segunda-feira, 31 de maio de 2010

Navios bacalhoeiros da frota do Porto (VI)


Lugre “ Boa Sorte “
1919 - 1921
Pescarias Vilacondenses, Lda., (J. d’Almeida), Porto

O lugre "Margaret Moulton" varado na praia do Titã, em Leixões
Foto de autor desconhecido (copyright) - minha colecção

A aquisição deste navio, apesar de se tratar duma construção recente, resulta do desinteresse do armador Moulton Fisheries, no sentido de efectuar reparações na embarcação, propondo a sua venda através dos seus agentes no Porto, após ter sido vítima de acidente em Leixões. O lugre chegou procedente da Terra Nova, para descarregar uma partida de bacalhau fresco, quando por motivo de mau tempo garrou do ancoradouro, adornando devido à grande quantidade de água entrada no porão, depois de embater contra as pedras do enrocamento Oeste, no interior das instalações portuárias, a 8 de Dezembro de 1918. Nesse dia choveu copiosamente, tendo igualmente soprado vento violento acompanhado de forte trovoada. Os 4 elementos da tripulação foram resgatados pelo salva-vidas. (in “Caderno de registo de acidentes marítimos, da Capitania do porto de Leixões).

Nº Oficial : B-125 > Iic.: -?- > Registo : Porto
Construtor : M. Leary, Dayspring, Nova Escócia, 1918
ex “Margaret Moulton”, Lunenburg, Nova Escócia, 1918-1918
Arqueação : Tab 185,00 to > Tal 174,00 to
Cpmts.: Pp 36,70 mt > Boca 8,53 mt > Pontal 3,81 mt
Máquina : Sem motor auxiliar
Capitães embarcados : Luiz Fernandes Pinto (1919) e José António Moço (1920 e 1921)
Adquirido em 1921 pelo Banco Industrial Português - Agência de Viana do Castelo, representado pelo gerente Augusto d'Abreu da Rocha e Sá, para a Empresa de Pesca Estrella de Portugal, Lda., por 186.000$00 (escudos). Mudou o nome para “Estrella I” e alterou o registo para a praça de Viana do Castelo. Integrou a frota de navios bacalhoeiros na campanha de pesca de 1922.

Lugre “ Estrella I “
1921 - 1926
Empresa de Pesca Estrella de Portugal, Lda., Viana do Castelo

Nº Oficial : 75 > Iic.: H.E.L.A. > Registo : Viana do Castelo
Arqueação : Tab 189,10 to > Tal 144,45 to
Cpmts.: Pp 41,00 mt > Boca 8,30 mt > Pontal 3,75 mt
Máquina : Sem motor auxiliar
Capitães embarcados : João Francisco Grillo (1922), José Francisco Carrapichano (1923 a 1925) e Manuel Pereira Ramalheira Júnior (1926).
Vendido ao Dr. Nuno Freire Themudo, em 1927, por 115.000$00 (escudos). Foi rebaptizado “Maria Carlota”, conservando o registo em Viana do Castelo, com data de 21 de Maio de 1927. Toma parte na frota de navios bacalhoeiros na campanha de pesca de 1927.

Lugre “ Maria Carlota “
1926 - 1933
Dr. Nuno Freire Themudo, Viana do Castelo

Nº Oficial : 75 > Iic.: H.M.C.T. > Registo : Viana do Castelo
Arqueação : Tab 189,10 to > Tal 144,45 to
Cpmts.: Pp 41,00 mt > Boca 8,30 mt > Pontal 3,75 mt
Máquina : Sem motor auxiliar
Equipagem : 8 tripulantes e 28 pescadores
Capitães embarcados : Manuel Pereira Ramalheira Júnior (1927 e 1928) e Alexandre Simões Ré (1929 e 1930).
Vendido a João Norberto Gonçalves Guerra, mantém o mesmo nome, tendo alterado o registo para a praça do Porto, em 7 de Abril de 1932. Participa na frota de navios bacalhoeiros na campanha de pesca de 1933.

O lugre e os 36 dóris disponíveis a bordo em 1928, estavam avaliados em 301.000$00 (escudos). Foram utilizadas 37 linhas completas com anzóis e azagaias, cujo preço de aquisição rondou os 31.000$00 (escudos). O produto da pesca nesse ano foi de cerca de 988 quintais de bacalhau e foram produzidos 1.013 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a comercialização do pescado e do óleo de fígado foi de 148.397$00 (escudos).

Lugre “ Maria Carlota “
1932 - 1947
João Norberto Gonçalves Guerra, Porto

O lugre "Maria Carlota" em porto
Foto de autor desconhecido

Nº Oficial : C-106 > Iic.: C.S.L.U. > Registo : Porto (a)
P-434-N > Iic.: C.S.L.U. > Registo : Porto (b)
Arqueação : Tab 211,40 to > Tal 155,87 to (a) > 3.600 quintais
Tab 230,05 to > Tal 167,27 to (b) > 4.632 quintais
Cpmts.: Ff 42,00 mt > Pp 36,60 mt > Bc 8,51 mt > Ptl 3,58 mt (c)
Ff 42,00 mt > Pp 36,89 mt > Bc 8,51 mt > Ptl 3,80 mt (d)
(a) em 1934 (b) em 1946 (c) em 1935 e (d) em 1939
Máquina : Sem motor auxiliar
Equipagem : 5 tripulantes e 28 pescadores
Capitães embarcados : Manuel Nunes Guerra (1934 e 1935), Marcos Luís Andorinha (1936 a 1939), José André Senos (1940 até 1945) e António Fernandes Matias (1946 e 1947).

