madeira. Teve mercês e uma das duas capitanias em que foi dividida a Madeira. Houve de 1861 a 1876 uma canhoneira chamada Zarco, em memória deste navegador.
Terminada a visita ao navio, foi servida, na câmara do comandante, uma taça de champanhe em honra dos visitantes.

O discurso do comandante do “Gonçalves Zarco”
Usou, então, da palavra o sr. Capitão-de-fragata Quintão Meireles, que na sua qualidade de comandante, agradeceu a visita do Governo, congratulando-se com a continuidade da execução do programa naval.
Referiu-se à vida nova da Marinha, dizendo que é preciso intensificar a instrução do pessoal no mar, para que os marinheiros se acostumem aos seus navios e remunerar convenientemente os oficiais e as praças, para que essas não precisem de dividir a sua atenção por outras profissões, em prejuízo da Corporação. E terminou com uma saudação ao Governo e em especial ao sr. Ministro da Marinha.

O discurso do sr. Ministro da Marinha
Falou depois o sr. Comandante Mesquita Guimarães, Ministro da Marinha, que disse concordar com o pensamento do sr. Comandante Quintão Meireles, esperando que a pouco e pouco tudo se vá resolvendo, como tantas outras necessidades se têm solucionado. Como chefe da Corporação e como marinheiro, disse regozijar-se com a chegada de mais um navio novo, cujos tripulantes saudava. No final do discurso os membros do Governo cumprimentaram efusivamente o sr. Comandante Quintão Meireles. Pelas 13 horas, os membros do Governo e oficialidade superior da Armada abandonaram o navio, repetindo-se as continências da ordenança.
O sr. Comandante Quintão Meireles declarou aos jornalistas que o navio provou muito bem, que foram feitos trabalhos para evitar temperaturas excessivas na casa das caldeiras e que a empresa construtora Hawthorne Leslie satisfez plenamente as condições do contrato.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 2 de Setembro de 1933)

Identificação do aviso de 2ª classe “Gonçalves Zarco”
(Em comissão de serviço entre 1933 e 1964)
Nº Oficial: F475 (1946) - Iic.: C.T.B.C. - Registo: Lisboa
Construtor: Hawthorne Leslie & Co., Ltd., Hebburn, G.B., 1932
Arqueação: Tab 1.265,74 tons - Tal 357,26 tons
Deslocamento: St 966,00 ts - Mx 1.435,61 ts - Nm 1.173,48 ts
Dimensões: Pp 76,20 mts - Boca 10,82 mts - Pontal 5,18 mts
Propulsão: Do construtor - 2:Tv - 2x1000 Bhp - 17 m/h
Equipagem: 147 tripulantes

A nova esquadra portuguesa
A chegada ao Tejo do aviso “Gonçalves Zarco”
- O sr. Ministro da Marinha tem recebido grande número de telegramas de diferentes pontos do país, saudando-o pela chagada ao Tejo de mais um novo navio de guerra.
- Vai ser completada a guarnição do “Gonçalves Zarco”, que veio de Inglaterra com a sua tripulação muito reduzida. O referido navio irá mais tarde para o mar proceder a vários exercícios para a instrução e adestramento do seu pessoal.
- No dia 9 do corrente, devem seguir para Inglaterra, a fim de servir na missão naval portuguesa, o sr. Capitão-tenente Antero do Amaral, e para embarcar no contra-torpedeiro “Lima”, para fazerem parte da guarnição que o há-de trazer para Lisboa, o sr. Primeiro-tenente Santiago da Silva Ponce, o Segundo-tenente Fernando Pascoal da Veiga Oliveira, um sargento e dezoito praças.
- Este navio tem andado ali a fazer experiências, devendo terminá-las a 20 do corrente.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 3 de Setembro de 1933)

sexta-feira, 28 de março de 2014

História trágico-marítima (CXXXIII)


O naufrágio do vapor “Silva Gouveia“ (I)

Há já algum tempo ocorreu-me dar a conhecer alguns dos primeiros navios da frota da Companhia Sociedade Geral, aflorando muito ao de leve a informação relativa ao sinistro, que pôs fim à história comercial deste navio. Lembro agora o pequeno texto utilizado previamente, como segue:
Naufragou após encalhe na praia do Rosto, situada a cerca de 5 milhas do Cabo Torinana, no norte de Espanha, em 23.12.1927. A notícia do naufrágio informa que o navio se achava em perigo, devido a violento temporal, tendo lançado pedidos de socorro durante a noite. Acabaria por encalhar e afundar-se cerca da 1 hora e 45 minutos da manhã, na costa espanhola, a Sudoeste do Cabo Finisterra.

Retomo o assunto novamente, devido ao facto inesperado do casco do navio ter reaparecido, em resultado da violência dos últimos temporais. Porém antes de incluir uma das notícias publicada num jornal espanhol, obviamente com a devida vénia, fui ainda procurar saber o que consta nos jornais nacionais dessa época. O resultado revelou-se frustrante, porque não existem notícias com o retrato fiel da ocorrência, muito embora numa das edições confirma-se que a informação foi publicada, mas o jornal não se encontra disponível. Nesta conformidade, posso apenas valer-me dos textos encontrados, com o seguinte teor:

Afundou-se o vapor “Silva Gouveia”, não havendo pormenores
O vapor português “Silva Gouveia”, que se achava em perigo e que havia pedido socorro durante a noite, afundou-se pela 1 hora e 45 minutos da manhã, na costa espanhola, a Sudoeste do Cabo Finisterra. Não há por enquanto mais notícias.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 24 de Dezembro de 1927)

O encalhe do vapor “Silva Gouveia” – Mais pormenores
Por notícias hoje recebidas de Lisboa, sabe-se que o vapor "Silva Gouveia" continua encalhado próximo do Cabo Finisterra, tendo a sua tripulação desembarcado e encontrando-se no local, a fim de cooperar nos trabalhos de salvamento, o que terá lugar logo que o temporal amaine.
(In “Jornal de Notícias”, Domingo, 25 de Dezembro de 1927)

Foto do navio "Silva Gouveia"
Imagem da Photoship.Uk

Identificação do vapor “Silva Gouveia”, 1922–1927
Armador: Soc. Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lda.
Nº Oficial: 388-E - Iic.: H.S.G.O. - Registo: Lisboa
Construtor: W. Harkess & Son, Ltd., M’brough, Inglat., 10-1906
ex “Faithful”, F.H. Powell & Co., Liverpool, Inglat., 1906-1914
ex “Monmouth Coast”, Miller S/s Co., Liverpool, 1914-1922
Arqueação: Tab 1.204,55 tons - Tal 755,49 tons
Dimensões: Pp 64,50 mts - Boca 10,16 mts - Pontal 4,22 mts
Propulsão: Rich., Westgarth, 1905 - 1:Te - 149 Nhp - 11 m/h
Equipagem: 26 tripulantes

Foto 1 do casco do vapor "Silva Gouveia"
Publicada no jornal "La Voz de Galícia"

Emerge em Finisterra um vapor mercante português,
afundado em 1927. - O “Silva Gouveia”, de 64,5 metros
de comprimento, estava carregado com açúcar
Os temporais das últimas semanas não só trouxeram desgraça à Costa da Morte. A extensa deslocação de areia realizada pelo mar deixou a descoberto na praia do “Rosto”, em Finisterra, um vapor português que encalhou nesta zona, também por motivo de temporal, em 23 de Dezembro de 1927.
Ainda que o que resta do casco é basicamente parte da sua estrutura metálica, podem ser observados as traves onde se fixavam as peças na época, permitindo perceber que se tratava de um navio imponente com 64,5 metros de comprimento por 10,16 metros de boca. Na sua maior parte foi desfeito nesse próprio lugar e o que está conservado é o que escapou ao tempo, por encontrar-se há muito coberto pela areia.
O “Silva Gouveia” foi fabricado em 1906 nos estaleiros de Harkess W. & Sons de Middlesbrough (Grã Bretanha) e depois de ter vários proprietários ingleses passou para a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, de Lisboa.

