sábado, 15 de março de 2014

História trágico-marítima (CXXXI)


O encalhe do vapor " Aviz "

À entrada do porto de Leixões o vapor português “Aviz”
bate na ponta do cais do molhe sul, arrombando o casco
Ontem (12.03.1934), às 9 horas e meia da manhã quando o vapor português “Aviz”, da Companhia Atlântica de Navegação, demandava o porto de Leixões, uma volta de mar impeliu-o de encontro ao cabeço do molhe sul, abrindo água. Atendendo à gravidade do momento, o capitão do vapor “Aviz”, que tinha conseguido vencer a entrada do porto debaixo de grande maresia, dirigiu o vapor em direcção a uma pequena praia existente dentro do porto ao norte, e um pouco por oeste do cais do porto de serviço, onde o encalhou, pois que o “Aviz” se achava já com a popa bastante submersa.
Dado o alarme, compareceram logo a prestar assistência aos tripulantes, além do barco-motor salva-vidas “Carvalho Araújo”, as lanchas dos pilotos, e, ainda o rebocador “Mars 2”, que se colocou próximo do vapor, na eventualidade de serem necessários os seus serviços.
Entretanto, de bordo do “Aviz” eram lançados alguns foguetões para terra, que serviram para estabelecer algumas espias para o cais com o fim de melhor o aguentar em posição direita. Mais tarde, estes mesmos serviços foram prestados pelo rebocador “Mars 2” e pelas lanchas dos pilotos, que também passaram espias ao “Aviz”, tendo o “Mars 2” puxado algum tempo por ele para lhe endireitar a proa.
Pelas 3 horas da tarde, como mais nada houvesse para fazer a bordo, pois que, dada a sua situação, o “Aviz” se podia considerar perdido, a sua tripulação, composta de 21 homens, incluindo o capitão, sr. Francisco F. Mano abandonou-o, saltando para o salva-vidas “Carvalho Araújo”, que os conduziu para terra, sendo-lhes, prestada a assistência necessária no Posto de Socorros a Náufragos de Leixões.

Imagem do vapor "Aviz" encalhado em Leixões
Foto de autor desconhecido - minha colecção

Identificação do vapor “Aviz”
Armador: Comp. Atlântica de Navegação, Lisboa, 1934-1934
Construtor: Rijkee & Co., Roterdão, Holanda, 1902
ex “Import”, N.v. Rotterdam-London Mij., Roterdão, 1902-1934
Arqueação: Tab 874,10 tons - Tal 532,49 tons
Dimensões: Pp 63,40 mts - Boca 9,21 mts - Pontal 4,00 mts
Propulsão: Fyenoord, Roterdão - 1:Te - 3:Ci - 200 Nhp - 9 m/h

O vapor “Aviz” vinha de Lisboa, com carga diversa para o Porto, estando previsto carregar em Leixões para sair com destino a Hamburgo e outras escalas. Era o antigo vapor holandês “Euterpe” (!?), que também fazia carreiras para este porto, sendo comprado pela Companhia Atlântica de Navegação que, primitivamente o batizou com o nome “Porto”, nome com que chegou a Portugal, e que, pouco depois foi alterado para “Aviz”. Era de 897 toneladas, tendo sido construído em 1903.
Este sinistro causou grande alarido em Matosinhos e Leça da Palmeira, em virtude de se recear vitimas, devido às más condições do tempo e mar que fazia na ocasião em que o “Aviz” demandava o porto, o que, como tal, foi considerado como uma das maiores temeridades e arrojo do seu capitão, tanto mais que na Capitania do porto de Leixões se achava içado o sinal de mau tempo e de porto impraticável. Só à boa sorte se atribui o não haver, talvez, hoje, vidas a lamentar, o que apraz sempre registar.

A narrativa do naufrágio
Logo após ter sido conhecida a notícia do sinistro, correu a Leixões uma multidão numerosa, ansiosa por saber o que se passava. A gente dos bairros piscatórios também ali acorreu em massa.
Entre as pessoas autorizadas que, próximo da muralha, comentavam o sucedido, encontramos o capitão da marinha mercante sr. Copérnico da Rocha, que sobre o sinistro declarou:
- O navio saiu de Lisboa com pouca carga. O mar, sempre mau, o tempo de forte ventania, impossibilitavam o andamento do navio para barlavento. Desta maneira, o navio, caindo sempre, para sotavento, estava no perigo iminente de vir à costa. Conseguindo ter chegado fora do porto de Leixões, já muito perto da praia, sem que o tempo tivesse amainado, e ainda na perspectiva de piorarem as condições atmosféricas, resolveu o capitão, de comum acordo com os oficiais e principais elementos da equipagem forçarem a entrada no porto, visto ser esta a única maneira viável para a salvação de vidas e, hipoteticamente, do navio. E, assim, sob uma tempestade no mar com muito vento, depois de ordenar todas as manobras necessárias para um perigo desta ordem, o “Aviz” aproou ao porto de Leixões, tendo, depois de haver sofrido violentas voltas de mar, chegado entre molhes. Neste momento, uma vaga violentíssima arremessou-o, fortemente, contra o molhe sul, no qual bateu com a amura de estibordo.
Ainda em situação de perigo iminente em que tudo estava, o capitão, ordenou, imediatamente, mais força na máquina, a fim de conseguir entrar no porto. Nesta altura o homem do leme anunciava ao capitão que o leme não governava, pois, logo no primeiro embate, ficara desmantelado. Com muito esforço, e já depois do navio se ter arreado da popa, ainda o capitão conseguiu encalhá-lo numa praia limpa, onde só as péssimas condições de tempo e mar, não permitirão que se salve.
- Era inevitável o naufrágio?
- Inevitável. O capitão tinha que proceder assim. De outra maneira, o navio batia contra as rochas, e era uma tripulação irremediavelmente perdida. O capitão, homem experimentado, com 22 anos de comando, fez um prodígio. Não perdeu a serenidade nem a coragem. E estas horas difíceis na vida de um marinheiro nem sempre se aguentam. Esses homens devem-lhe a sua vida, porque se o capitão perdesse a serenidade, teríamos a lamentar uma grande tragédia. Foi um bravo, concluiu o entrevistado.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 13 de Março de 1934)

O vapor “Aviz”
Como dito anteriormente o vapor acha-se encalhado na praia, ao molhe norte, depois de ter embatido no molhe sul, devido à enorme agitação do mar. O navio considera-se perdido, e apesar da protecção do local, está constantemente a ser batido pelas vagas, que ameaçam partir o navio a meio.
Ontem, à tarde, a popa já estava mais mergulhada na água, sendo esta parte do vapor atravessada pelas ondas, que por vezes se elevavam a grande altura.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 14 de Março de 1934)

Informação complementar
O vapor foi reparado provisoriamente, tendo seguido para Lisboa, e já no Tejo foi novamente encalhado. Não se justificando a reparação definitiva, devido à gravidade das avarias, foi vendido para demolir em Lisboa, em 1936.

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