O lugre em 1934 dispunha de 27 dóris. O produto da pesca nesse ano, conseguido nos bancos na Terra Nova e Gronelândia, foi de cerca de 3.150 quintais de bacalhau, sendo produzidos 2.000 kgs. de óleo de fígado de bacalhau. O valor conseguido com a comercialização do pescado e do óleo de fígado foi de 294.000$00 (escudos).

P.s.- A cada alteração na arqueação e/ ou no comprimento, deve corresponder a reparações ou remodelações a que o lugre foi sujeito, no percurso da sua existência. Se a primeira reparação pode ter sido efectuada em estaleiros no rio Douro, como acontecia habitualmente, em função do nome da empresa proprietária, os trabalhos de recuperação do lugre, podem igualmente ter ocorrido em Vila do Conde. Não temos conhecimento, dos locais ou estaleiros onde foram efectuados os restantes melhoramentos.
Os meus agradecimentos ao amigo Manuel de Oliveira Martins (blog "Mar de Viana"), pela gentil colaboração, melhorando significativamente a qualidade das informações disponíveis.

O histórico comercial do lugre termina com o naufrágio, por motivo de alquebramento, que teve lugar em pleno Atlântico, a cerca de 640 milhas a Leste-nordeste do porto de Argentia, na Terra Nova, a 4 de Novembro de 1947. Ao ser abandonado pela equipagem, foi-lhe ateado fogo para não constituir ameaça à navegação, pois encontrava-se na rota de ligação entre os portos europeus e o porto de Nova Iorque. Deve igualmente ser salientado o trabalho de resgate dos 31 elementos da tripulação, efectuado em duas abordagens dum escaler do navio-hospital americano “Charles A. Stafford”, sob o comando do capitão Gunnar van Rosen, nascido em Brooklyn.
O referido navio-hospital transportava na ocasião militares doentes, embarcados no porto de Bremerhaven, na Alemanha, tendo navegado com a tripulação do lugre até à sua base naval em Nova Iorque, onde foram desembarcados.

sábado, 29 de maio de 2010

O falecimento do capitão do lugre "Amphitrite"


Lugre “ Amphitrite “
1912 - 1917
Manuel Nunes da Graça
Parceria Marítima “Boa União”, Lda., Aveiro

Encontrei fortuitamente a notícia do falecimento do capitão Manuel Nunes da Graça, desaparecido no mar por força do acidente ocorrido a bordo, no dia 2 de Dezembro de 1912, que se explica por si. A gravidade do caso e a reconhecida galhardia, paixão e abnegação pela sua vocação marítima, obriga-me a reflectir sobre a sua história, lamentando a parca informação disponível. Porque muito provavelmente é mais um dos valorosos e notáveis capitães Ilhavenses, cujo nome merece constar na galeria, dos heróis que compõem a nossa memória colectiva.

O retrato e registo de falecimento do capitão
Manuel Nunes da Graça
in "Ilustração Portuguesa", Dezembro de 1912

Nº Oficial : 246 > Iic.: H.F.R.T. > Porto de registo : Aveiro
Construtor : Amaro & Macedo, Vila do Conde, 12.09.1912
Arqueação : Tab 179,46 to > Tal 120,34 to
Cpmts.: Pp 35,27 mt > Boca 8,20 mt > Pontal 3,15 mt
Equipagem : 32 tripulantes (incluindo pescadores)
Capitães embarcados : Manuel Nunes da Graça (1912), substituído por João Pereira Ramalheira (1912 até 1915) e Amandio Fernandes Mathias (1916 e 1917).
Este lugre, tal como a grande maioria, depois de ter realizado algumas campanhas de pesca nos Grandes Bancos, esteve colocado a operar na cabotagem internacional, chamado a colaborar no esforço de guerra. Foi nesse período interceptado e afundado por um submarino alemão, a cerca de 40 milhas a Norte do Cabo Prior (Ferrol, Corunha, Norte de Espanha), quando em viagem do Funchal para Bordéus, a 10 de Junho de 1917.

Notícias publicadas sobre o navio, como segue:

1.- O lugre “Amphitrite” afundado pelos alemães próximo da Corunha, tinha sido vendido recentemente pelo Sr. Luiz Bagão, armador em Aveiro, à firma Ramalheira, Pires, Lda. Saíra faz vinte dias do Funchal, com um carregamento de madeira para Bordéus.
In “O Comércio do Porto”, de 12 de Junho de 1917

2.- (El Ferrol, 12) O comando geral da marinha recebeu um telegrama comunicando que, cerca do Cabo Prior, foi recolhido por um navio espanhol o capitão e os tripulantes dum navio português, afundado por um submarino.
In “O Comércio do Porto”, de 13 de Junho de 1917

Comentário às notícias
Sem por em causa a veracidade das informações publicadas, os anos da guerra dificultam a possibilidade de averiguar com rigor, se o Sr. Luiz Bagão foi proprietário por inteiro deste lugre, ou se era um dos sócios da Parceria Marítima “Boa União”, ficando por conseguinte a dúvida, do navio ter tido ou não outros armadores, que por defeito não referimos.
Da mesma forma, na segunda notícia, é posta a hipótese do navio afundado pelo submarino alemão ter sido o vapor “Insulano”, da Empresa Insulana de Navegação, que se soube à posteriori encontrar-se no porto de Bordéus, naquela data. Depois, foi levantado o pressuposto, de poder tratar-se do vapor “Ambaca” da Empresa Nacional de Navegação. Esta suposição, também está errada, porque este navio igualmente torpedeado por um submarino alemão, curiosamente em local próximo, teve lugar a 23 de Dezembro de 1917. Nesta conformidade julgo tratar-se efectivamente do resgate e salvamento da tripulação do lugre, conforme documentado na respectiva memória histórica do mesmo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Navios bacalhoeiros da frota do Porto (V)