Foto 2 do casco do vapor "Silva Gouveia"
Publicada no jornal "La Voz de Galícia"

Segundo a documentação recolhida pelo finisterrense José López Redonda, Pepe de Olegario, a tripulação do navio de 1.200 toneladas salvou-se por completo, todavia a carga de açúcar que transportava, da qual se encarregou a companhia seguradora, ficou parcialmente depositada na fábrica de Cerdeiras de Sardiñeiro, que viria a dar origem à actual Industrias Cerdeimar instalada en Camariñas. Teve de ser levada até ali em carros de tracção animal e «por cada viagem foram pagas 10 pesetas», explica López Redonda.
A presença do casco, que segundo alguns moradores locais já tinha sido visto em várias ocasiões anteriormente, sempre por força dos temporais, atraiu ao areal uma importante quantidade de curiosos nos últimos dias, e entre eles o Presidente da Câmara de Finisterra, José Manuel Traba, que também andou a procurar informação, para determinar qual dos navios afundados na zona se tratava.
(In jornal “La Voz de Galícia”, Domingo, 9 de Março de 2014)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Memórias dum passado recente!... (X)


A chegada do aviso “Gonçalo Velho” a Lisboa
2ª Parte

Foto-postal do aviso de 2ª classe "Gonçalo Velho"
Edição da Marinha Portuguesa - M/ colecção

Identificação do aviso de 2ª classe “Gonçalo Velho”
(Em comissão de serviço entre 1933 e 1961)
Nº Oficial: F475 (1946) - Iic.: C.T.B.B. - Registo: Lisboa
Construtor: Hawthorne Leslie & Co., Ltd., Hebburn, G.B., 1932
Arqueação: Tab 1.265,74 tons - Tal 357,26 tons
Deslocamento: St 966,00 to - Mx 1.435,61 to - Nm 1.173,48 to
Dimensões: Pp 72,20 mts - Boca 10,85 mts - Pontal 5,18 mts
Propulsão: Do construtor - 2:Tv - 2x1000 Bhp - 17 m/h
Equipagem: 147 tripulantes

O “Gonçalo Velho” tem sido visitado
e admirado por milhares de pessoas
O “Gonçalo Velho” que continua atracado ao cais da Alfândega, tem sido muito visitado. Para evitar grande aglomeração de gente a bordo, o público é contido à distância junto aos portões de acesso ao cais, só entrando por turnos de algumas dezenas.
Uma vez dentro do navio, os visitantes eram acompanhados por oficiais, sargentos e praças, que davam todos os esclarecimentos sobre o funcionamento da artilharia de 120 mm e das peças anti-aéreas, das máquinas, etc. Os populares percorriam interessados o navio de lés a lés, desciam às câmaras, às cobertas, a todas as dependências e subiam até ao alto da ponte, onde observavam a torre de comando da artilharia e tantos outros mecanismos curiosos de que o navio vem provido. Quando um turno saía, era içada no mastro da ré um galhardete indicando que os portões do cais podiam de novo ser abertos, para dar entrada a mais algumas dezenas de populares. Muita gente não chegou a visitar o navio, porque a noite veio fazer cessar as visitas. Ao fim da tarde, devido ao grande número de pessoas e ao desejo que todas tinham de entrar a bordo, deram-se ainda alguns incidentes com a força pública, mas sem quaisquer consequências.
Um numeroso grupo de escuteiros esteve pelo meio-dia a bordo, visitando demoradamente o navio. As pessoas que tiveram a sorte de conseguir entrar a bordo não ocultavam a excelente impressão colhida na visita. O “Gonçalo Velho” estará ainda patente ao público durante alguns dias.

- O sr. ministro da Marinha continuou ontem a receber um grande número de telegramas e cartas de todos os pontos do país, saudando-o e à Marinha de Guerra pela entrada no Tejo do “Gonçalo Velho”. Desses telegramas destacamos os seguintes: Arcebispo de Évora, Comandante e oficiais da Escola Prática de Engenharia, Conselho de Administração da Companhia Nacional de Navegação, Liga dos Oficiais da Marinha Mercante, governadores civis e comissões da União Nacional de Évora, Funchal, Bragança e Portalegre, administrador do concelho do Fundão, câmaras municipais de Pinhel, Abrantes, Vila do Conde, Vinhais, juntas de freguesia de Abrantes, Cedofeita e Póvoa de Varzim, Associação Comercial de Cascais e do Clube Fluvial Portuense.
- O sr. ministro da Marinha tem continuado a receber inúmeros telegramas e cartas de felicitação pela entrada no Tejo da primeira unidade naval. O sr. comandante Mesquita Guimarães recebeu também da direcção do Clube Fluvial Portuense o seguinte telegrama:
«Reiterando a nossa satisfação pelo ressurgimento da gloriosa marinha, solicitamos que a visita do “Gonçalo Velho” ao Porto se efectue num Domingo, a fim de poder receber a grandiosa manifestação promovida por este clube».
- O sr. ministro da Marinha determinou que fosse publicado na ordem da armada e lido em formatura nas respectivas unidades o discurso do sr. dr. Oliveira Salazar, presidente do Ministério, quando da sua visita ao “Gonçalo Velho”.
- O novo aviso de guerra volta quinta-feira a amarrar à bóia, sendo depois visitado pelos oficiais de artilharia de costa, aspirantes do Exército e da Armada. O seu comandante sr. Capitão-de-Fragata Francisco Luz Rebelo apresentou hoje os seus cumprimentos ao sr. ministro da Marinha, Comandante Geral da Armada, Chefe do Estado-maior Naval, Director Geral da Marinha, Intendente do Arsenal e chefe do Departamento Marítimo do Centro.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 4 de Abril de 1933)

O “Gonçalo Velho”
- O sr. ministro da Marinha recebeu hoje mais o seguinte telegrama: Funchal – Cumprimento V.Exª. pela entrada em Portugal da primeira unidade da nova Marinha de Guerra – (a) Governador Civil
- A direcção da Associação Industrial Portuguesa congratula-se vivamente com a chegada a Portugal da primeira unidade do grande plano de construção da Armada nacional fazendo votos pela obra encetada. (a) Presidente, José Maria Alves
- O sr. general José de Abreu Mateus Ortigão enviou ao comandante Mesquita Guimarães, a seguinte carta: «Notando com especial agrado a verdade das palavras proferidas pelo Exmº. sr. dr. Oliveira Salazar – para que pudessem sulcar os mares navios portugueses, foi preciso que a charrua sulcasse mais extensamente e melhor a terra da Pátria – cabe-me a honra de felicitar V. Exª. pela patriótica consagração que em 1 do corrente teve a obra realizada por V.Exª., nesta terra de marítimos, a que ainda preside o Infante de Sagres, e de lavradores associados. A Federação dos Sindicatos Agrícolas do Algarve a que tenho a honra de presidir, todos juntos, incansáveis lidadores ora com remos, ora com a charrua, enviamos a V.Exª. as nossas mais cordiais saudações».
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 5 de Abril de 1933)

terça-feira, 25 de março de 2014

Memórias dum passado recente!... (X)


A chegada do aviso “Gonçalo Velho” a Lisboa
1ª Parte

Imagem da cerimónia do bota-abaixo do aviso "Gonçalo Velho"
em Hebburn-on-Tyne, 1933. Foto da colecção de Kevin Blair

O “Gonçalo Velho” entrou no Tejo
Milhares de pessoas têm admirado a nova
unidade da Marinha de Guerra Portuguesa
O acontecimento do dia em Lisboa foi a chegada do “Gonçalo Velho”, navio simbólico que marca na verdade o início prático do ressurgimento naval nacional.
Para Cascais foi ontem de tarde e hoje de manhã uma romaria contínua de gente desejosa de ver o navio cuja linha moderna e aspecto alteroso, lhe emprestam a silhueta de um vaso de guerra do nosso tempo.
Hoje de manhã veio a Lisboa o comandante do navio sr. capitão-de-fragata Francisco Luiz Rebelo, que esteve no Ministério da Marinha a receber instruções, após o que seguiu novamente para Cascais.
Durante toda a manhã seguiram para a barra, vapores, rebocadores, pequenas embarcações e alguns iates dos clubes náuticos completamente cheios de gente, indo em alguns deles bandas de música e charangas.
Na baía de Cascais o movimento começou pelas 12 horas. Aprestavam-se numerosos barcos que deveriam pouco depois tomar o cortejo de honra. Na praia e no passeio Maria Pia iam engrossando sempre os grupos de curiosos. Muitos dos edifícios estavam embandeirados. Via-se um interesse manifesto pelo acontecimento.
Seriam 13 horas quando surgiram os primeiros aviões voando a grande altura. A chaminé elegante do “Gonçalo Velho” já fumegava. Havia azafama a bordo. Dentro em pouco o navio ia largar, para a entrada triunfal no Tejo, em cujas margens milhares de pessoas o esperavam.