Lugre-motor “ Oliveirense ”
1938-1941
Empresa de Pesca de Bacalhau do Porto, Lda., Porto

O "Oliveirense" entra em Leixões, no final de mais uma campanha
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos

Nº Oficial : C-125 > Iic.: C.S.K.D. > Registo : Porto
Cttor.: António Maria Bolais Mónica, Gafanha da Nazaré, 1938
Arqueação : Tab 420,71 to > Tal 296,58 to > 8.491 quintais
Cpmts.: Ff 49,60 mt > Pp 44,00 mt > Bc 10,49 mt > Ptl 4,77 mt
Máq.: Otto-Deutz, Alemanha, 1938 > 1:Di > 270 Bhp > 6-8 m/h
Equipagem : 11 tripulantes > 44 pescadores > (47 a 49 dóris)
Capitães embarcados : Manuel Fernandes Pinto (1938 até 1941)
Vendido nos finais de 1941, altera os detalhes para :

Lugre-motor “ Oliveirense ”
1942-1965
Soc. Nacional dos Armadores da Pesca do Bacalhau, Lisboa

O "Oliveirense" em Lisboa, na cerimónia de benção da frota
Foto-postal ilustrado de Lisboa não registado - m/ colecção

Nº Oficial : G-429 > Iic.: C.S.K.D. > Registo : Lisboa
Arqueação : Tab 420,71 to > Tal 296,58 to > 8.491 quintais
Cpmts.: Ff 49,60 mt > Pp 44,00 mt > Bc 10,49 mt > Ptl 4,77 mt
Máq.: Otto-Deutz, Alemanha, 1938 > 1:Di > 270 Bhp > 6-8 m/h
Equipagem : 12/ 14 tripulantes > 44 pescadores > (47 a 49 dóris)
Capitães embarcados : Manuel Fernandes Pinto (1942), João Oliveira e Sousa (1943 e 1944), Manuel Inácio Gaia (1945 e 1946), José Simões Ré (1947 até 1954), José André Senos (1955 até 1959), Carlos Pereira da Bela (1960) e Mário Paulo do Bem (1961 até 1965)

Altera o registo em 1946, para :
Nº Oficial : LX-12-N > Iic.: C.S.K.D. > Registo : Lisboa

O "Oliveirense" em S. João da Terra Nova
Foto do cap. T.H. Goodyear, colecção de Jean Pierre Andrieux

Naufragou devido a incêndio no Virgin Rocks, Terra Nova, em 10 de Agosto de 1965, conforme explicado no respectivo protesto de mar, como segue:

PROTESTO POR INCÊNDIO E NAUFRÁGIO

Aos oito dias do mês de Agosto de mil novecentos e sessenta e cinco, encontrando-se o lugre motor Oliveirense, do comando do Capitão Mário Paulo do Bem, e pertencente à Sociedade Nacional dos Armadores da Pesca do Bacalhau, com sede em Lisboa, na faina da pesca no Grande Banco, pescando no Virgin Rocks, na posição de quarenta e seis graus e vinte e nove minutos de latitude Norte e na longitude a Oeste de Greenwich de cinquenta graus e quarenta e sete minutos, sucedeu que pelas dezoito horas e trinta minutos locais, estando apenas chegado a bordo cerca de doze botes, se manifestou na casa da máquina, violento e rápido incêndio, tendo aquela ficado imediatamente em chamas, e toda a parte da popa, camarotes, salão e o camarote do Capitão, completamente inundados de espesso fumo.
Acorreu-se imediatamente ao local do incêndio, para combate-lo supondo-se este ter sido originado por um forte curto circuito na instalação eléctrica, tão violento que interrompeu a corrente eléctrica em todo o navio, desenvolvendo-se rápida e tão intensamente o fogo naquele local, o qual começou logo a ser combatido com os recursos existentes a bordo, (extintores), verificando-se, todavia, que todos os esforços empregados neste sentido eram impotentes para debelar o fogo, que se ia alastrando sempre em proporções assustadoras de momento a momento, onde grandes labaredas iam devorando todos aqueles compartimentos e se propagavam a outras partes do navio, impossibilitando a presença humana a bordo. Considerada tão crítica situação pelo Capitão do navio e principais da equipagem, por se irem vendo perdidas as possibilidades de salvação do navio e ainda por ser impossível utilizar a fonia, que se encontrava instalada no camarote do Capitão, resolveram tomar medidas de salvação, e assim reunidos em conselho, os mesmos, Capitão, oficiais e principais da equipagem e de comum acordo, dar ordem de abandono do navio, aos tripulantes que se encontravam a bordo, para o que arriaram as embarcações miúdas, o que fizeram pelas vinte horas locais, e nelas se dirigiram para bordo do navio motor São Jorge, que se encontrava muito perto.
Ao serem vistos de bordo do navio São Jorge os espessos rolos de fumo e labaredas, dirigiu-se de lancha ao Oliveirense, o Capitão do São Jorge, que constatou em presença dos factos estar o navio irremediavelmente perdido. Momentos escassos após a chegada do Capitão do São Jorge, chegou o Capitão do navio Gazela I, que do mesmo modo verificou a impossibilidade de salvação do Oliveirense. A lancha do São Jorge, trouxe então de bordo do Oliveirense o Capitão deste e seus principais da equipagem, que ainda permaneciam a bordo, sendo os últimos a abandonar o navio. Foi o navio abandonado com todos os seus haveres, carga, documentação do navio e individual e todos os haveres e pertences pessoais da tripulação. Era constituída a carga do navio por quatro mil quintais de bacalhau, cento e noventa toneladas de sal limpo de Torrevieja, dez mil quilos de óleo de fígado de bacalhau, dezasseis toneladas de lula fresca canadiana, quatro mil quilos de caras de bacalhau salgadas, oitocentos quilos de línguas de bacalhau, salgadas e quinhentos quilos de samos de bacalhau salgados.
Em face do que fica exposto, em nome dos Armadores deste navio e pessoas outras nele interessadas e no seu carregamento, protesta o Capitão contra o violento incêndio manifestado, inesperada e violentamente a bordo e contra todas as causas supostas e estranhas que lhe deram origem e contra quem de direito for e pertencer, possa, por todos os prejuízos, perdas, danos ou lucros cessantes motivados pelo afundamento deste navio. Reserva-se o Capitão ao direito de alterar ou ampliar, futuramente, este protesto, se assim julgar conveniente.
Em Fé do que se lavrou o presente protesto, que depois de lido em voz alta, e achado conforme, vai ser assinado pelo Capitão do navio e seus principais da equipagem.
Bordo do navio São Jorge, aos nove dias do mês de Agosto de mil novecentos e sessenta e cinco. (Segue-se o reconhecimento e assinam:)
O Capitão; o Imediato; o Primeiro Motorista e o Contra-Mestre

P.S.- Por sugestão do amigo Sr. Luís Bonifácio, é possível durante alguns minutos apreciar imagens duma campanha de pesca do “Oliveirense” na Terra Nova. O documentário foi disponibilizado pelo Sr. Enzo Corini, que a propósito regista o seguinte texto:
Uma vida duríssima, os Portugueses na pesca do bacalhau. Depois de uma jornada de pesca, de regresso a bordo para entregar o peixe, os pescadores tinham ainda que limpá-lo, salgá-lo e estivá-lo. O nevoeiro imprevisível e silencioso, cobria tudo e todos, pelo que qualquer pescador de regresso ao lugre, muitas vezes confundia a direcção dos apitos ou o tilintar das sinetas do seu navio. Vagavam assim num oceano, enfrentando o frio e o cansaço, deixando-se andar como sonâmbulos, num prelúdio de morte por desidratação.
O documentário pode ser visto em :
www.youtube.com/watch?v=HE6aGuxQRG4&Qfeature=related

terça-feira, 25 de maio de 2010

Grandes veleiros do Porto


A barca “ Santos Amaral “
1909 - 1915
Santos Amaral & Cª., Porto

Navios ancorados no rio Douro, no início do século XX
Barcas "Arcelina", "Oliveira" e "Venturosa", depois "Santos Amaral"
Postal Ilustrado "Margens do Douro", da série Estrela Vermelha

A barca "Santos Amaral" ancorada no rio Douro
Foto de David B. da Silva na Ilustração Portuguesa, 1912

Nº Oficial : A-123 > Iic.: H.G.P.K. > Registo : Capitania do Douro
Construtor : R. Duncan & Co., Port Glasgow, Escócia, 1876
ex “Polynesian”, __??__, 1876-1900
ex “Venturosa”, José Nogueira Pinto, Sucrs., Porto, 1900-1909
Arqueação : Tab 877,76 tons > Tal 833,97 tons
Cpmts.: Pp 59,12 mt > Boca 9,94 mt > Pontal 5,89 mt
Equipagem : 13 tripulantes
Capitães embarcados : José dos Santos Marnoto (1909 a 1915)
Naufragou quando se encontrava no porto de Nova Orleães (Carreiro de S. Domingos), devido à passagem de um violento ciclone, em 28 de Setembro de 1915. A tripulação foi resgatada do navio por um barco salva-vidas.

A barca "Santos Amaral" na Cantareira, próximo à foz do Douro
Imagem de autor desconhecido - colecção Francisco Cabral

Esta barca era uma das embarcações que se encontravam no rio Douro, durante a grande cheia de 1909. Ancorada na Paixão, foi embatida com violência pelo lugre norueguês “Jarstein”, partindo-lhe o mastro da mezena. Na noite de 22 de Dezembro, com as amarras partidas, foi encalhar na Cantareira, em frente à fonte, depois de colidir com o vapor norueguês “Sylvia”. Recuperada para reparar as diversas avarias, entre as quais um rombo na roda de proa, foi posta a flutuar em 29 de Janeiro de 1910, regressando ao serviço comercial.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Navegadores


David Melgueiro
Nascido e falecido no Porto, século XVII

O nome deste navegador de origem nortenha, é possivelmente dos menos conhecidos, quando comparado com o imenso leque de personagens, cujos relatos de viagens e descobertas, preenchem os nossos compêndios de história. Os dois principais motivos dessa grave omissão, poderão, em primeiro lugar, estar relacionados com o facto de ter navegado ao serviço dos monarcas holandeses e o segundo, de vital importância, foi certamente por comandar um navio estrangeiro, o “Pater Noster”, com rumo ao Japão, numa época em que esse trafego marítimo era dominado pelos portugueses, empenhados em controlar a rota das especiarias.
Todavia, não desmerece a virtude de na viagem de regresso, ter partido do porto de Kagoshima, em Março de 1660, navegando para norte, através do Círculo Polar Árctico, atravessando o Estreito de Aniam (actualmente identificado por Estreito de Bering), sendo o primeiro navegador a vencer a Passagem do Nordeste, deixando Spitzbergen (Svalbard) e a Islândia por bombordo e a Gronelândia por estibordo, até chegar ao rio Douro, onde aportou dois anos depois.
Esta viagem visava a descoberta dum corredor marítimo alternativo, para os holandeses conseguirem transportar um autentico manancial de riquezas orientais para a Europa, num mais rápido espaço de tempo. Apesar da viagem ter sido mantida ao abrigo dum forte sigilo, o súbdito francês Seigneur de la Madeleine, tentou apresentar um relatório dessa proeza ao Rei de França, sem sucesso, por ter sido neutralizado e assassinado, em 1701, quando tentava sair de Portugal.
Se a viagem é ainda questionada por alguns reconhecidos historiadores nacionais, pela exiguidade de documentação disponível (um único documento da viagem encontrado em 1853), outros há, que mais abertamente aceitam como perfeitamente possível, a veracidade desta aventura. Para aclarar definitivamente este notável episódio marítimo, falta tão somente encontrar as datas de nascimento e da morte (supostamente em 1673), deste nosso ilustre conterrâneo, confirmando a dita passagem dois séculos antes da data reconhecida oficialmente.
As dúvidas, se é que existem, não foram razão impeditiva a ser utilizada por algumas Autarquias na toponímia das Cidades, bem como pela Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau ao baptizar um dos seus principais arrastões, de construção holandesa, com o nome do navegador, durante o ano de 1951.