De Cascais ao Arsenal
O “Gonçalo Velho” suspendeu do ancoradouro pouco antes das 14 horas, assistindo à partida o sr. Presidente da República, de uma das janelas da Cidadela.
Formou-se então o grande cortejo de embarcações de todas as formas e tamanhos, apinhados de gente, navegando à frente o novo vaso de guerra com as peças desencapadas. De terra acenavam muitos lenços brancos e ouviam-se vivas à Pátria, à República e à Armada.
O cortejo que oferecia um aspecto soberbo, sempre acompanhado por esquadrilhas de aviões militares e navais fez-se de rumo à barra, onde foi engrossado com outros barcos que ali o esperavam. Por todas as praias e outros pontos das margens, milhares de pessoas aglomeravam-se admirando o belo espectáculo do mar de que foi teatro hoje o estuário do rio Tejo.
Eram dezenas e dezenas de embarcações embandeiradas, donde saíam a cada momento saudações entusiásticas, de mistura com os acordes da Maria da Fonte e de marchas militares, que as charangas de bordo executavam. Em frente da Torre de Belém quando a artilharia do “Gonçalo Velho” troou, o entusiasmo atingiu o auge. O cortejo abrandou a marcha e o aviso esteve por vezes quase cercado de embarcações. Depois lá seguiram todos de novo rio acima. Quando o “Gonçalo Velho” chegou em frente do Arsenal, as guarnições de todos os navios da esquadra formaram em continência, içando-se em todos os mastros sinais de saudação.
O novo navio descreveu uma curva elegante e foi passar junto da fragata “D. Fernando II e Glória”, o mais velho navio da Armada Nacional. Houve novas continências e o “Gonçalo Velho” amarrou por fim à bóia que lhe estava destinada em frente do Terreiro do Paço e pela proa do “Patrão Lopes”.

À saída da baía de Cascais
Eram 14 horas e dez minutos quando o “Gonçalo Velho” levantou ferro. O aviso marchou para o sul a toda a força e o “Cabo Raso” da Administração do porto de Lisboa perseguiu-o durante algum tempo. Depois de uma larga volta, o “Gonçalo Velho” enfiou pela barra Sul. Já nessa altura era seguido e ladeado por cerca de duas dezenas de barcos, embandeirados, carregados de estudantes, de senhoras, de gente de todas as categorias. À medida que se ia aproximando de Lisboa o cortejo ia engrossando.

Em frente de Belém
Ao chegar em frente de Belém, às 15 horas e trinta e cinco minutos o número de barcos era já superior a 30. As sirenes e os apitos não cessavam e de bordo dos rebocadores soltavam-se vivas e acenavam com lenços. O primeiro avião a aparecer sobre o “Gonçalo Velho” foi o «juncker’s» de Plácido de Abreu, que descreveu caprichosa acrobacia. Depois, mais cinco aparelhos da Aviação Noval e mais uma dezena do exército e da marinha.
Durante todo o trajecto magotes de populares estacionavam à beira do rio, sobretudo na margem Norte. Junto da Torre de Belém, havia algumas centenas de pessoas. De bordo fez-se o rebentar do foguete e morteiros foram lançados em terra.

No Terreiro do Paço
Às 15 horas e quarenta e cinco minutos o “Gonçalo Velho”, que já deixara muito para trás todo o cortejo fluvial, passou em frente do Terreiro do Paço. Os barcos de carreira de Cacilhas, que iam cheios de passageiros aclamavam entusiasticamente os tripulantes do navio de guerra. Às 15 horas e quarenta e sete minutos trocaram-se as salvas de estilo entre os canhões da fragata “D. Fernando” e as peças anti-aéreas do “Gonçalo Velho”.
Os marinheiros da “Sagres” formaram nas vergas enquanto a charanga de bordo tocava o hino nacional. As guarnições de todos os outros navios de guerra formaram nas toldas soltando «hurras» à passagem do “Gonçalo Velho” entre toques militares.
O aspecto que ofereciam o Terreiro do Paço e as imediações era surpreendente. Milhares e milhares de pessoas contemplavam o novo navio de guerra, que parou em frente à Praça do Comércio a pouca distância de terra às 16 horas entre o ensurdecedor e prolongado ruído de sirenes e apitos.
Um enxame de barcos que rodeavam o “Gonçalo Velho”, todos eles cheios de gente que aclamava a tripulação e o Governo, distinguindo-se nas manifestações a academia. A primeira entidade oficial a entrar no “Gonçalo Velho” foi o sr. Segundo-tenente Castro e Silva, representante do chefe das forças navais surtas no Tejo. Às 16 horas e trinta minutos aproximou-se do “Gonçalo Velho” um gasolina com o Governo, que foi muito aclamado por todos os passageiros dos barcos. No mesmo gasolina vinham outras altas entidades entre as quais o Comandante Geral da Armada, e o Governador Militar de Lisboa, srs. Almirante Magalhães Correia e comandante Pereira da Silva.

Visitas dos membros do Governo
Os membros do governo visitaram demoradamente o navio, acompanhados pelo seu comandante sr. Capitão-de-fragata Francisco Luiz Rebelo, a quem foi entregue um ramo de flores, oferecido pelo presidente do município.

Recepção aos ministros e o Porto de Honra
Na Câmara do comandante do navio realizou-se depois a recepção aos ministros, a quem foi servido um Porto de Honra.

Discurso do ministro da Marinha
Em seguida, o ministro da Marinha dirigindo-se ao chefe do Governo agradeceu, em nome da Armada Portuguesa, descerrando um retrato do presidente do Ministério, que ficará na Câmara do comandante. O sr. Comandante Mesquita Guimarães, ministro da Marinha disse depois para os oficiais da Armada:
- Tem sido sempre uma aspiração suprema dispor daquele mínimo material naval a que a sua competência técnica e o seu patriotismo dêem a eficiência necessária que o transformem num núcleo de defesa do Estado capaz de garantir na parte que lhe cabe os direitos à independência, integridade de nação na hora incerta, em que as circunstancias nos obriguem a recorrer ao mais extremo meio de assegurar aquela defesa, as deficiências de orientação, a falta de continuidade do critério e até a falta de verdadeiro conhecimento da importância da Marinha no prestígio, como na defesa do Estado. Por um lado as dificuldades financeiras e o espírito de contínua improvisação, pelo outro tudo fez com que se chegasse à grande guerra sem possuirmos aquele mínimo aquém do qual as despesas da Nação com a sua defesa, à força de não poderem realizar o seu objectivo, quase que podem considerar como improdutivas. Foi necessário improvisar-se tudo e aqueles que já hoje são velhos e outros que ainda são novos, recordou quantas torturas sofreram seu espírito, o seu amor próprio e a sua vontade de bem servir a Pátria e quantas horas amargas viveram nos anos que para nós durou a guerra, querendo servir e não dispondo para tal dos meios indispensáveis.
Veio a paz e com ela mais uma vez era de recear que predominasse a nossa tendência para descurar ainda mais se possível a nossa defesa. Mas os ensinamentos de ordem material, não menos que os de ordem moral eram demasiado convincentes para que a corporação da Armada não pugnasse pela modificação de um tal estado de coisas. Contudo o país passada a hora do perigo, pouco se interessava pelos problemas da defesa nacional. Era necessário criar nele a consciência da necessidade dessa defesa e no nosso caso na reconstrução da marinha como na corporação que criara e cimentara durante a guerra, a consciência profissional lhe permitisse definir claramente o que essa marinha devia ser.
O sr. Ministro da Marinha historiou em seguida as diversas fases por que passou o plano de ressurgimento da Armada, pondo em destaque o papel que a imprensa desempenhou para a propaganda dessa luta de ressurgimento.
E prosseguindo:
- A situação era porém daquelas que impunham as maiores restrições nas despesas. Em 1928 a situação financeira com o orçamento do Estado fortemente desequilibrado exigia dos diferentes ministérios cortes draconianos de despesa a que os ministérios militares não podiam escapar, impunha-os a situação, impunha-os na exacta compreensão dela, do sr. dr. Oliveira Salazar chamado a pôr ordem na administração financeira, o que exigia o saneamento em toda a administração do Estado.
Era necessário reduzir e o dilema que a todos foi posto, ou os ministros reduziam as despesas dos seus departamentos pela forma que menos prejudicasse o funcionamento e a eficiência do serviço ou ele teria de cortar impetuosamente a cota parte da redução e que à marinha coube, andou à volta de 40.000 contos, o que num orçamento de 180.000 contos se afigurava de difícil realização. Esse esforço da corporação da armada na hora de sacrifícios financeiros, prosseguiu o ministro, foi devidamente apreciado pelo sr. dr. Oliveira Salazar, que ao afirmar que a marinha tinha compreendido melhor do que ninguém a sua intenção e concorrido para que ela tivesse uma imediata realização, solenemente me declarava também que ela seria dotada com os meios necessários ao exercício da Pátria, que lhe cabe na elevada missão da guarda e defesa dos direitos e da integridade da Nação, uma vez que, realizado o seu plano, o tempo trouxesse o desafogo financeiro que permitisse começar as fases da reconstituição nacional e essa promessa foi integralmente cumprida, sabem-no os que me escutam. O sr. dr. Oliveira Salazar está a restituir à marinha capital e juros, as economias realizadas nos seus orçamentos.
E prosseguiu:
- O “Gonçalo Velho”, a primeira unidade a incorporar-se no efectivo da marinha é aos olhos dos portugueses também a primeira prova palpável do que seu plano de defesa naval começou a ter realização prática. A curtos intervalos outras unidades se seguirão sem esquecer aquelas que, dentro dos nossos recursos de construção estão a ser construídas no Arsenal e nos estaleiros particulares nacionais. Por isso, este momento é de intenso júbilo, não só para a marinha como para a Nação consciente da necessidade de assegurar a sua defesa e confiante que ela está posta em mãos firmes, entregue a inteligências lúcidas, servindo um elevado patriotismo e uma sólida vontade de bem servir.
Terminou manifestando o reconhecimento da Armada a todos aqueles que contribuíram para o seu ressurgimento.