Está para breve a chegada a Portugal dum novo navio, para integrar a frota bacalhoeira
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Com a presença do perito português Sr. Engenheiro construtor naval Valente de Almeida, realizaram-se em águas holandesas as experiências do novo arrastão “David Melgueiro”, construído na Holanda, para a Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau.
Este navio que ficará a ser o maior arrastão português, pois carregará 30.000 quintais de bacalhau, vem provido de uma fabrica de farinha de peixe e deve chegar ao Tejo, por toda a próxima semana.

(In “ O Comércio do Porto”, de 7 de Novembro de 1950)

Este navio que apresentava como principal característica, tratar-se da maior embarcação do mundo a pescar por arrasto lateral, por atrasos cujo motivo desconheço, só entrou ao serviço na sua primeira campanha ao bacalhau, durante o mês de Abril de 1951.

O arrastão “ David Melgueiro”
1951 - 1992
SNAB – Soc. Nacional dos Armadores de Bacalhau,
Lisboa

O arrastão bacalhoeiro "David Melgueiro" em Lisboa
Imagem de autor desconhecido - colecção capt. J.D. Marques

Nº Oficial : LX-35-N > Iic.: C.S.P.H. > Registo : Lisboa
Cttor.: T. van Duijvendijk’s Scheepwerft, Lekkerkerk, Holanda
Arqueação : Tab 1.710,09 to > Tal 1.087,18 to > Porte 2.210 to
Cpmts.: Ff 80,14 mt > Pp 73,89 mt > Bc 11,84 mt > Ptl 5,62 mt
Máq.: Werkspoor B.v., 1950 > 1:Di > 1.185 Bhp > 11,3 m/h
Equipagem : 73 tripulantes e pescadores

Alterações verificadas em 1958
Arqueação : Tab 1.698,28 to > Tal 1.002,47 to > Porte 2.225 to
Máq.: Fairbanks, E.Unidos, 1957 > 1:Di > 1.600 Bhp > 11 m/h
Alterações verificadas em 1977
Arqueação : Tab 1.845,61 to > Tal 1.160,62 to > Porte 2.225 to
Vendido para demolir à empresa Viguesa de Chattarra, em Vigo, Espanha, a 16 de Fevereiro de 1992.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Lembranças do "Gaspar" (II)


Os cavalos também se abatem
(Horace McCoy)

Afinal nem só os cavalos se matam a tiro. Os navios, também eles incansáveis galopadores dos mares em fúria, são abatidos a tiro, quando a sua presença ferida sobre as vagas, se revela uma ameaça…

É nestas circunstancias, que se configura com grande actualidade a frase do vice-almirante Espanhol D. Castro Méndez Núnez, ao afirmar que mais vale a honra sem barcos, do que barcos sem honra, para recordar o lugre “Gaspar” (II), da Sociedade Novas Pescarias de Viana, Lda. E por uma questão de justiça, merece igualmente especial relevo o capitão Manuel de Oliveira Mendes, que fez do navio a sua casa durante 19 anos de incansável dedicação, tenacidade e competência, até ao seu falecimento em 1947.

O lugre “Gaspar” (II)
1922 - 1948
Soc. Novas Pescarias de Viana, Lda.
Viana do Castelo

O lugre "Gaspar" a navegar em 1947
Imagem de autor desconhecido

Construtor.: Manuel Maria Bolais Mónica, Figueira da Foz
(Este navio construído nas primitivas instalações que compunham o estaleiro do mestre António Maria Mónica, no Cabedelo, Figueira da Foz, foi originalmente concebido para a marinha de comércio, por encomenda da empresa Nápoles, Pinto Basto & Cª., Lda. de Lisboa. Teve o seu bota-abaixo a 24 de Agosto de 1919, sendo baptizado “Sarah”, nome que utilizou até à sua venda em 1922).
Arqueação : Tab 317,68 to > Tal 245,81 to
Comprimentos : Pp 43,35 mt > Boca 8,80 mt > Pontal 4,23 mt
Devido à motorização, que decorreu durante o ano de 1938, o navio sofreu modificações estruturais, alterando as características para:
Arqueação : Tab 308,99 to > Tal 199,31 to
Cpmts. : Ff 46,47 mt > Pp 39,39 mt > Bc 8,95 mt > Ptl 4,23 mt
Máquina : Deutz, Alemanha, 1938 > 1:Di > 240 Bhp > 8 m/h
Equipagem : 9 tripulantes e 30 pescadores
Capitães embarcados : Manuel de Oliveira Mendes (1922 a 1925), Jacob de Oliveira Mendes (1926 a 1928), Manuel de Oliveira Mendes (1929 a 1930). O lugre não efectuou as campanhas de 1931 a 1933, período em que toda a frota esteve sujeita a fracas capturas de pescado. Manuel de Oliveira Mendes (1934 a 1947) e João de Sousa Firmeza (1948)

Ferido de morte após enfrentar corajosamente um violento temporal, o navio foi afundado a tiro pelo cutter da Guarda Costeira Americana “Bibb”, no dia 19 de Setembro de 1948, conforme relato que a seguir transcrevemos :