Fala o sr. Presidente do Ministério
Seguiu-se no uso da palavra o sr. Presidente do Ministério. O sr. dr. Oliveira Salazar proferiu o seguinte discurso:
- Dois pensamentos contrários me dominam neste momento: é preciso que tenhamos descido muito baixo para que seja um acontecimento nacional a chegada de um pequeno navio para a Marinha Portuguesa; é preciso que vá já muito alto no seu caminho ascensional a reorganização do país, para que este haja saído da sua indiferença, do seu triste conformismo, como todos os aviltamentos e venha saudar tão entusiasticamente a reorganização da sua gloriosa Marinha de Guerra.
Eu não tenho hoje, porém, senão um dever – alegrar-me com todos os que se alegram apesar de não ser susceptível do entusiasmo exuberante por temperamento e pela convicção de que as coisas não acontecem por acaso, mas porque se prepararam e porque se merecem.
E é esse o caso. Começam chegando ao Tejo ou vão sendo construídos nele os navios da nova esquadra. É a realização do que muitos julgavam um sonho e tantos uma impossibilidade. Eu sou testemunha da longa luta no Ministério da Marinha com esse estado de espírito de descrença, de desconfiança, de hipocretinismo doentio que ainda vem dos velhos tempos que tudo azeda, que tudo destrói e que ainda nada pode construir.
O povo não: esse reanimou a chama da sua fé patriótica e esperou. Esperou através de sacrifícios, nas restrições injustas, nas contrariedades da crise, do feroz egoísmo internacional e o plano da sua reconstrução fosse sendo executado. E quando tudo estava preparado ele o foi nesta parte.
Este pequeno navio entrou nas águas portuguesas, pago, antecipadamente pago, integralmente pago, todo com dinheiro de portugueses; a Armada portuguesa a renovar-se nos mesmos anos em que o país colheu todo o pão para comer. Os políticos do acaso encontrarão nisto uma simples coincidência; mas eu afirmo que está aí a base fundamental e a razão desse custoso empreendimento.
Nós não teríamos ouro para pagamento imediato da nova esquadra se pelas campinas não houvessem florido as searas abundantemente. Para que pudessem sulcar nos mares os navios portugueses foi preciso que a charrua sulcasse mais extensamente e melhor as terras da Pátria, poupando à Nação largas somas do seu ouro. Para que estará fadado agora este pequena navio? Para a guerra? Para a paz? Nós queremos firmemente que não seja para a guerra; nós queremos firmemente que seja para a paz. Mas seja qual for o seu destino, o que queremos é que albergue sempre portugueses, testemunhe sempre o valor dos nossos marinheiros, afirme sempre o heroísmo da raça portuguesa e a glória incólume da nossa Pátria. Embaixador de Portugal por todos os mares, nós queremos que ela seja sempre a afirmação clara da nossa herança passada e do nosso presente, a expressão mais alta dos nossos princípios que tornaram possível e fizeram ressurgir a paz interna, a ordem pública, a compreensão do interesse nacional, a unidade da Pátria, a seriedade da administração e os sacrifícios de todos, em prol do bem comum.
Sob a bandeira de Portugal vai este pequeno navio cruzar os mares distantes, visitar os longínquos países, os portugueses espalhados por todas as partes do mundo.
Não há, senhores oficiais e valentes marinheiros que esconder a face, mas que erguer altivamente o rosto. É uma pátria renascida cercada do prestígio que lhe granjearam o seu esforço próprio e os seus processos de governo. E já me não custa agora, a mim, falar da alta estirpe dos marinheiros portugueses porque sinto fortes os vossos ombros para levar a sua pesada herança.
Senhor ministro, cumprimento na pessoa de V. Excelência a Marinha de Guerra e permita-me saudar, no comandante deste navio, essa futura esquadra portuguesa – uma esquadra nova, que seja uma nova esquadra.

Em seguida todo o governo desembarcou, tendo as peças anti-aéreas salvado com 21 tiros. O aviso “Gonçalo Velho” atracou mais tarde à ponte da Alfandega, onde estará durante quatro dias exposto ao público.
- Os cumprimentos dos oficiais e do comandante do navio realizam-se na próxima segunda-feira.
- O navio logo que tenha a lotação completa, além de visitar o Porto e Setúbal irá à Madeira e Açores. Consta que vai substituir o cruzador “Adamastor” em Macau.
- O sr. ministro do interior recebeu hoje o seguinte telegrama: Évora, 1 – Os representantes da guarnição militar, União Nacional, funcionalismo público e o povo desta cidade, reunidos no mesmo gabinete, manifestaram o sentir e profundo regozijo pela entrada em águas portuguesas da primeira unidade da reorganização do poderio naval português. (a) Governador civil, Gomes Pereira.
- No ministério do Interior foram também recebidos inúmeros telegramas de vários pontos do País, felicitando o Governo pela chegada do “Gonçalo Velho”.
- Em reunião da direcção da Associação Industrial Portuguesa foi aprovado um voto de congratulação pelo ressurgimento da Marinha de Guerra Portuguesa.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 2 de Abril de 1933)

sexta-feira, 21 de março de 2014

História trágico-marítima (CXXXII)


O naufrágio da chalupa “Marie Yvonne”

No Cabo Raso afundou-se a chalupa francesa “Marie Yvonne”,
morrendo cinco dos seus tripulantes
No sítio denominado Baía de Prata, a leste do Cabo Raso, naufragou hoje (23.12.1927), pelas 2 horas da madrugada, uma chalupa francesa denominada “Marie Yvonne”, que andava na pesca da lagosta. (!)
Os tripulantes eram em número de seis. Completamente desamparados de socorros lutaram desesperadamente com as ondas. Mas, baldadamente o fizeram; só um deles, de nome Henri Marcel, conseguiu salvar-se a nado. Pode-se fazer ideia do anseio com que levou a cabo a sua dolorosa aventura.
Depois de lhe terem prestado auxílio no Posto de Socorros a Náufragos, o pobre marítimo veio para Lisboa. O seu estado não apresenta gravidade. Dirigiu-se ao consulado do seu país.
O pessoal do posto semafórico de Oitavos solicitou que fossem iniciados os trabalhos necessários para ver se é possível encontrar os cadáveres dos infortunados marinheiros.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 24.12.1927)

Imagem sem correspondência ao texto

(!) Seria porventura possível um navio estrangeiro encontrar-se a pescar em águas nacionais, certamente sem autorização, numa área que devia apresentar um considerável tráfego marítimo e, muito provavelmente, estar próximo de terra, considerando que um dos tripulantes conseguiu salvar-se a nado?
E ainda, se não fosse a circunstância do naufrágio, entrar num porto e vender o peixe, ou as lagostas, como se tratasse de produto importado?
Sim, era possível, porque a fiscalização exercida sobre os navios de pesca, e principalmente os estrangeiros, durante a noite, ou não existia, ou raiava os limites do absolutamente necessário. O motivo de tal alheamento passava pela inexistência de meios navais adequados a esse serviço, situação entretanto resolvida pela nossa Marinha, depois de razoável quantidade de reclamações sistematicamente apresentadas pelos pescadores, sujeitos a insultos e quantas vezes a propiciarem conflitos com dramática gravidade.
Tempos difíceis, somente ultrapassados anos depois com a modernização e a renovação das unidades de marinha, decapitando o exagero e a ousadia de explorar os recursos do mar, que nos pertence por herança e por direito.

domingo, 16 de março de 2014

Memórias dum passado recente!... (IX)


O lançamento ao mar do aviso “Pedro Nunes”
1935/1956 - 1956/1976

O aviso “Pedro Nunes” construído em Portugal,
será lançado ao mar depois de amanhã (17.03.1934)
Continuam com grande actividade os trabalhos para o lançamento ao mar depois de amanhã do aviso “Pedro Nunes”. Ontem, este navio foi levantado na carreira, a fim de poderem arranjar colocá-lo de modo a facilitar o lançamento à água.
O “Pedro Nunes” não faz parte do programa naval, nem o aviso “Infante D. Henrique”, (nome inicialmente previsto para o aviso de 2ª classe “João de Lisboa”), que vai ser construído. Foram hoje depositados no gabinete do almirante intendente do Arsenal de Marinha as duas placas em bronze, que vão ser colocadas a bordo do referido aviso.
Realizando-se depois de amanhã, no Arsenal de Marinha, o lançamento ao mar do navio de guerra “Pedro Nunes”, o sr. ministro da Guerra mandou convidar os oficiais do exército que não estejam de serviço, a assistir aquela cerimónia, devendo os mesmos oficiais comparecer de pequeno uniforme e, podendo, fazendo-se acompanhar de senhoras de sua família. Os oficiais generais terão lugar numa tribuna e os oficiais superiores em local reservado.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 16 de Março de 1934)

Foto do aviso de 2ª Classe "Pedro Nunes"
Imagem de autor desconhecido

Identificação do navio “Pedro Nunes”
Nº Oficial: A528 (1956) - Iic.: C.T.P.W. - Registo: Lisboa
Construtor: Arsenal de Marinha, Lisboa, 1934
Arqueação: Tab 986,88 tons - Tal 229,37 tons
Deslocamento: St 1.107,00 t - Mx 1.217,00 t - Nm 1.162,00 t
Dimensões: Pp 68,00 mts - Boca 10,00 mts - Pontal 5,00 mts
Propulsão: Man, Alemanha - 2:Di - 8:Ci - 2x1200 Bhp - 16 m/h
Equipagem: 119 tripulantes

O aviso “Pedro Nunes” é amanhã lançado à água
É amanhã lançado à água o aviso “Pedro Nunes”, o quarto navio de guerra com este nome na Armada portuguesa. O lançamento efectua-se às 16 horas, por ser essa a altura da preia-mar.
Foram distribuídos 8.000 convites, cujos portadores deverão respeitar as instruções do pessoal para que a arrumação de tanta gente se possa fazer na melhor ordem.
Foram hoje expostas na Intendência do Arsenal as duas artísticas placas em bronze, que figurarão no “Pedro Nunes”, e que constituem duas belas obras de arte.
Também ali ficou hoje depositado o interessante modelo do navio, na escala de 1 por 100 executado nas oficinas do Arsenal.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 17 de Março de 1934)

O lançamento do aviso “Pedro Nunes” à água
Foi hoje lançado à água, com grande solenidade, no Arsenal de Marinha, o aviso “Pedro Nunes”, de 1.016 toneladas de deslocamento, destinado especialmente ao serviço nas colónias.
Apesar do mau tempo, a assistência não foi inferior ao que era esperado. A partir das 14 horas e trinta minutos, o Arsenal foi franqueado aos portadores de cartões de convite. Nas oficinas daquele estabelecimento fabril, a laboração cessara pouco tempo antes. Muitos operários, com as suas famílias ocuparam os telhados dos barracões e outros pontos altos, donde melhor pudessem admirar o espectáculo da descida do navio para as águas do Tejo.
A pouco e pouco, a multidão ia engrossando dentro do Arsenal. Na carreira tudo estava a postos para a cerimónia do lançamento. O “Pedro Nunes”, embandeirado nos topes, oferecia um belo aspecto.
No varandim da Intendência do Arsenal, aglomeravam-se também centenas de pessoas. As janelas das repartições dos ministérios da Marinha, das Colónias e da Guerra regurgitavam. Havia gente por toda a parte. No rio, em frente da carreira, pairavam algumas embarcações, também elas apinhadas de gente.
Pouco depois das 15 horas alinhou próximo da tribuna uma guarde de honra da Marinha, com bandeira e a banda da Armada. A essa hora era já difícil o trânsito dentro do Arsenal. Os convidados iam sendo recebidos pelos srs. Almirante António da Câmara, intendente daquele estabelecimento, capitão de mar-e-guerra Francisco António de Sequeira, director das construções navais e capitão-de-fragata Sousa Mendes, autor do projecto, director da construção do “Pedro Nunes” e sub-director das construções navais.

Antes do lançamento
As entidades oficiais começaram a chegar pelas 15 horas e quinze minutos. Entre outros compareceram os srs. Almirantes Sarmento Saavedra, Mendes Cabeçadas, Ivens Ferraz e Pedreira Caçador; generais Daniel de Sousa, Vieira da Rocha, Alexandre Malheiro, Amílcar Pinto, Lacerda Machado e Bernardo Canto, drs. Carneiro Pacheco e Sousa Monteiro, embaixador Teixeira de Sampaio, engenheiro Sá Nogueira, etc.
Oficiais do Exército e da Armada com suas famílias eram em número de algumas centenas. Computava-se em 8.000 o número de pessoas que às 15 horas e trinta minutos enchiam toda a área do Arsenal, de onde se podia ver o lançamento.
Do Governo chegaram entretanto os ministros da Marinha, do Interior, da Guerra, do Comércio e da Agricultura; o sub-secretário das Finanças, em representação do chefe do governo; representantes de outros membros do Governo, etc. O sr. ministro das Colónias fez-se representar na cerimónia do lançamento, pelo seu secretário sr. engenheiro Xavier Cordeiro.
Eram 16 horas, quando chegou ao Arsenal o sr. Presidente da República, acompanhado pelo chefe da sua Casa Militar, sr. comandante Sequeira Braga. A banda executou a «Portuguesa» e a guarda de honra apresentou armas. Depois de passar revista à força o chefe de Estado e os ministros dirigiram-se para a tribuna.
Na carreira, o pessoal sob a direcção do mestre Eduardo Pestana, aprestava tudo para o lançamento. O Arsenal, com telhados e janelas coalhados de gente, parecia uma colmeia monstra. Em diversos pontos flutuavam bandeiras nacionais.

O navio entra na água
Às 16 horas e cinco minutos, dadas as últimas ordens, foram abatidas as «ringeiras» que sustinham o «berço» do navio. Era o momento. O chefe de Estado colocou a mão na proa do “Pedro Nunes” e proferiu, comovido, estas palavras: «A bem da Nação!».
Simultaneamente os «macacos» hidráulicos deram um ligeiro impulso ao «berço» e o novo navio de guerra começou a deslizar, imponente, pela carreira. Na ponte de comando, o capitão-tenente Pires da Rocha, que o vai comandar, seguia perfilado, em continência. Os operários que iam a bordo entregaram-se a entusiásticas manifestações. Em terra as aclamações eram também delirantes. Milhares de pessoas saudavam a Armada. As sirenes dos barcos surtos no Tejo silvavam fortemente. O ambiente era de comunicativa alegria.
Quando o “Pedro Nunes” ficou inteiramente a flutuar, extinguiram-se em terra os acordes da «Portuguesa» executada pela banda da Armada e o povo aclamava ainda a Marinha e a República com calor e vibração.
Enquanto o novo navio, que tem uma linha admirável, era rebocado para a sua bóia, o Chefe do Estado cumprimentou o engenheiro Sousa Mendes, pelo êxito do lançamento.
Em seguida o sr. general Carmona entregou as insígnias do Mérito Industrial aos srs. desenhador Gabriel Fernandes, José Dias que intervieram na construção, contra-mestre e operário Manuel Santos, dirigindo-lhes ao mesmo tempo palavras de saudação. Foi também condecorado o operário José Baptista, que não recebeu as insígnias por estar na missão naval portuguesa em Inglaterra.
Depois de admirar na Intendência as placas de bronze destinadas ao “Pedro Nunes” e o modelo do navio, o Chefe do Estado retirou-se com as honras da ordenança.
Houve depois um lanche de confraternização do pessoal arsenalista, ocasião em que foram trocados brindes entusiásticos.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 18 de Março de 1934)

sábado, 15 de março de 2014

História trágico-marítima (CXXXI)


O encalhe do vapor " Aviz "

À entrada do porto de Leixões o vapor português “Aviz”
bate na ponta do cais do molhe sul, arrombando o casco
Ontem (12.03.1934), às 9 horas e meia da manhã quando o vapor português “Aviz”, da Companhia Atlântica de Navegação, demandava o porto de Leixões, uma volta de mar impeliu-o de encontro ao cabeço do molhe sul, abrindo água. Atendendo à gravidade do momento, o capitão do vapor “Aviz”, que tinha conseguido vencer a entrada do porto debaixo de grande maresia, dirigiu o vapor em direcção a uma pequena praia existente dentro do porto ao norte, e um pouco por oeste do cais do porto de serviço, onde o encalhou, pois que o “Aviz” se achava já com a popa bastante submersa.
Dado o alarme, compareceram logo a prestar assistência aos tripulantes, além do barco-motor salva-vidas “Carvalho Araújo”, as lanchas dos pilotos, e, ainda o rebocador “Mars 2”, que se colocou próximo do vapor, na eventualidade de serem necessários os seus serviços.
Entretanto, de bordo do “Aviz” eram lançados alguns foguetões para terra, que serviram para estabelecer algumas espias para o cais com o fim de melhor o aguentar em posição direita. Mais tarde, estes mesmos serviços foram prestados pelo rebocador “Mars 2” e pelas lanchas dos pilotos, que também passaram espias ao “Aviz”, tendo o “Mars 2” puxado algum tempo por ele para lhe endireitar a proa.
Pelas 3 horas da tarde, como mais nada houvesse para fazer a bordo, pois que, dada a sua situação, o “Aviz” se podia considerar perdido, a sua tripulação, composta de 21 homens, incluindo o capitão, sr. Francisco F. Mano abandonou-o, saltando para o salva-vidas “Carvalho Araújo”, que os conduziu para terra, sendo-lhes, prestada a assistência necessária no Posto de Socorros a Náufragos de Leixões.