Embora com grandes avarias provocadas pela violenta tempestade, que assolou o Norte do Atlântico, o lugre “Gaspar”, que correu o risco de naufragar, continua a sua rota, segundo um rádio captado por um barco Espanhol.
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Angustiosas, pungentes horas foram vividas, ontem, em muitas localidades do litoral, logo que se espalhou a notícia de que algo ocorrera com o lugre “Gaspar”, de Viana do Castelo, nas longínquas paragens da Terra Nova. De princípio imprecisa, alarmante, a notícia divulgou-se com rapidez extraordinária, chegando a recear-se, então, pelas vidas de todos os seus tripulantes. Para tranquilidade das famílias, outras informações, porém, foram chegando, mais precisas, dando conta de socorros prestados, não só aos pescadores como ao próprio lugre.
De facto o “Gaspar”, açoitado violentamente, pelo vendaval que pairou, durante horas, em todo o Atlântico Norte, correra risco grave, mas felizmente, o seu apelo fora captado. Em seu socorro rumou, logo, o navio-hospital “Gil Eanes”, que saíra ante-ontem de St. John’s. Para tranquilidade das famílias, o comandante deste prestante auxiliar da nossa frota bacalhoeira, enviou um rádio para o Ministério da Marinha, comunicando que, junto do barco sinistrado estava, já, um arrastão espanhol, a prestar socorro aos tripulantes. Foi esta comunicação, por certo, a que mais tranquilidade causou. Entretanto iam chegando novas notícias, por intermédio das agencias telegráficas, dando conta que, do porto de Nova Iorque haviam saído também, em socorro do “Gaspar” e dos seus tripulantes, um cruzador, um contra-torpedeiro e um barco mercante, bem como um rebocador canadiano. Também para o local, a cerca de mil e quinhentos quilómetros de Halifax, na Nova Escócia, seguiu uma patrulha de aviões, com barcos salva-vidas.
Tão tranquilizadoras notícias acalmaram um pouco a ansiedade de pobres famílias da Fuzeta, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Ílhavo, Darque, Viana do Castelo, Ancora e Sesimbra – terras dos quarenta e quatro homens, que se encontravam embarcados no “Gaspar”. Pela tarde, finalmente, a “Reuter” comunicava que, segundo dados recebidos da fragata Americana “Cecil N. Bean” e do navio “Tropero”, a tripulação do lugre português estava salva. Os trabalhos de salvamento da gente do “Gaspar”, foram realizados a seiscentos e quarenta quilómetros a Sudoeste do Cabo Race, na Terra Nova. Neles tomaram parte, também, dois bombardeiros norte-americanos e um hidroavião da vigilância costeira, que levantaram voo da base de Argentia, logo que foi recebido o pedido de socorro do comandante do lugre português.
Entretanto, ao local chegavam outros barcos, entre os quais o cruzador “Albany” e o contra-torpedeiro “Purty”, da marinha de guerra americana. Por último, um telegrama da “France-Press” dizia que através da traineira espanhola “Tifon”, o “Gaspar” apesar das avarias sofridas a bordo, julgava-se em estado de continuar a sua rota pelos seus próprios meios, não necessitando mais do que auxílio exterior. Mesmo assim o lugre manteve-se escoltado pelos navios de guerra e mercantes, que se encontravam nessas paragens.
O “Gaspar” pertence à empresa Novas Pescarias de Viana, é comandado pelo capitão da marinha mercante, Sr. João de Sousa Firmeza, de Ílhavo, foi construído na Figueira da Foz em 1919 e tem capacidade para 5.500 quintais de bacalhau. Mede de comprimento 39,39 metros e tem 8,95 metros de boca. Embora construído em madeira, está revestido a chapas de ferro e tem equipado um motor de propulsão. O capitão João de Sousa Firmeza, faz nele a sua primeira viagem, visto ter falecido no ano findo o antigo comandante Sr. Manuel de Oliveira Mendes.

(in Jornal “O Comércio do Porto”, sexta-feira, 17 de Setembro de 1948)

Curiosidades

Em relação ao texto anterior, confirma-se que a capacidade de carga do lugre era de 5.500 quintais. Nesse ano de 1948, ficamos a saber que a equipagem era composta por 44 homens, 9 dos quais compunham a tripulação permanente, sendo os 35 restantes pescadores repartidos por varias classes.
Podemos complementar a mesma informação, através dos valores média entre os anos de 1928 a 1943, que apontam para uma equipagem de 43 tripulantes e 41 dóris. Em 1929, o navio mais os dóris estavam avaliados em 350 mil escudos, dispondo de 46 linhas e tróleis com anzóis e zagaias, cuja aquisição orçou em cerca de 50 mil escudos. Nos anos de 1928 a 1929 nos bancos da Terra Nova e de 1932 a 1934, na Terra Nova e Gronelândia, o pior ano de capturas foi 1928. Nesse ano foram pescados 1.800 quintais de bacalhau e produzido 1.500 kgs. de óleo de fígado, comercializados por 271.206 escudos. Já em 1934, os valores subiram consideravelmente para 5.353 quintais de bacalhau, i.e. praticamente um carregamento completo e ainda puderam produzir 2.700 kgs. de óleo de fígado, que em conjunto renderam cerca de 810 mil escudos.

O cutter "Bibb" da Guarda Costeira Americana
Foto de autor desconhecido
Imagem retirada do sítio da Guarda Costeira dos Estados Unidos

They shoot horses, don’t they?