Imagem do vapor "Aviz" encalhado em Leixões
Foto de autor desconhecido - minha colecção

Identificação do vapor “Aviz”
Armador: Comp. Atlântica de Navegação, Lisboa, 1934-1934
Construtor: Rijkee & Co., Roterdão, Holanda, 1902
ex “Import”, N.v. Rotterdam-London Mij., Roterdão, 1902-1934
Arqueação: Tab 874,10 tons - Tal 532,49 tons
Dimensões: Pp 63,40 mts - Boca 9,21 mts - Pontal 4,00 mts
Propulsão: Fyenoord, Roterdão - 1:Te - 3:Ci - 200 Nhp - 9 m/h

O vapor “Aviz” vinha de Lisboa, com carga diversa para o Porto, estando previsto carregar em Leixões para sair com destino a Hamburgo e outras escalas. Era o antigo vapor holandês “Euterpe” (!?), que também fazia carreiras para este porto, sendo comprado pela Companhia Atlântica de Navegação que, primitivamente o batizou com o nome “Porto”, nome com que chegou a Portugal, e que, pouco depois foi alterado para “Aviz”. Era de 897 toneladas, tendo sido construído em 1903.
Este sinistro causou grande alarido em Matosinhos e Leça da Palmeira, em virtude de se recear vitimas, devido às más condições do tempo e mar que fazia na ocasião em que o “Aviz” demandava o porto, o que, como tal, foi considerado como uma das maiores temeridades e arrojo do seu capitão, tanto mais que na Capitania do porto de Leixões se achava içado o sinal de mau tempo e de porto impraticável. Só à boa sorte se atribui o não haver, talvez, hoje, vidas a lamentar, o que apraz sempre registar.

A narrativa do naufrágio
Logo após ter sido conhecida a notícia do sinistro, correu a Leixões uma multidão numerosa, ansiosa por saber o que se passava. A gente dos bairros piscatórios também ali acorreu em massa.
Entre as pessoas autorizadas que, próximo da muralha, comentavam o sucedido, encontramos o capitão da marinha mercante sr. Copérnico da Rocha, que sobre o sinistro declarou:
- O navio saiu de Lisboa com pouca carga. O mar, sempre mau, o tempo de forte ventania, impossibilitavam o andamento do navio para barlavento. Desta maneira, o navio, caindo sempre, para sotavento, estava no perigo iminente de vir à costa. Conseguindo ter chegado fora do porto de Leixões, já muito perto da praia, sem que o tempo tivesse amainado, e ainda na perspectiva de piorarem as condições atmosféricas, resolveu o capitão, de comum acordo com os oficiais e principais elementos da equipagem forçarem a entrada no porto, visto ser esta a única maneira viável para a salvação de vidas e, hipoteticamente, do navio. E, assim, sob uma tempestade no mar com muito vento, depois de ordenar todas as manobras necessárias para um perigo desta ordem, o “Aviz” aproou ao porto de Leixões, tendo, depois de haver sofrido violentas voltas de mar, chegado entre molhes. Neste momento, uma vaga violentíssima arremessou-o, fortemente, contra o molhe sul, no qual bateu com a amura de estibordo.
Ainda em situação de perigo iminente em que tudo estava, o capitão, ordenou, imediatamente, mais força na máquina, a fim de conseguir entrar no porto. Nesta altura o homem do leme anunciava ao capitão que o leme não governava, pois, logo no primeiro embate, ficara desmantelado. Com muito esforço, e já depois do navio se ter arreado da popa, ainda o capitão conseguiu encalhá-lo numa praia limpa, onde só as péssimas condições de tempo e mar, não permitirão que se salve.
- Era inevitável o naufrágio?
- Inevitável. O capitão tinha que proceder assim. De outra maneira, o navio batia contra as rochas, e era uma tripulação irremediavelmente perdida. O capitão, homem experimentado, com 22 anos de comando, fez um prodígio. Não perdeu a serenidade nem a coragem. E estas horas difíceis na vida de um marinheiro nem sempre se aguentam. Esses homens devem-lhe a sua vida, porque se o capitão perdesse a serenidade, teríamos a lamentar uma grande tragédia. Foi um bravo, concluiu o entrevistado.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 13 de Março de 1934)

O vapor “Aviz”
Como dito anteriormente o vapor acha-se encalhado na praia, ao molhe norte, depois de ter embatido no molhe sul, devido à enorme agitação do mar. O navio considera-se perdido, e apesar da protecção do local, está constantemente a ser batido pelas vagas, que ameaçam partir o navio a meio.
Ontem, à tarde, a popa já estava mais mergulhada na água, sendo esta parte do vapor atravessada pelas ondas, que por vezes se elevavam a grande altura.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 14 de Março de 1934)

Informação complementar
O vapor foi reparado provisoriamente, tendo seguido para Lisboa, e já no Tejo foi novamente encalhado. Não se justificando a reparação definitiva, devido à gravidade das avarias, foi vendido para demolir em Lisboa, em 1936.

quinta-feira, 13 de março de 2014

A 1ª escala do “Azores” em Leixões


O regresso de um clássico







No decorrer do cruzeiro inicial do navio “Azores”, com partida desde Lisboa, o paquete fez ontem (12.03.2014) uma curta escala de 6 horas em Leixões, saindo com destino a St. Peter Port (Guernsey - Channel Islands). Porque acreditamos que se ainda não está tudo dito sobre este navio de cruzeiros, pouco mais haverá para dizer ou escrever, incluímos apenas algumas fotos para registar a primeira visita do navio enquanto propriedade da Postuscale Cruises, neste porto.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Memórias dum passado recente!... (VIII)


O navio alemão “Barbara”

Entrou ontem (18.10.1927) em Leixões, vindo de Hamburgo, o vapor alemão “Barbara”, que é o primeiro navio munido do sistema de navegação inventado por Fletner que escala o porto. No que consiste este sistema, realmente admirável não só pelo espírito de concepção do seu inventor, como ainda pelos esplêndidos resultados práticos que vem dando, justificando a imediata publicação, logo que a notícia do invento foi posta a correr pelo mundo.
O “Barbara” é um vapor de modelo standard, para o transporte de carga e passageiros, movido por dois motores a óleo que o fazem navegar a uma velocidade de 10 milhas por hora. Posto em acção o invento de Fletner, o vapor pode alcançar as 14 milhas sem que para isso necessite de despender novas energias, visto que o reforço – base primária do invento – é produzido por um pequeno motor eléctrico accionado pelo vento que é captado pelas três torres durante o seu movimento, que é circular e permanente.
Como se depreende, a economia que este sistema produz é grande, pelo que o invento deve ter um largo futuro na navegação marítima.

O navio "Barbara" no porto de Hamburgo
Imagem Photoship.Uk

Identificação do navio “Barbara”
Armador: Governo Alemão sob operação de Rob M. Sloman Jr., Hamburgo, 1926-1933
Construtor: A.G. Weser, Bremen, Alemanha, 07.1926
dp “Birkenau”, Bugsier-, Reederei A.G., Hamburgo, 1933-1947
dp “Else Skou”, D/S Ove Skou A/S, Copenhaga, 1947-1963
dp “Fotis P”, F. Petropoulakos Bros., Piréu, Grécia, 1963-1967
dp “Star of Riyadh”, Orri Lines, Jeddah, A. Saudita, 1967-1978
Arqueação: Tab 2.077,00 tons - Tal 1.028,00 tons
Dimensões: Ff 89,70 mt - Pp 86,75 mt - Bc 13,23 mt - Ptl 5,10 mt
Propulsão: A.G. Weser, 1:Di - 12:Ci - 235 Nhp - 10 m/h
O sistema de propulsão Fletner foi mantido e utilizado até 1933, a partir de quando utilizou apenas o motor convencional diesel instalado a bordo. Remotorizado em 1948.
O navio foi afundado ao largo de Jeddah, em Agosto de 1978

O “Barbara” demorou de Hamburgo a Portugal, 4 dias, tendo feito sempre boa viagem, com os resultados mais satisfatórios. Pertence à companhia Rob M. Sloman Jr., de Hamburgo, que já possuiu outros navios a utilizar este sistema e se acha, segundo opinião do consignatário do navio no porto, o sr. Burmester, absolutamente satisfeita com os resultados obtidos até à data.
Os navios munidos do sistema Fletner andam, todavia, ainda em experiência, pois que o seu inventor espera conseguir tornar a navegação, por aquele processo, bastante mais económica.
(In jornal “Comércio do Porto”, 19 de Outubro de 1927)

Comentário: Quem diria que esta fantástica e inovadora descoberta do século XXI, já conta quase 75 anos de utilização, interrompida por algum tempo, eventualmente por não ser fiável, como agora se admite. O conceito, actualmente como outrora, indica a mesma preocupação em evitar despesismo, poupar combustível, porque era caro. Porém, há sempre alguém que por força das circunstâncias tem presente, que o dinheiro, hoje e mais do que antes, nunca foi barato.

sábado, 8 de março de 2014

O dia Internacional da Mulher


O amor pode esperar!