O lugre “Gaspar” foi afundado sob grande emoção, a tiros de peça disparados pelo cutter da Guarda Costeira Americana “Bibb”
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O navio hospital “Gil Eanes” chegado ao local onde se encontrava o lugre “Gaspar”, logo procedeu à transferência da tripulação, que se encontrava a bordo do navio da Guarda Costeira Americana “Bibb”. Durante a noite, o comandante Tavares de Almeida esteve em conversações pela rádio com o comandante do navio Americano, tendo ambos acordado que não era viável o reboque do lugre, por se encontrar com as amuras desaparecidas, cabos torcidos e a proa aberta, sujeito a afundamento, apesar de ser lento o processo. Por esse motivo, foram disparados mais de uma dúzia de tiros de peça, provocando o adornar da embarcação e o seu afundamento, de quilha para cima, para evitar que o casco fosse um perigo para a navegação.
(in Jornal “O Comércio do Porto”, segunda-feira, 20 de Setembro de 1948)

P.S.- Já em tempos fiz um estudo sobre o histórico deste lugre, reconhecendo agora a existência de algumas discrepâncias, que se ficaram a dever à existência até então desconhecida de um outro navio, também registado em Viana, com o mesmo nome e que navegou sensivelmente no mesmo período. Verifico constar nas listas de navios nacionais o mesmo lapso, referindo este navio erradamente como construído em Viana, certamente confusão gerada pelos mesmos motivos. Desse outro “Gaspar”, um lugre de 4 mastros efectivamente construído em Viana, para operar na navegação comercial de longo curso, farei a devida referência numa próxima oportunidade.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Navios bacalhoeiros da frota do Porto (IV)


O lugre-motor “Aviz”
1939 - 21.09.1965
Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., Porto

«Incêndio e afundamento nos bancos da Terra Nova do lugre-motor “Aviz”, cuja tripulação foi salva.»
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Segundo informação fornecida pelo Grémio dos Armadores dos Navios da Pesca do Bacalhau, por um telegrama do navio-hospital “Gil Eanes”, ontem recebido em Lisboa, o lugre-motor “Aviz”, que andava a pescar nos bancos da Terra Nova, foi abandonado devido a incêndio, impossível de dominar. Toda a tripulação foi salva pelos navios que pescavam nas proximidades, não se registando quaisquer desastres pessoais. O “Aviz” pertencia à Companhia de Pesca Transatlântica, do Porto e fora construído na Gafanha, em 1939. Era de madeira e deslocava 523 toneladas brutas, tendo capacidade para 8.814 quintais de bacalhau.
(In “Jornal de Notícias”, de 23 de Setembro de 1965)
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O "Aviz" ancorado em Lisboa, embandeirado para a cerimónia
da benção dos bacalhoeiros
Imagem (c) foto da minha colecção

A inesperada notícia do naufrágio apanhou a cidade marítima completamente desprevenida, notando-se à posteriori um enorme vazio no rio Douro. Não é por acaso que a presença costumeira e marcante do navio em Massarelos, seu principal ancoradouro, durante os meses de Inverno e na Primavera, dando ares de imponência, altivez e graciosidade, foi depois substituída por um compreensível lamento de perda e ausência.
Lembro-me do lugre desde muito jovem. Inicialmente, a minha ingenuidade levou-me a pensar tratar-se dum iate de recreio, pertença de gente abastada. Mais tarde, explicaram-me ser um lugre da pesca do bacalhau e chamaram-me a atenção para o facto daquele ser um dos últimos a navegar à vela. Na realidade existiam outros e ainda alguns mais modernos, completamente motorizados, que se encontravam dispersos pelo rio, cumprindo a mesma finalidade. A esses achei-os também interessantes, mas o “Aviz”, sem conseguir explicar a razão, era aquele que mais admirava, por ser muito mais bonito.

O "Aviz" durante a cheia do Douro em 1962
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos

Cada vez que revejo as fotos da cheia do Douro em 1962, lembro-me do navio, que apenas com mastros mochos, sem mastaréus e sem pau da bujarrona, desafiava com ousada elegância e serenidade, a corrente vertiginosa das águas, que corriam furiosas em direcção ao mar.
Acho que posso afirmar, que o construtor Manuel Maria Bolais Mónica, no seu estaleiro da Gafanha da Nazaré, em 1939, conseguiu finalmente colocar a navegar com extraordinário sucesso, uma embarcação de 4 mastros, rompendo a inépcia das diversas construções anteriores em madeira, que se revelaram autênticos fracassos.

Sequência de imagens do "Aviz" a navegar para os bancos e
durante uma escala para abastecer em S. João da Terra Nova
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes

O capitão Vitorino Ramalheira, último da lista dos oficiais que teve a seu cargo o comando do lugre, recorda em entrevista recente:
«Filho de pescadores, Vitorino Ramalheira foi aconselhado pelo pai a manter-se afastado da pesca do bacalhau. "Nunca gostei de pescar, mas sim de andar à procura de peixe", diz, depois de contar a estranha atracção que a pesca do bacalhau exerceu sobre ele: "Um dia, no Gil Eanes, desci a bordo de um barco onde estavam a fazer a escala do peixe. O cheiro a sangue era indescritível. Aquilo entusiasmou-me."
Em 1952 embarcou como piloto no “Elisabeth” porque queria casar-se e se ganhava mais no bacalhau - "E nunca mais saí." Comandou depois várias escunas, com as suas quatro velas, muito elegantes, "como gaivotas". Em 1960 tornou-se capitão do Aviz e, cinco anos depois, viu-o arder como uma tocha nos mares da Terra Nova. "Havia muitas gambiarras para se poder pescar à noite e, sendo um barco de madeira, impregnado de óleos, pouco mais havia a fazer do que deixar arder. Felizmente era Setembro, não estava muito frio, o tempo estava bom, e não se perdeu ninguém", conta.»
(In Jornal “Público”, Marmelo, Jorge, 02.01.2010)

Sequência de imagens do "Aviz" com os quetes a abarrotar
de peixe e o capitão Pascoal a exibir um magnífico exemplar
Imagens do capitão A. Pascoal - Colecção Dra. Ana Maria Lopes

Como sempre acontece, são muitas as histórias que se contam, de quem viveu as agruras e os sacrifícios da pesca nos bancos. Pela voz de quem por lá passou, fiquei a saber que ao contrário do que seria expectável, as tripulações e pescadores sofriam muito durante as viagens, receosos pela possibilidade de naufrágio, cada vez que os bordos do lugre por acção do mar alteroso, se inclinavam em demasia, beijando as ondas com total desprezo. Nessas ocasiões, escondidos para não mostrar as lágrimas no rosto, abnegadamente ofereciam preces aos seus dilectos santos protectores. Isto até ao momento em que cada um, sorteado o dóri que lhe cabia em sorte, se aventurava nas águas geladas, firmes e estóicos, capitães letrados das suas frágeis embarcações, envergonhavam Neptuno, com rasgos de temeridade e audácia.

O "Aviz" à chegada a Leixões para aliviar parte do pescado,
antes de seguir para o Douro
Imagem (c) Fotomar, Matosinhos

As características do navio, como segue :

Nº Oficial: C-127 > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Porto
Construtor: Manuel Maria Bolais Mónica, Gafanha, 1939
Arqueação : Tab 523,05 > Tal 350,54 > Pm 750 to > 8.814 qts
Cpmts.: Ff 51,48 mt > Pp 45,42 mt > Bc 10,30 mt > Ptl 5,06 mt
Máq.: Otto-Deutz, Hamburgo, 1938 > 1:Di > 480 Bhp > 7-9 m/h
Equipagem: 12 tripulantes
Em 1941 - 16 tripulantes > 49 pescadores > 57 dóris
Em 1943 - 13 tripulantes > 47 pescadores > 58 dóris
Após 1945 o navio alterou a matrícula para:
Nº Oficial: P-418-N > Iic.: C.S.G.R. > Registo: Capitania do Douro
Capitães embarcados: Manuel Nunes Guerra (1939 até 1946), João da Silva Peixe (1947), Manuel Santos Labrincha (1948 até 1952), António Morais Pascoal (1953 até 1959) e Vitorino Paulo Ramalheira (1960 até 1965).
O navio naufragou devido a incêndio, quando se encontrava a cerca de 94 milhas a Sul do porto de St. John’s, a 21 de Setembro de 1965.

Uma última notícia adiantava ainda mais pormenores do naufrágio: «Parte dos tripulantes do lugre “Aviz”, regressa a Portugal de avião»
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S. João da Terra Nova, 23 – Setenta e um pescadores do lugre português “Aviz”, foram salvos antes do barco se afundar na terça-feira, no Atlântico, após ter-se incendiado - revelou o seu comandante, Vitorino Ramalheira, ao chegar a esta cidade. Ramalheira disse ainda que ninguém ficara ferido. Trinta tripulantes do “Aviz” seguirão ainda esta semana de avião para Portugal. O comandante Ramalheira acrescentou que os restantes 41 tripulantes foram cedidos para prestarem serviço em outros barcos da frota de pesca portuguesa.
(In “Jornal de Notícias”, 24.09.1965)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Bom regresso a casa S.M.M.


Enfim, chegou...!

Logotipo de suporte ao projecto S.M.M.

O lugre que teve um regresso largamente comentado nas páginas dos amigos bloguistas nacionais, mereceu idênticas provas de regozijo através da comunidade internacional de “ship-lovers”, que seguiram com agrado a mais recente campanha do navio, que visou a sua total renovação. Algumas dessas pessoas passaram por Ílhavo/ Aveiro, tendo-se apercebido do estado em que a embarcação se encontrava, acompanharam interessados através do blog do navio e de outros blogs referenciais, o evoluir duma frutuosa caminhada, que teve o seu epílogo no último Domingo.
Realmente não podia ter voltado a casa em melhor altura, pois culminou uma semana em que o P.R. fez questão de salientar, que o futuro do país passa pelo regresso às actividades ligadas ao mar, ponto de honra para ajudar o país a sair da crise. Com toda a lógica, este elevado raciocínio recebeu a total anuência do P.M. e dos membros do Governo, que para o efeito começaram logo por adiar a proposta dos pescadores, no sentido de permitir a compra a preço minimamente aceitável, dos muito desejados fatos salva-vidas.

A notícia conforme publicada no "Diário de Notícias"
A única mas feliz excepção à regra

Face à importância do acontecimento, até porque o trabalho de recuperação do navio custou uma soma considerável, que neste caso poderá estar secundarizada, em função do muito que o navio pode vir a fazer em representação do país, lamentavelmente só encontrei referência ao evento no jornal “Diário de Notícias”, entre os outros/ muitos jornais do Porto/ nacionais, apesar de estar convencido, que os mídia foram em tempo devidamente informados. O desinteresse a que continuam votados os assuntos do mar, com excepção à morte de uns quantos pescadores e à incompreensível perseguição dos derrames de carbonetos no mar/ litoral (principalmente tratando-se do naufrágio de pequenas embarcações), espelha com preocupação o desconhecimento do trabalho quotidiano, que se estende à distância da visível e apetecível orla costeira.

Pelo empenho e exigência posto na renovação do SMM, queremos enviar os nossos parabéns aos Administradores da Pascoal, bem como a todos quantos trabalharam a bordo, por devolver este “cisne” ao seu habitat natural. A todos quantos nele viajarem, formulamos votos de bons ventos e grandes navegações. E já agora que se ajusta a oportunidade, desejamos igual sorte para o “Argus”, logo que possível, nesta profícua maré de investimentos.