Imagem «Foto na história - Prof. Luciano Urpia»

Celebro o Dia Internacional da Mulher com a imagem de uma despedida. A foto retrata a partida do navio-escola italiano “Amerigo Vespucci”, numa viagem efectuada em 1963. Como sempre acontece, neste e em outros locais de despedida, oferece-me apenas dizer que primeiro está o mar, porque!...

quinta-feira, 6 de março de 2014

História trágico-marítima (CXXX)


O naufrágio da canhoneira “Guadiana”

Lisboa, 3 de Outubro – Hoje, ao meio-dia, a canhoneira “Guadiana”, do comando do 1º Tenente sr. Anadia, que estava em Cascais para o serviço de pilotagem da barra, levantara ferro para seguir para o Tejo por ter sido rendida nessa comissão pelo vapor “Lidador” e dirigiu-se para a barra, encostando a terra pela restinga denominada «Morta», perto do Monte Estoril, em frente do chalet do sr. João Henrique Ulrich, pouco distante do local onde houve ontem um simulacro de naufrágio. Ali ficou a canhoneira encalhada sobre bombordo e com a borda dentro de água, tendo um grande rombo próximo da casa da máquina. Vendo-se em risco, a guarnição desceu para os escaleres e pôs-se ao largo, com receio da explosão das caldeiras.
Acudiram vários escaleres de outras embarcações de Cascais, mas os marinheiros voltaram ao navio e em quatro horas desarmaram-no, passando para os salva-vidas e escaleres todo o material de artilharia.
Consta que o naufrágio foi devido a desarranjo no leme, mas parece que o comandante deixou aproximar o navio mais de terra, porque de outro modo não haveria a perda do navio. A pancada nos rochedos foi de tal forma violenta, que também abriu algumas pedras.
A bordo da canhoneira “Guadiana”, quando se tratava de salvar o material, ficaram feridos levemente alguns marinheiros. Sua Majestade el-Rei, que tinha ido com Sua Alteza o infante D. Afonso ao local do sinistro, também teve um ligeiro ferimento.
Há esperanças que o navio seja posto a nado amanhã.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 4 de Outubro de 1892)

Foto do encalhe da canhoneira "Guadiana", no Estoril
Imagem de autor desconhecido - colecção Francisco Cabral

Identificação da canhoneira “Guadiana”
Nº Oficial: N/tem - Iic.: G.Q.H.V. - Armamento: Lisboa
Construtor: Desconhecido, Inglaterra, 20.08.1879
Inicialmente foi considerada vapor, depois transporte e finalmente canhoneira de estação em 1833.
Deslocamento: 245 tons.
Dimensões: Pp 32,94 mts - Boca - 5,36 mts - Pontal 2,44 mts
Propulsão: 1 motor compósito, 60 cavalos vapor - Veloc. 9 m/h
Superfície do velame: 284 m2
Equipagem: 38 tripulantes
Artilharia: 3 bocas-de-fogo
O navio chegou a Lisboa a 22 de Outubro de 1879, procedente de Londres, em 7 dias de viagem. Fez parte da Estação Naval de Angola e de Cabo Verde, operou na fiscalização da costa algarvia e desempenhou várias missões na Guiné e Cabo Verde.

Acabou por dar-se uma coincidência notável.
No Domingo teve lugar em frente da praia do Monte Estoril um simulacro de naufrágio para experiência dos socorros; pois no dia imediato, exactamente no mesmo sítio, naufragou, mas desta vez a valer, a canhoneira “Guadiana”, que tinha ido há dias para Cascais, para o serviço de pilotagem. Parece que o sinistro foi devido a vir a embarcação navegando muito à terra e ter dado sobre uma pedra, que lhe arrombou o casco e fez submergir-se. Ao princípio julgou-se a canhoneira completamente perdida, mas as ultimas notícias davam como provável a possibilidade de ser posta novamente a nado.
Eis como um jornal de Lisboa relata o sinistro:
«Cerca do meio-dia de ontem, a canhoneira “Guadiana” que andava bordejando na baía de Cascais, indo até ao canto da fortaleza, foi costeando até ao sítio da Moita, em direcção ao Monte Estoril, a uns 70 metros de terra. Neste lugar, que é todo eriçado de pedregulhos, o navio foi de encontro a uns grandes penedos e, fazendo rombo a bombordo e estibordo, meteu água. Imediatamente a tripulação fez sinais de socorro, subiu aos mastros, receando que pudessem explodir as caldeiras.
De Cascais os marinheiros que estavam na praia já seguiam com ansiedade a marcha do navio, prevendo aquele desastre, que ninguém supunha que se desse, pois não há marinheiro algum que conheça aquela parte da costa, sabendo-a cheia de penedos, pois o mar ali é muito baixo. No entanto, o piloto da “Guadiana”, o sr. José Maria, e o comandante, o sr. 1º Tenente Anadia parece que ignoravam este facto, pois meteram o navio a terra, tanto quanto puderam.
El-rei D. Carlos, que estava na cidadela no momento em que a “Guadiana” passava em frente dela, viu o rumo que o navio tomava, previu o desastre que ia acontecer e, ainda em voz alta, avisou para que se fizessem ao largo.
Logo que se deu o desastre acorreram em socorro da “Guadiana” os escaleres da “Zambeze” e do “Lidador”, da alfândega e as baleeiras do senhor D. Carlos e do senhor infante D. Afonso, e o salva-vidas, que ainda se encontrava no mar, e que teve ensejo de ser experimentado a sério, prestando óptimos serviços.
Todos estes barcos receberam a guarnição da “Guadiana”, conduzindo-a para bordo da canhoneira “Zambeze”, ancorada na baía às ordens de el-rei o senhor D. Carlos, bem como a mastreação do navio naufragado. Felizmente os socorros foram prestados com toda a ligeireza, não havendo nenhum desastre pessoal a lamentar, a não ser um leve ferimento que o mestre recebeu numa das mãos.
Só ao fim da tarde e depois de se reconhecer que os seus serviços eram dispensados, é que os barcos de socorro vieram para a praia, terminando a sua humanitária tarefa. A bordo da “Guadiana” ficaram alguns marinheiros da própria guarnição e também da “Zambeze”, sob as ordens dum oficial, ali permanecendo de noite a trabalhar na reparação dos rombos. Interiormente o navio não sofreu qualquer avaria.
Os senhores D. Carlos e D. Afonso, o administrador do concelho Holbeche e o ministro das Obras Públicas estiveram a bordo da “Guadiana”, assistindo a todas as manobras. À noite chegou o sr. capitão do porto de Lisboa, que se informou do sucedido. A fim de prestar socorros também partiu para o Estoril uma força da Guarda-fiscal, mas não chegou a entrar em exercício.
A canhoneira “Guadiana” devia ser rendida hoje. À noite chegou a Cascais um mergulhador que se dirigiu em seguida para o local do sinistro. É de crer que hoje por todo o dia o navio seja posto a nado.
A “Guadiana” foi construída em Inglaterra em 1879. É de 161 toneladas e tem actualmente a máquina na força de 40 cavalos.»
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 5 de Outubro de 1892)

O naufrágio da canhoneira “Guadiana”
Devido ao mar estado do mar, que está imensamente agitado, perderam-se todas as esperanças de salvar a canhoneira “Guadiana”, naufragada em frente do Estoril. A vaga impetuosa vai arrastando o pequeno navio pelas pedras e dentro em pouco estará completamente destruída. É uma canhoneira a menos de entre as poucas que o país dispõe e que por certo fará bastante falta.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 6 de Outubro de 1892)

terça-feira, 4 de março de 2014

Histórias da pesca e do comércio


Retratos Figueirenses!

Figueira da Foz, 15 de Dezembro – Uma grande desgraça ia enlutando ontem muitas famílias desta vila (hoje cidade). A Providência Divina, com o auxílio de alguns arrojados pescadores, permitiram, porém, que de tantos desgraçados só houvesse a lamentar uma vítima, que deixou a esposa na viuvez e os filhos órfãos! Eis o que aconteceu:
Fora da barra, que está má (é difícil saber quando esteve boa), já andavam há dias uma galeota inglesa, a “My Queen", com ferro para a ponte do Mondego, e os dois iates do abastado comerciante da praça figueirense, o sr. Manoel José de Souza, denominados “Libania & Adelaide”, vindo de Lisboa, e o “Voador do Mondego”, procedente da ilha de S. Miguel.
O tempo era medonho: os sucessivos aguaceiros de O.N.O. (Oeste-noroeste) – pura travessia – parecia que tudo levavam pelo ar, e as vagas do mar, que se encapelavam umas sobre as outras, mostravam a quase impossibilidade de qualquer navio lhes resistir!
Nestas circunstâncias em ambos os iates resolveram, em consulta, entrar a barra, visto que fora dela lhes era duvidoso sobre-estarem, principalmente o “Libania & Adelaide”, que já o pano de proa trazia em estilhaços. Por volta da 1 hora ambos deitaram a proa à barra; pouco depois estava o “Libania & Adelaide”, sobre o banco, onde uma montanha de água lhe partiu o traquete, atravessando-o e levando consigo o infeliz Isaac Rodrigues, capitão do mesmo.


Identificação do iate “Libania & Adelaide”
Armador: Manoel José de Souza, Figueira da Foz
Nº Oficial: N/T - Iic.: H.C.W.S. - Registo: Figueira da Foz
Construtor: Desconhecido
Arqueação: 113,000 m3
Propulsão: À vela
Naufragou no dia 14 de Dezembro de 1872

Que quadro horrível e de desespero para os espectadores, que lhe não podiam valer! O navio desgovernado e sem pano sobre o banco de areia, onde quase se confundia com as próprias ondas! Pouco depois o mar safou-o daquele precipício, arremessando-o de encontro ao cabedelo, onde já se encontravam postados uma porção de pescadores do lugar, que com a maior coragem, dedicação e sangue-frio salvaram com um cabo de vai-vem não só todos os tripulantes que restavam como até o cão!
Cabe na oportunidade dizer que se lamenta e lamentará que o governo de Sua Majestade, a Câmara Municipal ou mesmo a Associação Comercial não criem um prémio pecuniário para estes infelizes, que, mortos de fome, exaustos de forças, não vacilam em arriscar as suas vidas em socorro dos seus semelhantes! E não foi só isto: a alguns, que não tinham mais que o gabão e o fato do corpo, vimos tirá-los e com eles cobrirem os corpos dos náufragos!
A carga deste navio era importante; constava de açúcar, aduela, madeira de Flandres e encomendas; quase toda está segura, ainda que não no seu valor; o barco não. Durante a maré da noite salvou-se bastante, bem como parte do aparelho; na enchente, porém, o mar levou o fundo do iate, perdendo-se o resto. Os interessados devem aos proprietários muita dedicação e óptimos serviços, sem os quais as perdas seriam talvez completas.
O “Voador do Mondego”, que vinha para a barra na popa do outro, encalhou também sobre o banco, e ali, como o “Libania & Adelaide”, sofreu mil baldões, mas felizmente não perdeu o governo nem pano, o que fez com que, livre do banco, viesse fundear no Mondego sem mais avaria que a falta de algumas folhas de cobre, que deve ter perdido. Este navio estava seguro, mas a carga não. Este quadro horroroso fez recordar muita gente do drama «Pedro Sem». Em tempo, convém sublinhar que as guarnições destes dois navios, composta de 17 pessoas, eram quase todos da Figueira.

Identificação do brigue “Voador do Mondego”
Armador: Manoel José de Souza, Figueira da Foz
Nº Oficial: N/T - Iic.: H.F.R.V. - Registo: Figueira da Foz
Construtor: Desconhecido, Figueira da Foz, 23.10.1870
Arqueação: 289,306 m3
Propulsão: À vela

Ontem de manhã entrou no porto, também com muito risco o caíque “Senhor Jesus das Almas”, mestre Manuel da Cruz, procedente de Lagos com pescaria. Na proa deste vinha da mesma procedência e com a mesma carga o pequeno caíque “Flor de Maria”, mestre João Gomes, mas que se não viu. O mestre Manuel da Cruz, que é proprietário de ambos os caíques, supõe-no em Viana ou então perdido.
A galeota “My Queen”, que estava à vista, mas distante, não devem ter visto a bandeira de franca entrada que lhe içaram, creio que unicamente com o intuito de salvar as vidas. Este navio teve uma viagem mais atribulada do que se pode imaginar: saiu há cem dias da Suécia, bateu num banco no canal de Inglaterra, arribou a Plymouth, onde, para reparar as avarias, fez avultadíssima despesa, motivos esses que levaram ao suicídio do seu capitão; depois veio para a Figueira e nas águas da barra tem apanhado todo o temporal, que já dura há vinte dias! No dia 8 do corrente a galeota já esteve quase perdida próximo do Cabo Mondego; para não se perder valeu-lhe o mar não ser mau e o salva-vidas ir espiá-la para fora até poderem continuar a velejar. Insistirá o seu novo capitão pela entrada do navio neste porto?
Sei que não consigo evitar o reconhecimento público pela minha impertinência, portanto fiquem crentes que não hesitarei em continuar a pedir os aprestes para transmitir de terra os cabos de vai-vem. Se o fundão permitiu que o “Libania & Adelaide” encalhasse tão próximo que dele pudessem dar o cabo para terra, não sucede outro tanto a maior parte das vezes. E quando, devido a tal incúria, haja vitimas a lamentar, com o meu humilde brado protestarei e rogarei a quem mais autorizado o faça, contra aqueles que tem obrigação de prevenir desastres desta natureza.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 17 de Dezembro de 1872)

sábado, 1 de março de 2014

História trágico-marítima (CXXIX)


O encalhe do navio-motor “Zambézia”, em Moçambique

Os passageiros do paquete-costeiro “Zambézia”
foram recolhidos pelo aviso NRP “Gonçalves Zarco”
De bordo do aviso “Gonçalves Zarco”, foi expedido um rádio para o Ministério da Marinha, informando que este navio de guerra foi chamado em socorro do paquete-costeiro “Zambézia”, da Companhia Nacional de Navegação, tendo prestado, debaixo de mau tempo, uma valiosa assistência àquela unidade, encalhada num baixo de coral do litoral de Moçambique, desde o dia 8 do corrente (08.02.1950).

O navio-motor "Zambézia", no Tejo, vindo da Escócia
Postal ilustrado - edição da Comp. Nacional de Navegação

Identificação do navio-motor “Zambézia”
Armador: Comp. Nacional de Navegação, Lisboa, 26.04.1949
Construtor: Ardrossan Dockyard, Ltd., Escócia, 1948
Arqueação: Tab 2.625,08 tons - Tal 1.505,95 tons - pm 1.857 tons
Dimensões: Ff 88,53 mt - Pp 83,96 mt - Bc 13,18 mt - Ptl 7,25 mts
Propulsão: British Polar, 2x:Di - 8:Ci - 2x1.280 Bhp - 12 m/h
dp “Leeway”, Thesen’s S/Ship Co. Ltd., Cape Town, 1970-1974
dp “Awura Ama”, Colonial S/Ship Co. Ltd., Port Louis, 1974-1977
dp “Cape Coast”, Seven Seas Trading Co., Panamá, 1977-1979
Naufragou ao largo de Lomé (Togo) em 7 de Julho de 1979, carregado com fosfatos, quando em viagem de Kperne (Togo) para Lagos (Nigéria).

O “Gonçalves Zarco”, do comando do sr. capitão-tenente Melo de Carvalho, arrostou com o violento temporal que assolava toda a costa de Moçambique e chegou ao local do sinistro. O “Zambézia” era então fortemente batido pelo mar. Tinha a bordo, além da carga e da sua tripulação, algumas dezenas de passageiros, pois trata-se de um paquete costeiro empregado no tráfego entre os vários portos daquela província.

O aviso colonial "Gonçalves Zarco", em Lisboa
Postal ilustrado - edição da Marinha Portuguesa

Através de grandes dificuldades e, por vezes com risco de vida para os seus oficiais e marinheiros, o “Gonçalves Zarco” conseguiu proceder ao transbordo de todos os passageiros e dos seus haveres, após o que permaneceu próximo do “Zambézia” até chegar o rebocador “Marracuene”, com pessoal e material de salvamento.
A tripulação do navio sinistrado manteve-se a bordo e cooperou eficazmente nos trabalhos que se seguiram, sempre debaixo de violento temporal.
Mais tarde, num período de preia mar, o “Zambézia” conseguiu desencalhar, mas, ao verificar-se que, devido aos rombos sofridos, estava a ser rapidamente inundado pelas águas, o seu comandante resolveu meter a proa à terra e varar o navio na praia da foz do rio Moloqué, operação difícil a que procederam, apesar do mau tempo.
Na baixa-mar, o “Zambézia” fica quase todo em seco, o que permitirá a realização de reparações provisórias, após as quais tratarão de pôr novamente o navio a flutuar. A marcha e o êxito desses trabalhos dependem, como é evidente, do estado do mar, mas esperam que, na situação em que o navio se encontra presentemente, seja possível alcançar os objectivos em vista.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 14 de Fevereiro de 1950)